Um poeta na mira da caça às bruxas

Um poeta na mira da caça às bruxas

0 obscurantismo chegou ao Itamaraty antes de Ernesto Araújo.

Na época da Guerra Fria, outro surto ideológico levou à perseguição de diplomatas. Seu alvo mais ilustre foi o poeta João Cabral de Melo Neto.

A caça às bruxas foi iniciada por Carlos Lacerda, adversário feroz do governo Getúlio Vargas. Em junho de 1952, ele bradou na `Tribuna da Imprensa` contra a existência de uma `célula comunista` no serviço exterior.Sem provas, denunciou um complô para `colocar os segredos militares brasileiros nas mãos de Moscou`.

O autor de `Morte e Vida Severina` servia como segundo secretário na embaixada de Londres. De lá, segundo Lacerda, comandaria um `plano diabólico` contra o próprio país. Ele ainda teria montado uma tipografia para imprimir panfletos marxistas.

`Existe um grão de verdade nesse pedaço da história`, conta a professora Heloisa Starling, em artigo na nova edição do `Suplemento Pernambuco`. João Cabral tinha uma prensa mecânica, que usava para imprimir versos de outros poetas. `Não se conhece nenhum panfleto soviético dessa prensa`, escreve a historiadora da UFMG.

Apesar da fragilidade das acusações, Getúlio cedeu à campanha. Em março de 1953, puniu o escritor com o afastamento não remunerado. João Cabral teve que voltar ao Brasil. `Ele ficou muito abatido com a perseguição. Sem o salário de diplomata, passou afazer traduções para sobreviver`, conta o professor da USP Ivan Marques, que prepara uma biografia do poeta.

Em setembro de 1954, oito dias após o suicídio do presidente, o Supremo Tribunal Federal julgou o caso de João Cabral. `Nenhum ato praticou o impetrante suscetível de iniciar a execução do crime que se lhe atribui`, constatou o ministro Luiz Gallotti. Por unanimidade, a Corte considerou que a punição foi ilegal e determinou a reintegração do diplomata.

A ordem só seria cumprida no ano seguinte. Devolta ao Itamaraty, João Cabral foi enviado para Sevilha, onde se dedicou a pesquisas no Arquivo Geral das índias. As praças da cidade espanhola viraram cenário constante de sua obra literária, como o sertão de Pernambuco. Ontem o poeta teria completado 100 anos.

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