Tensão entre Brasil e Argentina dá o tom de reunião virtual de presidentes do Mercosul nesta quinta-feira

Tensão entre Brasil e Argentina dá o tom de reunião virtual de presidentes do Mercosul nesta quinta-feira

01/07 - 20:58 - Chanceler argentino diz que Mercosul é 'projeto de política externa mais importante dos últimos 30 anos'; Araújo critica 'imobilismo e atraso' do bloco

Janaína Figueiredo e Eliane Oliveira

RIO e BRASÍLIA — Os discursos dos chanceleres anteciparam o tom da primeira cúpula virtual de chefes de Estado do Mercosul, marcada para esta quinta-feira e que será também o primeiro encontro entre os presidentes do Brasil, Jair Bolsonaro, e da Argentina, Alberto Fernández. Além de diferenças ideológicas e políticas insuperáveis — explicitadas até na forma oposta de combater a pandemia da Covid-19 — os governos brasileiro e argentino confirmaram ter projetos e visões muito diferentes sobre o bloco, também integrado por Uruguai e Paraguai.

Após o chanceler argentino, Felipe Solá, defender o fortalecimento do Mercosul e dizer que se trata, para seu país, do “projeto de política externa mais importante dos últimos 30 anos”, o chefe da diplomacia brasileira, Ernesto Araújo, afirmou que até 2019 o bloco esteve marcado pelo “imobilismo e o atraso”, e pregou uma abertura sem precedentes em sua História.

O Mercosul passa por seu momento mais difícil, com indicadores assustadores de queda do comércio. Em meio à enorme tensão entre Brasil e Argentina, nesta quarta-feira, o chanceler do Uruguai, país que hoje deve assumir a Presidência Pro Tempore do bloco, anunciou sua renúncia. Segundo fontes uruguaias, o agora ex-ministro Ernesto Talvi, ex-candidato à Presidência derrotado pelo chefe de Estado Luis Lacalle Pou, nunca conseguiu se entender com seu ex-rival eleitoral. Um pequeno conflito na cúpula, que se soma a outros mais complicados.

Como se não bastassem as resistências pessoais entre Bolsonaro e Fernández — os dois se alfinetam desde a campanha para as eleições presidenciais na Argentina , no ano passado — o encontro entre chanceleres evidenciou o enorme desafio que representa para o Mercosul encontrar um caminho que permita a convivência de dois modelos totalmente opostos. Para a Casa Rosada, o Mercosul deve estar, sempre, em primeiro lugar.

— Os governos passam, o Mercosul fica — frisou o chanceler argentino.

Para bom entendedor, poucas palavras. O governo Fernández está determinado a tolerar a convivência com Bolsonaro em nome de uma aliança estratégica que considera essencial para sua política externa. Tolerar, mas sem abandonar suas convicções, como deixou claro o presidente argentino ao participar, na semana passada, de uma live com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, na qual disse que “tudo seria muito diferente” se Lula estivesse no poder.

Numa alfinetada em todos os governos da região, Fernández lamentou sentir-se sozinho, com exceção do presidente mexicano, Andrés Manuel López Obrador:

— Isso também vai passar... os povos da América Latina voltarão a se pôr de pé.

Suas declarações foram muito mal recebidas em todos os governos vizinhos. Nesta quarta, Solá tentou acalmar os ânimos e pediu que os países se unam para conquistar novos mercados, já que “juntos seremos mais fortes e respeitados”.

O problema, é que o Brasil, como descreveu Araújo, pretende avançar em ritmo acelerado nas negociações comerciais com América Central e Caribe, Aliança do Pacífico, Canadá, Líbano, Coreia do Sul, Vietnã, Indonésia e Índia.

Brasil quer acordos logo

Algumas já estão em processo e o Brasil almeja fechar acordos este ano, por exemplo, com a Coreia do Sul. Um entendimento que os argentinos observam com preocupação, disse uma fonte da Chancelaria comandada por Solá, pela “tendência dos sul-coreanos a barrar o comércio com medidas fitossanitárias”.

— Vamos participar das negociações, mas queremos falar, discutir — esclareceu o ministro argentino.

O grau de abertura pretendido por Brasil, Paraguai e Uruguai é considerado perigoso pelo governo peronista de Fernández, que ainda não sabe como fará para tirar a Argentina do atoleiro econômico em que está metida. Na visão da economista argentina Eva Bamio, analista da empresa de consultoria Abeceb, “Brasil e Argentina querem dois modelos de integração muito diferentes, que exigirá criatividade para que possam conviver”.

— Talvez uma opção seja implementar acordos em duas velocidades, como fizeram países da União Europeia — disse ela.

Esta tensão preocupa especialistas em relações internacionais como Juan Tokatlián, da Universidade Di Tella, em Buenos Aires. Para ele, “separados, Brasil e Argentina são atores que perdem incidência e influência individual”. Internamente, negociadores brasileiros asseguram que a única saída é aplicar o que tem sido chamado de “Mercosul à la carte”. Ou seja, que o bloco dê continuidade às negociações externas e que cada país escolha de que partes dessas negociações deseja participar.

— A pandemia intensificou a necessidade de modernizar (o bloco) — afirmou Araújo, aproveitando para lembrar que o Brasil também quer modificar normas internas, como a Tarifa Externa Comum (TEC), uma das mais altas do mundo.

Mais um ponto de conflito com os argentinos, que aceitam discutir o assunto, mas pretendem uma abertura seletiva.

O encontro desta quarta-feira entre os chanceleres foi cordial, mas frio. Se os quatro presidentes, de fato, se encontrarem virtualmente, espera-se o mesmo ambiente. Uma Argentina defensiva, diante de um Brasil disposto a seguir à risca seus planos, com ou sem seus sócios históricos na região.

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