'Vizinhos temem muito': bloqueio da Argentina revela Brasil isolado e 'caótico', diz analista

'Vizinhos temem muito': bloqueio da Argentina revela Brasil isolado e 'caótico', diz analista

Na sexta-feira (26), o governo argentino decidiu barrar todos os voos vindos do Brasil com o objetivo de conter o avanço da COVID-19. Para comentar o assunto, a Sputnik Brasil ouviu o cientista político Paulo Velasco, que aponta que a medida revela o encolhimento do Brasil na região.

A medida do governo argentino, que também barra voos de Chile e México, serve como forma de proteção contra variantes do vírus SARS-CoV-2 que têm circulado nos países, como a cepa brasileira, que é mais transmissível que a original. Até então, apenas voos do Reino Unido estavam proibidos na Argentina - também devido a uma cepa do novo coronavírus.

Apesar da existência de pelo menos 27 mil argentinos fora do país, Buenos Aires decidiu que não realizará voos de repatriação de seus nacionais. No ano passado, voos do tipo levaram cerca de 200 mil pessoas de volta à Argentina. Os argentinos que estão no exterior e quiserem regressar terão que realizar isolamento de 14 dias e apresentar testes negativos de COVID-19 - tudo custeado pelo próprio viajante.

A atual situação da pandemia no Brasil é mais grave do que na Argentina. Segundo os dados da Universidade Johns Hopkins, a Argentina acumula 55 mil mortes e 2,7 milhões de casos confirmados de COVID-19, sendo hoje o 13º país com mais mortes causadas pela doença. Já o Brasil, que nos últimos dois meses bate recordes sucessivos de mortes, se aproxima de 311 mil óbitos pelo novo coronavírus e passa de 12,5 milhões de infecções detectadas - o segundo país mais impactado pela pandemia, atrás apenas dos Estados Unidos.

Impactos econômicos do bloqueio de voos do Brasil
Para o cientista político Paulo Velasco, professor de Relações Internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), os impactos econômicos das restrições impostas pela Argentina serão maiores no turismo e no fluxo de pessoas, apesar de as relações comerciais entre os países já estarem recuando.

"A princípio, as restrições nas fronteiras, sejam terrestres, marítimas, e agora aéreas, elas impactam o dia a dia das pessoas, ou seja, impedem o fluxo de turistas entre os países. Lembrando que essas medidas não se aplicam só em relação ao Brasil. A restrição de chegada de voos também foi implementada em relação ao México, em relação ao Chile, mas afetam principalmente a vida das pessoas", afirma o professor em entrevista à Sputnik Brasil.
Segundo dados de 2019 do Ministério do Turismo e da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), a Argentina é o país que mais envia turistas ao Brasil, com um fluxo quase cinco vezes maior do que o segundo colocado, os Estados Unidos.

Velasco lembra que as medidas de restrição refletem a posição que o Brasil assumiu de preocupação para os outros países da região, mas explica que o comércio internacional com a Argentina, no entanto, deve sofrer menor impacto como consequência da proibição de voos.

"É claro que há impactos econômicos, até por conta da restrição ao turismo, que é sempre uma atividade importante quando pensamos entre Brasil e Argentina, na relação entre os dois, mas a princípio o fluxo de mercadorias não se vê diretamente afetado. É claro que pode haver impactos indiretos, mas não há um impedimento no fluxo de mercadorias entre os dois países", ressalta o cientista político.
Apesar disso, o comércio bilateral com a Argentina não vive seu melhor momento. Em 2020, a Argentina, chegou a perder o posto de terceiro maior destino das exportações brasileiras para os Países Baixos, atrás ainda de China e Estados Unidos. Conforme dados do Ministério da Economia brasileiro, o saldo comercial com a Argentina em 2020 ficou positivo em US$ 700 milhões (cerca de R$ 4 bilhões), sendo que no ano anterior recuou em US$ 760 milhões (cerca de R$ 4,3 bilhões). Em 2018, porém, o saldo foi mais de cinco vezes maior, com cerca de US$ 3,8 bilhões (cerca de R$ 21 bilhões) nas trocas entre os países.

Mesmo com a melhora da balança comercial do Brasil com a Argentina em 2020, os números de exportação e importação continuaram a tendência de queda que vinha desde o ano anterior. Se em 2018 as exportações para a Argentina eram de US$ 14,9 bilhões (cerca de R$ 85 bilhões), o número recuou para US$ 9,8 bilhões (cerca de R$ 56 bilhões) em 2019 e depois para US$ 8,5 bilhões (cerca de R$ 48,9 bilhões) em 2020. Já as importações do Brasil para com a Argentina também recuaram nos últimos três anos. Em 2018, somaram US$ 11 bilhões (cerca de R$ 63,3 bilhões); em 2019, US$ 10,5 bilhões (cerca de R$ 60,5 bilhões); e em 2020, US$ 7,8 bilhões (cerca de R$ 44,9 bilhões).

Relação bilateral já é ruim e não deve piorar com restrição de voos
Brasil e Argentina não estão no melhor momento de suas relações diplomáticas. As diferenças políticas entre as lideranças dos dois países têm distanciado as duas nações, historicamente parceiras na região, como explica o professor Paulo Velasco.

"É claro que existem os contatos técnicos em escalas inferiores, mas no que diz respeito ao diálogo de alto nível, tão importante para impulsionar a parceria bilateral - estamos falando de uma aliança estratégica entre Brasil e Argentina - esse diálogo de alto nível praticamente inexiste", avalia o professor.
Os dois presidentes, Alberto Fernández e Jair Bolsonaro (sem partido), trocam farpas desde a posse do argentino e dialogaram abertamente apenas em dezembro do ano passado, durante encontro virtual. Apesar disso, a situação continua complicada. Na reunião do Mercosul, realizada na sexta-feira (26), a Argentina se opôs às mudanças propostas por Paraguai, Uruguai e Brasil, por exemplo.

"Vimos mais uma vez na cúpula de ontem [na sexta-feira (26)], que celebrava os 30 anos do Mercosul, um clima de extrema frieza entre Fernández e Bolsonaro. Bolsonaro, inclusive, se retirou antes do fim do encontro virtual da cúpula. Então, não é um bom momento para as relações bilaterais Brasil-Argentina", aponta.

Nesse sentido, para o analista político, a restrição de voos não chega a piorar a relação entre os dois países, que já se encontra em um momento ruim. Para Velasco, essa deveria ser uma relação mais ativa, de diálogo permanente, lembrando que a Argentina é o maior parceiro comercial do Brasil na região.

"Eu nem acredito que a restrição à entrada de brasileiros e aos voos entre os países seja um agravante ou piore a relação. Na verdade, a relação já é uma relação muito atrapalhada por esse clima de indiferença e às vezes até de hostilidade ideológica que temos visto entre os dois presidentes. Isso é muito pernicioso para uma relação tão importante", ressalta o professor.
Brasil, pária sanitário e político, perde espaço na região
O Brasil, acossado pela pandemia da COVID-19 e pela crise política, continua perdendo espaço como liderança regional na América do Sul. Segundo o professor Paulo Velasco, apesar do aprofundamento recente, esse quadro segue se deteriorando pelo menos desde a crise política que culminou no impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), em 2016.

"O Brasil não tem se mostrado no espaço sul-americano como em outros tempos, aquela voz de liderança, aquele ator que de alguma maneira lançava as iniciativas, guiava as distintas iniciativas", aponta.
O cientista político vê o papel do Brasil no continente cada vez mais como de um ator coadjuvante, seja no campo diplomático, como na crise na Venezuela, ou mesmo em outras medidas alinhadas ao atual governo.

"O Brasil tem tido uma presença, por incrível que pareça, mais coadjuvante na América do Sul em iniciativas marcantes, como, por exemplo, o Fórum para o Progresso e Desenvolvimento da América do Sul, o chamado Prosul, lançado em 2019, que não teve o Brasil como um de seus realizadores, como um dos formuladores. Os países que guiaram aquele processo foram Colômbia e Chile", lembra.

Velasco acredita que a forma como o atual governo lida com a crise sanitária deixa o Brasil ainda mais isolado na região.

"Já faz algum tempo que o Brasil de fato não goza de uma posição de líder na América do Sul e certamente a crise sanitária brutal que estamos vivendo e o absoluto descontrole da pandemia nos coloca em uma situação ainda mais delicada. Os vizinhos temem muito o Brasil", aponta Velasco.
O cientista político lembra que o Brasil é hoje visto como um disseminador de novas variantes da COVID-19, imagem agravada pelo histórico recente de ações e declarações do presidente brasileiro em relação à pandemia.

"[Essa situação se dá] muito pela própria postura do governo, a incompetência do presidente em lidar com a crise, em lidar com a pandemia, em declarações ao longo, enfim, de todo o último ano, para lá de controversas [...]. Então, certamente a nossa imagem será prejudicada sim, ainda mais nesse contexto tão caótico", conclui.

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