Tirania de Cuba nunca caiu, e o mesmo está acontecendo na Venezuela, afirma Álvaro Uribe

Tirania de Cuba nunca caiu, e o mesmo está acontecendo na Venezuela, afirma Álvaro Uribe

Ex-presidente colombiano, que passou dois meses em prisão domiciliar, foi principal adversário de Chávez na América Latina

Ex-presidente da Colômbia, Álvaro Uribe afirmou à Folha que a ditadura na Venezuela se estabilizou diante do apoio que Nicolás Maduro mantém de Rússia e China, além da lealdade das Forças Armadas chavistas.

"A tirania na Venezuela está estabilizada, falo isso com tristeza", disse o ex-líder colombiano, que durante o período que governou o país (2002-10) foi o principal adversário de Hugo Chávez na América Latina.

Neste domingo (6), a Venezuela realiza eleições parlamentares para compor a Assembleia Nacional, em um pleito marcado pelo boicote de parte da oposição ao regime. Para os contrários a Maduro, participar do processo é chancelar a legitimidade da ditadura do país caribenho.

Político mais poderoso —e mais polarizador— da Colômbia, Uribe esteve mais de dois meses em prisão domiciliar devido a uma ação por obstrução de Justiça. Ele diz que as acusações têm motivação política.

Na entrevista, concedida por videoconferência de seu estado-natal, Antioquia, Uribe atacou o acordo de paz com as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), assinado por seu sucessor, Juan Manuel Santos. "O acordo não produziu paz, apenas mais violência", disse.

O sr. foi um líder de direita em uma América do Sul com expoentes da esquerda como Chávez, Lula e Cristina Kirchner. Hoje temos Bolsonaro no Brasil e Iván Duque na Colômbia, mas também Alberto Fernández na Argentina e Luis Arce na Bolívia. Como vê o momento político atual da região? Neste ano, a América Latina está perdendo dez anos de redução da pobreza, e isso gera muita incerteza e preocupação. Eu sigo pensando no que considero fundamental para nossa região, e isso não mudou com a pandemia. Os países devem ter segurança e grande compromisso na promoção da iniciativa privada. Simultaneamente é preciso criar políticas sociais.

Quando presidi a Colômbia, não é que o país tenha se convertido num paraíso, mas melhorou muito. Reduzimos a pobreza em 12 pontos percentuais, foi uma melhora substancial. Olhando para o período de pós-pandemia, o fundamental é que nossos países pensem em promover muito a iniciativa privada com políticas sociais, que andam de mãos dadas.

O sr. fala em programas sociais, mas essas políticas sempre estiveram mais associadas à esquerda. Nem eu sou de direita nem as políticas sociais são monopólio da esquerda. Inclusive a esquerda acaba com políticas sociais porque mata a fonte de renda [de um país], que é a iniciativa privada. [Hugo] Chávez acabou com a iniciativa privada e deixou a Venezuela sem renda para as políticas sociais. Acabaram com as empresas privadas, e a pobreza passou de 40% para 86% [da população].

Na Colômbia eu fui reeleito, e Juan Manuel Santos [seu ex-ministro e hoje inimigo político] foi eleito com nossas bandeiras porque tínhamos um grande equilíbrio entre segurança com valores democráticos e políticas sociais. É um caso particular que não cabe em classificações simplistas.

O tema que hoje une Brasil e Colômbia é a oposição ao regime de Maduro na Venezuela. A estratégia vai mudar com a saída de Donald Trump e a chegada de Joe Biden à Casa Branca? Como presidente da Colômbia eu tive profundas diferenças com o regime de Chávez na Venezuela. É importante pensar no que ocorreu: Chávez falava de respeito à democracia e à empresa privada, de luta contra a corrupção e de redução dos níveis de pobreza. Foi eleito e eliminou liberdades democráticas, inclusive a liberdade de imprensa. Em seguida expropriou as empresas mais importantes do país e anulou a criatividade da iniciativa privada. [Os chavistas] se dedicaram a comprar a lealdade das Forças Armadas, enriquecendo [os militares] com corrupção.

O que existe hoje? A tirania na Venezuela está estabilizada, digo isso com tristeza. Porque ela tem recursos da China e da Rússia, ainda mantém uma produção remanescente de petróleo, porque vende ouro, tem o narcotráfico colombiano e o apoio de grupos terroristas. Além do mais, porque [os chavistas] compraram com corrupção a lealdade das Forças Armadas.

Sobre os Estados Unidos, no início dos anos 1960 eles viveram uma ameaça no marco da Guerra Fria, a instalação de foguetes nucleares em Cuba. Acho que hoje existe outra grande ameaça, a instalação de grupos terroristas na Venezuela, todos inimigos dos EUA. Isso não muda com o presidente Biden. Pode ser que tenha um discurso menos forte, mas a ameaça de fundo segue existindo.

A estratégia de Trump de pressão total contra Maduro fracassou? Quando minha geração era jovem, a cada 1º de janeiro, no aniversário da Revolução Cubana, nos diziam: "Neste ano a tirania em Cuba vai cair". Nunca caiu, estabilizou-se e frustrou três gerações de cubanos. O mesmo está acontecendo na Venezuela. Não vou criticar esforços, mas é certo que eles não foram suficientes.

Especulou-se no ano passado sobre uma possível intervenção armada na Venezuela, com o apoio de Brasil, Colômbia e EUA. O governo do presidente [Iván] Duque nunca considerou essa opção. Tenho de deixar muito claro: o que já expressei é que as Forças Armadas da Venezuela deveriam ter retirado o apoio a Maduro. Deveriam ter apoiado o presidente [Juan] Guaidó [líder opositor] para que eleições livres fossem convocadas. Mas isso não ocorreu.

O sr. foi liberado recentemente de prisão domiciliar em um caso que ainda responde por obstrução de Justiça. Ao mesmo tempo, seu partido defende uma reforma do sistema judicial colombiano. O objetivo dessa reforma é beneficiá-lo? Essa é uma interpretação muito equivocada. O nosso partido propõe há muitos anos uma reforma da Justiça. Eu defendo isso desde 1991, quando foi promulgada a nova Constituição. Não tem nada a ver com o meu processo.

Mas vamos a ele: quem ordenou minha prisão domiciliar foi um magistrado [da Corte Suprema] que tinha vínculos financeiros com o governo Santos. E esse magistrado me impôs uma prisão domiciliar sem se declarar impedido, o que mostra perseguição política. Meu telefone foi interceptado em 22 mil ocasiões, todas de forma ilegal. Violaram minhas conversas com meu advogado. E nas interceptações não há uma palavra em que eu viole o Código Penal.

O pano de fundo do processo são acusações de que o sr. tem vínculos com grupos paramilitares. Houve muitos avanços na Colômbia no meu governo. Os homicídios caíram pela metade, houve forte redução de sequestros, os investimentos se multiplicaram e a pobreza caiu. Esses são os resultados. Daí tentam me vincular com paramilitares. Por favor, não há nenhum elemento. Os fatos são teimosos: quem desmontou os paramilitares, levando-os à prisão e extraditando os seus líderes, foi o governo que eu presidi. Não me combatem na política, mas tentam atentar contra o meu prestígio.

O sr. é o maior opositor do acordo de paz com as Farc assinados há quatro anos. Por quê? Quem ganhou o plebiscito [de 2016] foi o "não". Mesmo assim os textos com as Farc foram impostos por meio de uma proposição de um Congresso subornado pelo governo [Santos]. O processo é ilegítimo.

Nós defendemos ao menos duas mudanças: primeiro, reformar a Jurisdição Especial para a Paz [instância criada pelo acordo para julgar guerrilheiros e agentes públicos que participaram do conflito armado] para que ela não julgue militares colombianos, que os militares sejam julgados por uma entidade independente, não por um tribunal imposto pelas Farc. Segundo, que as pessoas das Farc, responsáveis por delitos atrozes e que estão no Congresso, saiam de lá.

A Jurisdição Especial é peça central do acordo de paz. Ao aboli-la, o sr. não teme devolver a Colômbia para um conflito armado que marcou o país por décadas? Eu acabei de falar de reformar, não de abolir a Jurisdição Especial. Além do mais, esse acordo não produziu paz, apenas mais violência. Basta ver o que existe hoje na Colômbia para verificar que esse acordo não terminou nenhum conflito. É um acordo de impunidade absoluta. Nesse processo Santos teve o apoio de Cuba e Venezuela porque ele cedeu tudo às Farc. Os membros das Farc seguiram no narcotráfico depois da assinatura do acordo e não repararam as vítimas. Ou seja, os mesmos que aparentemente estariam comprometidos com a paz são aqueles que descumprem totalmente o acordo, que não gerou paz.

O sr. coincidiu na Presidência com Lula no Brasil. Como vê hoje a relação Brasil-Colômbia? É um momento positivo, e a relação entre os presidentes Duque e Bolsonaro é muito boa. Na minha época, eu e o presidente Lula tivemos diferenças em relação à Venezuela e a grupos terroristas na Colômbia. Entretanto, tivemos um bom diálogo em outros aspectos. Fizemos um acordo para avançar a integração econômica entre a Comunidade Andina e o Mercosul, e houve muito investimento privado brasileiro na Colômbia.

RAIO-X
Álvaro Uribe Vélez, 68
Antes de ser eleito presidente, Álvaro Uribe foi prefeito de Medellín e governador de Antioquia. Liderou um governo marcado por uma ofensiva militar contra as Farc. O apoio de Uribe garantiu a vitória de seu sucessor, Juan Manuel Santos, com quem rompeu posteriormente, e do atual líder colombiano, Iván Duque. Tornou-se senador em 2018, mas renunciou ao posto após sua prisão domiciliar por tentativa de manipulação de testemunhas. É acusado por opositores de vínculos com grupos paramilitares

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