Xinjiang, direitos humanos e o dilema do mundo diante da China

Xinjiang, direitos humanos e o dilema do mundo diante da China

15:04 - Muitos brasileiros possivelmente nunca ouviram falar de Xinjiang, a maior província da China. Mas é lá, segundo organizações de direitos humanos, que está em curso a mais ampla e sistemática perseguição a uma minoria desde a Segunda Guerra Mundial, com indícios de crimes contra a humanidade.

Para o governo chinês, esta é “a mentira do século”, promovida sob a liderança dos Estados Unidos para difamar o país. O desprezo de Donald Trump aos princípios democráticos deu à China munição para enquadrar a defesa dos direitos humanos feita pelos EUA como uma jogada hipócrita de Washington para atingir Pequim, em meio à crescente rivalidade entre as duas potências.

O problema na narrativa chinesa é que as denúncias de abusos em Xinjiang não vêm apenas do governo americano, mas de fontes “confiáveis”, de acordo com a ONU. Num momento em que pesquisas indicam um declínio considerável na imagem da China em escala global devido à percepção de que o país escondeu indícios sobre o início da pandemia em Wuhan, os perturbadores relatos de opressão da etnia muçulmana uigur em Xinjiang são mais um entrave na ambição de Pequim de ampliar sua influência mundial.

Esta semana, a diplomacia chinesa convocou para uma entrevista coletiva sobre Xinjiang jornalistas da mídia estrangeira baseados em Pequim, entre eles O Globo. Grande parte do evento, que incluiu vídeos e depoimentos de moradores, foi usada pelas autoridades para criticar a cobertura da mídia estrangeira sobre os abusos em Xinjiang. É uma campanha orquestrada por “forças anti-China”, dizem os chineses. Mas as denúncias não surgem do nada. Em 2018 um comitê da ONU anunciou ter relatos confiáveis de que dois milhões de uigures estavam detidos em “campos políticos de doutrinação” em nome do combate ao extremismo religioso, e que Xinjiang tinha virado um “imenso campo de detenção”.

Em seu relatório anual publicado nesta semana, a organização internacional Human Rights Watch acusou o governo chinês de persistir em uma operação para “apagar” a identidade cultural uigur em Xinjiang. Com base em imagens de satélite, a organização afirma que desde 2017 foram construídos 260 campos de detenção na região. Na entrevista do governo chinês, a denúncia dos supostos “campos de concentração” em Xinjiang foi classificada como uma “difamação perversa”. Segundo a versão chinesa, trata-se de “centros de treinamento e educação vocacional” criados para conter o terrorismo islâmico, não muito diferentes de programas de combate ao extremismo nos EUA, na França e no Reino Unido.

Elijan Anayat, porta-voz do escritório de informação de Xinjiang disse que todos os internos se formaram em outubro de 2019, “asseguraram empregos estáveis com a ajuda do governo e começaram uma vida feliz”. Nem tanto, segundo o governo canadense, que esta semana se uniu aos EUA e ao Reino Unido num boicote a produtos chineses em que há suspeita de trabalho forçado em Xinjiang. Uma investigação do Parlamento canadense concluiu que o tratamento da população uigur equivale a “genocídio”.

Engajado numa aliança ultraconservadora em defesa da liberdade religiosa criada pelo governo Trump, o Brasil mostra preocupação com o aumento da “cristofobia” no mundo, mas se mantém ausente no coro de países que criticam a repressão chinesa aos muçulmanos. No ano passado 39 países apoiaram uma declaração na ONU condenando as violações de direitos humanos em Xinjiang, mas o Brasil decidiu ficar de fora. Embora não esconda suas diferenças ideológicas com o regime chinês, o governo Bolsonaro não quis comprar essa briga, provavelmente por saber que a resposta de Pequim seria dura. É um confronto indigesto, mesmo para quem tem mais poder de barganha: o recente acordo de investimentos China-União Europeia tem sido atacado por políticos europeus que consideram que o bloco desistiu da defesa de seus valores em troca do mercado chinês.

Muitos dirão que chamar campos de concentração de “centros vocacionais” é uma modalidade chinesa de “novilíngua”, o termo criado por George Orwell no livro 1984 para descrever a transformação das palavras por regimes autoritários. O que parece claro é o esforço do governo chinês em redefinir o que são direitos humanos, com ênfase não em liberdades individuais, mas em desenvolvimento e subsistência. Quem acompanha de dentro o Conselho de Direitos Humanos da ONU, no qual a China assumiu uma cadeira no início do ano, é testemunha disso. Antes na defensiva, os diplomatas chineses têm se mostrado cada vez mais proativos no Conselho para “inocular seus conceitos e moldar o discurso de acordo com sua visão de mundo”, me disse um diplomata.

Não é fácil saber exatamente o que acontece em Xinjiang. A maioria das informações conhecidas sobre a repressão vem de uigures que vivem no exterior ou de dados obtidos à revelia do regime chinês, como imagens de satélites e raros documentos vazados. Se não tem o que esconder, a China deveria permitir o trabalho sem restrições de jornalistas e organizações de direitos humanos em Xinjiang, o que não acontece. Livre acesso para verificar as denúncias é o que pede a ONU há anos.

Foi também o que reivindiquei durante a entrevista com as autoridades de Xinjiang. “Os jornalistas estrangeiros são bem-vindos, se estiverem disposto a ir”, me respondeu a porta-voz Anayat. Diante das enormes dificuldades encontradas por colegas que estiveram em Xinjiang, fiquei em dúvida se o convite é uma nova política, ou apenas novilíngua.

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