Uma estratégia de retomada da economia

Uma estratégia de retomada da economia

Recuperação poderá vir cio tripé energia, agricultura e exportações, como em 1984-86. Os resultados mais recentes do nível de atividade econômica parecem indicar taxa de crescimento do PIB próxima ele 1% em 2019, inferior ao resultado de 2018.

Para muitos analistas, uma desagradável indicação de estagnação. Há um consenso de que a recuperação dos investimentos, da produtividade global dos fatores, da competitividade e consequentemente do crescimento mais robusto da atividade depende ela entrega de resultados razoavelmente convincentes para as principais reformas do Estado, a começar pela reforma ela previdência, seguida do `pacto federativo`, da reforma tributária, do ajuste patrimonial do Estado (privatizações), da abertura da economia e de uma ampla agencia microeconômica voltada à redução do chamado `custo ele transação` e ela revitalização elo setor privado.

Todavia, cresce a impaciência dos principais agentes da economia, nomeadamente no setor privado, nacional e estrangeiro, por conta da eventual demora dos resultados esperados. Cresce, por tanto, o clamor por medidas que possam ajudar a recuperar os níveis ele atividade enquanto se aguarda os resultados.

A grande pergunta é se seria possível implementar desde logo algumas medidas de estímulo que não colidam com a racionalidade ela estratégia pretendida e que não configurem mais um dos muitos `voos de galinha` das últimas décadas. Ou seja, algo que seja perfeitamente compatível com os fundamentos macroeconômicos imprescindíveis ao crescimento sustentado, na forma como estão propostos na atual agenda das reformas.

Nesse sentido vale uma breve retrospectiva histórica de um período vivido em meados dos anos 80, que ficou conhecido no seu todo como a `década perdida`, mas que, no entanto, contou com uma fase favorável de crescimento, antes que a `marcha da insensatez` dos planos econômicos de combate à inflação sem ajuste fiscal levassem tudo a perder.

Foi no período 1984-86, depois de três anos de recessão causada pela necessidade de ajustes na esteira da crise da dívida externa, que a atividade econômica logrou manter crescimento médio de 7% ao ano. Um resultado significativo e que nos dias hoje parece até um sonho de uma noite de verão!

Como aquilo foi possível? O ano de 1983 havia sido muito sofrido em função dos ajustes patrocinados pelas condicionalielades exigidas pelo FMI para a recuperação do setor externo da nossa economia. E de fato não havia muita escolha naquela época. Nossas reservas cambiais chegaram rigorosamente a `zero`. A economia estava na UTI.

Foi naquele ano, porém, que o governo propôs uma estratégia de recuperação da economia apoiada em três pilares básicos: investimentos em energia, para superar os efeitos da crise do petróleo e estimular fontes alternativas, como o programa `Proálcool`; estímulos ao aumento da produção agropecuária, para aumento da oferta interna e das exportações; e políticas mais incisivas de aumento das exportações em geral, para maior oferta de divisas (recuperando nossas reservas cambiais) e maior impulso ao crescimento do PIB.

Investimentos no pré-sal pela Petrobras e empresas privadas terão efeitos indutores na economia

Os resultados foram expressivos. Embora o ajuste fiscal tivesse ficado prejudicado pelo fraco desempenho do acordo com o FMI após 1985, a economia experimentou crescimento de 5,4% em 1984, 7,8% em 1985 e 7,5% em 1986. Nesse último ano, é claro, ajudada pela euforia inicial com o congelamento dos preços no Plano Cruzado.

Muito colaboraram para os bons resultados do PIB as condições favoráveis do ciclo de crescimento ela economia mundial naquele período, nomeadamente o forte crescimento elos preços das principais `commodities` produzidas e exportadas pelo Brasil.

Estamos, talvez, em condições semelhantes de nos beneficiar ele uma estratégia de recuperação baseada nesse mesmo tripé: energia o provável efeito do `boom` ele produção de petróleo com o pré-sal, novas descobertas recentes e o possível `choque de energia barata` com maior utilização do gás natural; agricultura e exportações, tanto pelos efeitos de um ciclo favorável de cotações das nossas principais `commodities` como pelas possibilidades que podem surgir com a agenda da abertura da economia e os impulsos provenientes de mercados complementares ao Brasil, notaelamente China e União Européia, neste caso pela via de um acordo no âmbito do Mercosul, e possivelmente Japão.

Vejamos alguns fatos e dados recentes. Os preços das `commodities` exportadas pelo Brasil subiram 1,53% em abril, e 2,57% em março, segundo dados do Banco Central, com isso acumulando alta de 10,97% em 12 meses. No caso dos produtos agropecuários, o índice IC-Br indicou alta ainda mais elevada, de 14,34% em 12 meses. Já no grupo `petróleo, gás, carvão` as altas foram de 3,56% em abril, 3,24% no ano e 8,17% em 12 meses.

Nos últimos dois meses outro indicador, o índice Bloomberg de `commodities` agrícolas, cotadas em dólar, mostrou alta ele quase 10%, embora no período da mais longo (um ano) tenha sofrido depreciação.

Essa evolução recente reflete alguma pressão da demanda mundial por esses produtos (em grande parte pela China), que poderá beneficiar nossas exportações. Algo semelhante ao que ao ocorreu entre 1984-1986.

No setor de energia, os investimentos programados para a extração das reservas de petróleo do `pré-sal`, pela Petrobras e concessionárias privadas podem ter efeitos importantes nas regiões produtoras e efeitos induzidos na economia como um todo, até pelos efeitos multiplicadores dos investimentos. Há ainda a já citada possibilidade ele um `choque ele energia barata` pela maior utilização e pelo menor preço do gás natural.

A política de exportações talvez mereça um foco mais acurado. Depois de uma longa ausência ele uma estratégia compreensiva ele promoção de exportano ções, nos últimos meses o governo tem tido sucesso em finalizar os os acordos comerciais elo Mercosul com a União Européia, o que abre amplas perspectivas para nossas exportações. Por outro lado, as iniciativas recentes de entendimentos com a China, nosso principal mercado externo, parecem finalmente oferecer boas ele perspectivas.

No que toca aos produtos minerais, matérias-primas em geral do e produtos manufaturados, há também necessidade de maior apoio no sentido do aproveitade mento das condições favoráveis que possam surgir, nomeadamente pelos órgãos ele promoção comercial, para uma estratégia mais compreensiva e eficaz ele médio e longo prazo.

Enfim, as sugestões apresentadas são no sentido de se formular uma linha de prioridades estratégicas em apoio aos esforços do setor privado, mas que sejam compatíveis, na verdade complementares, com o encaminhamento das reformas do Estado e da abertura da economia, visando uma retomada mais rápida dos níveis de atividade da economia.

Carlos von Doellinger é economista e presidente do Ipea.

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