Tensão no comércio ameaça a estabilidade global, diz especialista

Tensão no comércio ameaça a estabilidade global, diz especialista

A estabilidade global está em jogo com a intensificação da tensão comercial entre EUA e China, as maiores economias do mundo. Medidas unilaterais provocam uma ruptura no sistema multilateral do comércio. E existe risco de fragmentação dos mercados não só por questões comerciais, mas sobre tudo por tecnológicas.

A avaliação é de Arancha González, diretora do Centro de Comércio Internacional, vinculado à Organização Mundial do Comércio (OMC) e à Unctad, agência da ONU para comércio e desenvolvimento. Ex-chefe de gabinete de Pascal Lamy, quando este foi diretor-geral da OMC, ela tem longa carreira comercial na União Européia (UE).

Nesta semana, González parte diretamente do Japão, onde participou da reunião do G-20 (grupo das maiores economias do mundo) sobre comércio, para o Rio de Janeiro, para uma grande conferência que a Câmara de Comércio Internacional (ICC) realiza a cada cinco anos. Um dos pontos principais da agenda será a intensificação das tensões comerciais. Leia os principais trechos da entrevista:

Valor: Ao seu ver; o que esta em jogo no conflito EUA-China?

Arancha González:  O que está atrás dessa batalha, tanto por parte dos EUA como da China, é o controle do que vai ser a grande arma de competitividade e de poder no Século 21, que é a tecnologia. Mas é paradoxal, porque o que a tecnologia faz é colocar todo mundo junto. Querer ter o controle imediato sobre a tecnologia e o desenvolvimento tecnológico dos demais é criar uma instabilidade global, que é o estamos vendo agora. Está em jogo uma visão de gestão do mundo. O que vimos em 2009 [na crise financeira global] foi que não bastam respostas puramente nacionais. É necessário que todos os países se juntem. O epicentro daquela crise estava nos EUA, mas não bastava aos EUA resolver o problema, porque o sistema financeiro estava tão integrado que o que ocorreu lá afetou imediatamente a Europa, a China, a Japão e o resto das economias. E o que ocorreu em 2009 também foi que a China manteve seu mercado aberto. Houve uma atitude cooperativa das grandes economias numa resposta a uma crise global. Hoje estamos numa situação na qual, de novo, o epicentro são os EUA, que tomam uma série de medidas unilaterais e obtêm uma série de respostas unilaterais por parte de China, Europa, Japão, México, Canadá e outros países. E o que se vê de menos em 2019 é uma atitude cooperativa dos países para resolver um problema que tem hoje uma dimensão global.

Valor: Como pode terminar esse confronto estratégico?

González: Está se gerando tanta instabilidade que vamos chegar a um ponto em que isso será muito doloroso para todos os países, inclusive aos EUA. E chegará um momento em que os países precisarão se sentar à mesa para negociar.

Valor: Quem sentaria à mesa?

González: Essa é a grande questão. Não apenas China e EUA, porque já tentaram e não tem funcionado. É importante que China e EUA dialoguem, mas é necessário mais do que eles à mesa porque isso tem implicação para Europa, América Latina, todos os países.

Valor: Mas todos parecem impotentes, inclusive o G-20.

González: Esse é o problema. O G-20 é um lugar para gerar consensos globais. E se os líderes vão ao G-20 sem conseguir isso, também darão um sinal bastante negativo. É dizer que o rei está nu, não? Para que serve então o G-20? Se o G-20 não for capaz, começando com uma discussão entre EUA e China, de tentar resolver esse problema, também vai se fragilizar.

Valor: 0 sistema multilateral de comércio está sendo atropelado todos os dias, nessa crise. Como isso terminará?

 González: Há um ponto em que a economia mundial se desequilibra, e é isso que o Fundo Monetário Internacional está dizendo. É perigoso, porque sabemos o que ocorreu em 2009. Desequilibrar significa que a economia cresce abaixo do potencial, investe-se abaixo do potencial, comercializa-se bem menos, sobe o preço ao consumidor, gerando mais inflação, que são todas receitas contra as quais estamos lutando há dez anos.

Valor: O que os outros países podemfazer?

González: Aqui há uma responsabilidade por parte dos outros países de responder a esse impasse entre os EUA e a China, dizendo que eles não aceitam essa situação. Mas para isso [os países] têm que estar dispostos a se envolver, a gastar capital político para criar um espaço de centro e fazer um contrapeso à força dos outros dois.

Valor: Na prática, alguns países parecem procurar se aproximar mais de um ou de outro.

González: Os países não precisam escolher entre EUA e China. [Eles] têm de escolher entre contribuir ao caos ou contribuir para criar uma ordem mundial que tem de ser um pouco diferente, porque agora há mais potências. A alternativa real é entre ordem ou caos.

Valor: Mas alguns países, incluindo o Brasil, têm aceitado restrição voluntária às exportações, de aço por exemplo. As ameaças de Trump vêmfuncionando.

González: Funcionam no curto prazo. A questão é saber se funcionam no longo prazo. Para países que dependem do comércio internacional, como o Brasil com os produtos agrícolas, o caos não é bom. Os produtores precisam de previsibilidade e estabilidade no mercado. O caos pode dar uma pequena vantagem no curto prazo, vender um pouco mais de soja para a China. Mas o exportador precisa de uma visão que vá além de um ano. O produtor investe para os próximos dez ou vinte anos.

 Valor: Até que ponto temos agora fragmentação dos mercados?

González: Começo a ver perigos da fragmentação dos mercados. Não só por causa das medidas comerciais no curto prazo. O que mais me preocupa é a fragmentação dos mercados por questões tecnológicas. É o que vemos mais claramente na questão de proteção de dados. Há três grandes polos no mundo. O polo europeu, onde a proteção de dados é associada à proteção do consumidor. Outro é a China, onde é associada à proteção do Estado. E nos EUA, onde é associada à atividade de empresas. Agora há uma discussão na OMC sobre comércio eletrônico, que de alguma maneira vai obrigar os países a buscar como articular essas diferentes visões. Para o comércio eletrônico funcionar tem de haver uma certa compatibilidade na utilização dos dados. Se não houver um lugar como a OMC para tratar desses problemas, se cada um agir por razões puramente nacionais, como ocorre agora, será complicado. índia e Rússia estão regulamentando os dados nacionalmente. Isso pode fragmentar a própria internet. Mais que a fragmentação dos mercados no curto prazo, por medidas unilaterais, me preocupa a fragmentação que vem da tecnologia.

Valor: £ o comércio em blocos?

González: É verdade que há certas áreas comerciais que foram criadas por cadeias de valor. Há uma grande cadeia de valor ao redor de China, Japão, Coréia do Sul, na Ásia. Há outra grande ao redor da União Europeia. E outra grande zona entre EUA, Canadá e México, com alguma conexão com Brasil, Colômbia, Chile, mais fraca. Agora as medidas comerciais que estão sendo impostas podem fazer com que as empresas revejam onde instalar suas cadeias de valor. Uma empresa têxtil que produz na China pode se transferir para Bangladesh. Mas uma empresa que produz componentes tecnológicos necessita muito mais. Precisa de tempo para preparar mão de obra qualificada, para todo um ecossistema nacional que lhe permita ser competitiva. E isso requer clareza sobre a política comercial no médio e longo prazos. E, no momento, não há essa clareza.

Valor: Está se propagando o microprotecionismo, todo mundo começa a impor barreiras?

González: Isso sempre existiu. O problema agora é a ruptura do sistema de regras sobre o qual se baseia o comércio internacional, que é segurança, transparência e previsibilidade. É onde temos um grande problema hoje. Quando um país utiliza cláusula de segurança nacional [para impor barreira à importação], na realidade o que está fazendo é esvaziar o sistema multilateral comercial, e isso gera incertezas que se traduzem em retração dos operadores.

Valor: Como vê o fato de o Brasil ser um dos poucos países que hoje busca liberalizar o comércio?

Arancha: Isso está ocorrendo no Brasil, mas também na Argentina, em países do continente africano com a zona de livre comércio. O Brasil entendeu que sua competitividade depende também de sua abertura ao exterior. Para mim é a receita adequada, abrir-se ao exterior e investir em reformas domésticas fortes.

 Valor: Com isso, dá para chegar logo a um acordo UE-Mercosul?

 González: O momento é muito propício. Também porque Brasil, Argentina e a UE precisam de uma apólice de seguro contra a instabilidade gerada pelo conflito entre EUA e China. Para os dois blocos, é muito importante construir uma alternativa que ajude a mitigar o impacto da incerteza gerada por Pequim e Washington.

 Valor: Com o Partido Verde mais forte no Parlamento Europeu, como fica a aprovação desse acordo?

González: É certo que o novo Parlamento Europeu terá uma maior sensibilidade verde, de sustentabilidade ambiental. E isso significa que a política europeia terá maior sensibilidade a questões de sustentabilidade. É onde os países do Mercosul podem mostrar à UE que também pressionam nessa direção, de redução de CO2, proteção da biodiversidade, de práticas comerciais mais compatíveis com a sustentabilidade. O Mercosul pode fazer da sustentabilidade uma bandeira sua, não apenas a UE. No século 21a sustentabilidade se tornou um critério fundamental de competitividade, não porque as empresas dizem isso, mas porque os consumidores pedem isso.

Valor: Qual é a percepção externa sobre o governo JairBolsonaro?

González: A Europa olha o Brasil para ver para onde se move. Como ocorre com cada governo novo, há uma diferença entre o que se diz e o que se faz. Creio que [os europeus] veem com grande interesse uma série de reformas que o Brasil procura fazer, em competitividade, redução da corrupção, redução do déficit público, que são vistas com simpatia. E há áreas em que os europeus estão na expectativa sobre que rumo o Brasil tomará.

Valor: No encontro da Câmara de Comércio Internacional (ICC), no Rio, qual será a mensagem em relação à situação global atual?

González: O ICC representa os empresários em todo o mundo. E pode e quer dar uma mensagem aos governos sobre a necessidade de estabilidade na economia global. O ICC não representa apenas as grandes empresas, mas também as pequenas e médias, que representam 99% das economias. E são elas que mais sofrem agora, por terem menor capacidade de adaptação a essas mudanças bruscas no cenário comercial mundial.

Arancha González estará nesta semana no Rio de Janeiro para a conferência da Câmara de Comércio Internacional (ICC)

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