Uma longa espera para vender carros à Argentina

Uma longa espera para vender carros à Argentina

Governo de Alberto Fernández deixa US$ 100 milhões em exportações brasileiras de automóveis parados na fronteira com a demora cada vez maior para a liberação de licenças de importação. Brasília leva queixas ao país vizinho

Um novo conflito opõe Brasil e Argentina, desta vez envolvendo exportações brasileiras de automóveis para o país vizinho. Restrições impostas por autoridades argentinas deixaram US$ 100 milhões em vendas de montadoras brasileiras parados na fronteira. O governo de Jair Bolsonaro já se queixou à secretaria da Indústria do presidente Alberto Fernández. Segundo fontes, o Brasil avalia todas as possibilidades, entre elas retaliações ou até mesmo denunciar o acordo automotivo bilateral, o que na prática seria revogar o entendimento unilateralmente.

As primeiras queixas começaram a circular no começo do ano, pouco depois da posse de Fernández. Nas últimas semanas, intensificaram-se. A Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) informou o governo brasileiro sobre a morosidade cada vez maior do governo argentino para liberar a entrada de importações brasileiras, descumprindo regras da Organização Mundial de Comércio (OMC) e o acordo bilateral.

O prazo máximo dado pela OMC para o sinal verde de licenças não automáticas é de 60 dias. Já o entendimento entre os dois governos, que prevê a liberalização total do comércio de veículos até junho de 2029, estabelece limite de dez dias. Nos últimos meses, com a economia argentina mergulhada numa crise profunda, com previsão de queda do PIB de até 10%, alguns processos superaram 90 dias.

Segundo o presidente da Anfavea, Luiz Carlos Moraes, a escassez de dólares no país vizinho (hoje os argentinos podem comprar apenas US$ 200 mensais e há rumores de que o limite pode ser reduzido) acabou criando um sistema de comércio administrado, que agrava o problema.

Entendemos as dificuldades na Argentina, pela escassez de divisas, mas acordos são acordos disse Moraes ao GLOBO. Isso nos preocupa, porque esse tipo de restrição prejudica a previsibilidade do setor e o planejamento. Temos um sistema produtivo integrado no Mercosul.

VIÉS PROTECIONISTA
As exportações do setor automobilístico representaram 4,3% do total das vendas brasileiras no exterior em 2019. Nesse ano, os embarques para o mercado argentino totalizaram 216.554 unidades, totalizando US$ 2,4 bilhões. No primeiro trimestre de 2020, foram enviadas 50.777 unidades, queda de 19% frente ao ano anterior. Nesta fase atual do acordo, o Brasil pode exportar para a Argentina US$ 1,8 para cada US$ 1 importado.

Há preocupação no governo brasileiro por uma tendência da Argentina de Fernández e sua vice, a ex-presidente Cristina Kirchner, ao protecionismo comercial. O governo argentino chamou a atenção com uma tentativa frustrada de expropriar uma empresa do setor agrícola e, mais recentemente, com o anúncio do congelamento de tarifas do setor de comunicações até dezembro de 2020. Paralelamente, algumas montadoras teriam sofrido pressões para obter a liberação de licenças em troca de promessas de investimento na Argentina.

Parece que o governo argentino está querendo fazer política industrial administrando o comércio diz uma fonte do governo brasileiro. A tensão por conta das barreiras aos veículos brasileiros vem à tona no momento em que o governo Fernández, por meio de seu novo embaixador em Brasília, Daniel Scioli, vem mostrando forte interesse em trabalhar com o governo brasileiro para reativar o comércio.

Em duas semanas, Scioli foi recebido por Bolsonaro, o chanceler Ernesto Araújo e a ministra da Agricultura, Tereza Cristina. A todos expressou o desejo de seu país de equilibrar a balança comercial, já que nos últimos 15 anos a Argentina acumula déficit com o Brasil de US$ 52 bilhões.

Uma fonte da embaixada argentina afirmou que `92% dos pedidos são autorizados em menos de 72 horas` e que, ao longo deste ano, foram aprovados documentos para US$ 5 bilhões, dos quais não foram usados US$ 993 milhões. Diplomatas argentinos têm se reunido com as empresas. Uma nova rodada de conversas acontecerá em outubro.

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