Vacina antecipa disputa política entre Bolsonaro e Doria. Entenda as estratégias

Vacina antecipa disputa política entre Bolsonaro e Doria. Entenda as estratégias

Datafolha aponta que 46% acham que o governador de São Paulo fez mais contra a pandemia do que Bolsonaro

A briga política entre o presidente Jair Bolsonaro e o governador de São Paulo, João Doria, amplificada pelo antagonismo em torno da vacinação contra o coronavírus, já traz repercussões para a disputa pelo Palácio do Planalto em 2022, quando ambos serão prováveis nomes na urna.

De um lado, Doria ganhou fôlego após conseguir a aprovação do uso emergencial da CoronaVac e iniciar a vacinação em seu estado antes do Ministério da Saúde. Pesquisa Datafolha divulgada ontem aponta que 46% dos brasileiros acham que o governador de São Paulo fez mais contra a pandemia da Covid-19 do que Bolsonaro. Segundo o levantamento, 28% acham que o presidente se empenhou mais do que o tucano.

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Doria percebeu o movimento e intensificou a briga pública com o presidente, chamando-o de facínora e incentivando a população a bater panela em protesto contra o governo federal. Ontem, o governador paulista promoveu um evento pró-vacinação que contou com os ex-presidentes Michel Temer, Fernando Henrique Cardoso e José Sarney. Lula, Dilma Rousseff e Fernando Collor não compareceram.

Somente entre os que afirmam viver uma vida normal na pandemia, Bolsonaro é mais bem avaliado. Nesse grupo, 46% acham que o presidente gerencia melhor as medidas de combate ao coronavírus, ante 28% que apontam o governador de São Paulo como melhor gestor.

O instituto ouviu por telefone 2.030 pessoas, nos dias 20 e 21 de janeiro. A margem de erro é de dois pontos para mais ou menos.

Favoritismo na Câmara
O favoritismo do candidato governista Arthur Lira (PP-AL) na disputa pela presidência da Câmara dos Deputados, contra o candidato de Doria, o deputado Baleia Rossi (MDB-SP), no entanto, pode voltar a desequilibrar o jogo pró-Bolsonaro.

Caso se confirme a vitória de Lira, a base governista deverá ser reorganizada após o carnaval, movida pela prometida reforma ministerial. Neste cenário, a nova configuração vai trazer o centrão ainda mais para perto do governo, o que poderá atrair também mais nomes de outras legendas, como DEM e PSD — os dois partidos já têm ministros, mas os comandos das siglas dizem que as nomeações são da “cota pessoal” de Bolsonaro.

A saída de Rodrigo Maia (DEM-RJ) da presidência da Câmara poderá fortalecer o grupo do DEM mais interessado em aliar-se ao governo federal, mas o vice-governador de São Paulo, Rodrigo Garcia (DEM), trabalha para tentar conter este quadro e garantir o partido pelo menos em posição neutra, tendo em vista o jogo da eleição presidencial do ano que vem.

O desafio de Doria é furar este cerco e buscar reconhecimento e votos em regiões onde integrantes do próprio PSDB torcem o nariz para ele, como no Norte e no Nordeste, e em estados como Minas Gerais.

Segundo o Datafolha, Doria é mais bem avaliado entre quem toma cuidados em relação à pandemia (45% a favor do tucano ante 31% do presidente), quem só sai de casa por necessidade (50% a 20%) e quem está isolado (57% a 22%).

Entre os mais ricos, que ganham mais de 10 salários mínimos mensais, há um equilíbrio de percepção: 41% acham que Doria se sai melhor, e 37%, Bolsonaro.

O protagonismo de Doria garantiu uma vacina produzida no Brasil, resultando em respeito entre colegas governadores. Ao mesmo tempo, a tinta pesada aplicada no marketing pessoal do governador também causou incômodo.

A briga entre Bolsonaro e Doria repercute diretamente no andamento da administração tucana em São Paulo: há atraso em projetos de infraestrutura que dependem de repasses da Caixa Econômica Federal. A interlocução entre as áreas técnicas dos dois governos também está paralisada pelo clima de beligerância política.

Do lado governista, a aposta é na neutralização da vantagem obtida por Doria com a CoronaVac, a partir do momento em que a Fiocruz liberar as primeiras doses da segunda vacina produzida no país, em parceria com o laboratório AstraZeneca e a Universidade de Oxford, a partir de março.

Segundo um parlamentar aliado do governo, a “solução” para as dificuldades enfrentadas com a vacina já apareceu, o que, segundo ele, também vai ajudar a limitar o debate sobre um possível impeachment à oposição.

A reprovação a Bolsonaro aumentou oito pontos percentuais: 32%, em dezembro, para 40%, na semana passada, segundo o Datafolha. O fim do auxílio emergencial, que deixou de ser pago em dezembro; a aplicação da CoronaVac, que o presidente chegou a ironizar; e o aumento da crise pela pandemia ajudam a explicar a piora no desempenho do presidente, segundo analistas. A maioria dos brasileiros (53%), no entanto, é contra a abertura de um processo de impeachment contra o presidente.

— Doria conseguiu se projetar com a vacina, mas trata-se de visibilidade construída em relação a uma questão sanitária e de saúde. Numa disputa presidencial, ele também terá que se posicionar sobre temas que dividem o eleitorado. Terá que ser mais que o candidato da vacina CoronaVac — diz o cientista político e professor da Universidade Federal de São Carlos (Ufscar), Fernando Antônio de Azevedo.

O índice dos que acham o desempenho de Bolsonaro ruim ou péssimo no combate à pandemia subiu de 42% para 48%. Aprovam o trabalho do presidente 26%, mesmo índice de dezembro, e consideram regular 25% dos entrevistados.

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