Tecnologia e maior cooperação entre empresas e países são caminhos para impulsionar economias e negócios no mundo pós-pandemia

Tecnologia e maior cooperação entre empresas e países são caminhos para impulsionar economias e negócios no mundo pós-pandemia

No segundo dia do Fórum Econômico Brasil & Países Árabes, promovido pela Câmara de Comércio Árabe-Brasileira, em edição especial online, especialistas apontam o ambiente digital como facilitador das relações comerciais e humanas

A pandemia da Covid-19 no planeta modificou comportamentos, afetou os empreendimentos e causou o fechamento das fronteiras entre os países. Mas o coronavírus também motivou a busca de novos caminhos. Formas inovadoras de fazer comércio foram impulsionadas, relações bilaterais e comerciais migraram para o ambiente virtual. Isso valorizou o papel da ciência e da tecnologia na competitividade das empresas e dos países. Negócios passaram a ser feitos de forma conectada, a distância, e cresceu a importância do trabalho remoto. A cooperação e o uso do ambiente digital tornaram-se prioritários.

Será que essas ações podem caracterizar, portanto, uma nova ordem dos negócios internacionais? Essa questão foi o eixo principal do segundo dia do Fórum Econômico Brasil & Países Árabes, promovido pela Câmara de Comércio Árabe-Brasileira, que começou no dia 19 e irá até 22 de outubro, em versão online. E, tudo indica, de acordo com os participantes do evento, nesta terça-feira (20), a nova forma de os países se relacionarem tende a se aprofundar, sobretudo no modo digital.

Na segunda-feira (19), o primeiro dia do fórum, que contou com a participação do presidente Jair Bolsonaro, as discussões já haviam prenunciado a importância do estreitamento das relações entre Brasil e Países Árabes em um cenário pós-pandemia da Covid-19.

CENÁRIO

Nesta terça-feira (20), logo na fala de abertura do segundo dia do evento, o embaixador Osmar Chohfi, vice-presidente de Relações Internacionais da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira, destacou que, embora a pandemia seja responsável por perdas da ordem de US$ 9 trilhões no PIB (Produto Interno Bruto) mundial do biênio 2020/2021, ela também tem obrigado os negócios a evoluírem em determinadas direções graças aos novos desafios que surgiram.

Chohfi atentou para tais desafios na realização de transações comerciais entre empresas e países e elencou alguns deles: "Fronteiras fechadas, episódica ou temporariamente; exigências sanitárias redobradas; ausência de negociações presenciais e de viagens de negócios".

Mas nem tudo foi negativo, segundo Chohfi. "As dificuldades trouxeram soluções inovadoras: ampliaram-se as potencialidades do virtual, intensificaram-se os contatos e encontros on-line, o comércio eletrônico se expandiu, aumentaram os esforços de digitalização do despacho aduaneiro", afirmou. Além disso, as "vicissitudes da pandemia criaram um estímulo a uma maior cooperação na relação comercial entre o Brasil e os Países Árabes".

Na sequência do fórum, o ministro Ernesto Araújo (Relações Exteriores), em sua participação, destacou a importância dos árabes para a formação do povo brasileiro e o peso dos negócios e do comércio entre o Brasil e os Países Árabes.

Para Araújo, se no cenário global a previsão deste ano é de uma enorme queda nas transações comerciais devido à pandemia, na relação entre o Brasil e os Países Árabes há uma tendência de quase manutenção dos números pré-pandemia. "O que é extremamente animador", disse.

Em 2019, o comércio entre o Brasil e os países da Liga Árabe foi de US$ 15 bilhões. Este ano, nos primeiros nove meses, as transações comerciais já atingiram US$ 9 bilhões. "Podemos projetar então um número bem acima de US$ 10 bilhões. Talvez chegando próximo dos US$ 15 bilhões registrados em 2019", disse Araújo.

Para o ministro, "isso reflete não só a qualidade na nossa relação comercial, mas também a relação de confiança. O que é fundamental para os negócios". A estimativa de Araújo é que, se não tivéssemos a pandemia, os negócios neste ano já deveriam ficar entre US$ 20 bilhões e US$ 25 bilhões.

O ministro brasileiro das Relações Exterior apontou também que a grande estrela na relação entre o Brasil e os Países Árabes é o agronegócio. Segundo ele, mesmo com a pandemia, as exportações brasileiras deste setor aos Países Árabes já atingiram US$ 5 bilhões nos primeiros meses de 2020. No ano passado, as exportações deste segmento totalizaram US$ 4,9 bilhões.

"Já superamos as vendas do ano passado. Isso é extremamente animador, e mostra a importância desse comércio. Duas coisas são fundamentais: a segurança da saúde e a segurança alimentar. O Brasil está contribuindo com todo o mundo para garantir a segurança alimentar. Nos Países Árabes, isso é extremamente visível", declarou o ministro.

Depois da fala de Araújo, foi a vez de o vice-ministro e chefe dos Escritórios Comerciais do Egito, Ahmed Maghaoury, destacar que, no período de pandemia e sobretudo no pós-pandêmico, "a nova realidade deste mundo está baseada no intercâmbio comercial e cultural e, principalmente, econômico".

Maghaoury, que representou no evento a ministra de Comércio e Indústria do Egito, Nevin Gamea, frisou a importância do avanço tecnológico nessa nova ordem dos negócios internacionais. "A situação que passamos em nossa região exige que foquemos o avanço tecnológico e em todos os setores que são importantes para a economia, principalmente na fabricação de remédios."

AMBIENTES VIRTUAIS

Por sinal, o advento de novos ambientes virtuais de negociação, com suas implicações, foi o principal mote de um painel de discussão que reuniu especialistas e empreendedores de diversos segmentos, sob a mediação de Khaled Hanafy, do Egito, secretário-geral da União das Câmaras Árabes.

"Estamos falando sobre como implementar e aplicar a digitalização em todos os aspectos da vida", afirmou Hanafy, que também fez referências a conceitos como 'inteligência das coisas', blockchain e a quarta revolução industrial.

"Isso acontece não só de forma simplificada e linear, mas também em todas as logísticas e cadeias de suprimento. É necessário fazer a digitalização desde a pré-produção até o pós-consumo, trabalhando em toda a cadeia", disse. Para Hanafy, "são todos aspectos que se relacionam inclusive com a satisfação do consumidor".

No painel, Nidal Abou Zaki, diretor-geral da agência de comunicação Orient Planet, ressaltou a necessidade de sermos "mais inteligentes e interativos" na comunidade dos negócios, "melhorando abordagens" e tendo "foco em dados para tomar decisões".

Nesse contexto, um dos desafios, conforme citou no debate Lucas Câmara, diretor-executivo do C4IR Brasil - Centro para Quarta Revolução Industrial, é não restringir a poucos o domínio dos avanços tecnológicos emergentes. "O objetivo é que tecnologias como inteligência artificial e internet das coisas sejam adotadas no Brasil em larga escala", afirmou.

Câmara ainda destacou a importância de os governos ajudarem as empresas a fazer a transição e a encontrar novos modelos de negócio.

Outro participante do painel, Fazal Bahardeen, de Cingapura, CEO e fundador da companhia de viagens CrescentRating, discursou sobre as dificuldades e perspectivas da indústria do turismo no cenário atual. "Não temos soluções prontas", afirmou. "Elas vão depender de cada país, de cada mercado."

Por sua vez, Juliana Martinelli, fundadora da Inova House 3D, reforçou a importância das novas tecnologias ao falar do case da primeira impressão em 3D de concreto na América Latina. "A vantagem dessa tecnologia é o custo, sendo bastante acessível para trabalhar no alto padrão e na habitação social", disse.

No encerramento do painel, Najeeb Al-Azouzi, do Marrocos, secretário-geral do Estabelecimento Autônomo de Controle e Coordenação das Exportações, reiterou a importância da digitalização em todos os setores para agilizar e organizar processos.

IMPACTOS

Um segundo painel deu sequência às abordagens sobre os impactos da pandemia na seara dos negócios. Moderado por Nahid Chicani, diretor-tesoureiro da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira, o "CEO Talk" reuniu Muhammad Chibib, CEO da Tradeling, companhia especializada em comércio B2B; Hanan Saab, CEO da Pharmamed, empresa libanesa de importação de produtos farmacêuticos; e o brasileiro Sílvio Meira, fundador e cientista-chefe da empresa The Digital Strategy Company.

Chihib e Meira discorreram sobre a tendência de prevalecer no pós-pandemia um híbrido de presencial e virtual na realização de eventos, além da importância da tecnologia blockchain no estabelecimento da confiança nas relações comerciais. Já Hanan Saab realçou a relevância da telemedicina durante a pandemia no acompanhamento de pacientes com doenças crônicas.

Na última parte do segundo dia do fórum, Bandar Reda, secretário-geral da Câmara de Comércio Árabe-Britânica, e Mudar Khoja, secretário-geral da Câmara de Comércio Árabe-Austríaca, reforçaram que as relações bilaterais, de fato, mudaram e devem ainda se transformar em razão da pandemia.

De acordo com Reda, o mundo pós-pandemia é "desafiador". Segundo ele, a sobrevivência depende da união e, graças ao ambiente digital, é possível ampliar as relações bilaterais.

Já o secretário-geral Khoja afirmou que, se houve problemas com áreas como turismo, serviços e eventos culturais, em razão do isolamento, houve ao mesmo tempo um renascimento de alguns setores da sociedade, como ciência da tecnologia e informação. Surgiram os "treinamentos, as aulas online". Nesse contexto, ainda segundo Khoja, as câmaras de comércio podem ajudar as empresas nesse processo de "repriorização" das atividades.

FORMAÇÃO

Convidado pelo fórum a falar sobre o tema do dia, o ministro Marcos Pontes, da Ciência, Tecnologia e Inovações, disse que a pandemia da Covid-19 deixou clara a importância da ciência, da tecnologia e das inovações para um período que ele chamou de "pós-pandemia".
"O futuro depende do conhecimento. O conhecimento, a tecnologia, a ciência, as inovações fazem parte do futuro do nosso planeta e do futuro saudável das economias dos países", afirmou Pontes.

De acordo com o ministro, é necessário investir na formação de profissionais. "Temos um déficit grande no número de profissionais de tecnologia e na área de informação e comunicação. Precisamos, portanto, investir na formação de novos profissionais."

Pontes destacou ainda que, no Brasil, há uma grande produção científica, mas que "necessitamos transformar esse conhecimento em novas empresas, novas startups, novos serviços, em bases tecnológicas para atuar no chamado 'novo normal' pós-pandemia".

PLATAFORMA

A tecnologia blockchain promete revolucionar o modo das transações comerciais entre brasileiros e árabes. A Câmara de Comércio Árabe-Brasileira lançou durante o Fórum a ferramenta Ellos, que vai facilitar a vida dos exportadores e importadores.

Por meio dela, será possível ofertar produtos e serviços, agendar reuniões, receber estudos personalizados, ler notícias, além de conhecer os mercados brasileiros e árabe com profundidade.

"Com essa plataforma entramos em uma nova era da nossa parceria com o bloco árabe, que é muito importante para o Brasil. Hoje, um em cada quatro quilos de carne hoje exportados vai para os Países Árabes. Isso mostra a importância desse mercado para o país", disse o presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes, Antônio Jorge Camardelli, uma das entidades que participaram da cerimônia online de assinatura do memorando de integração do blockchain.

Assinaram também o documento o presidente da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira, Rubens Hannun; o presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal, Ricardo Santin; e representantes de mais três entidades.
A proposta da plataforma de negócios é eliminar a burocracia, transformando os processos eletronicamente com um sistema de integração via blockchain, de forma automatizada, gerando ganho de tempo e diminuindo custos.

A ferramenta ligará representantes dos governos brasileiros e árabes, entidades certificadoras, empresas de logísticas e serviços, entre outros em uma mesma rede, com o objetivo de fazer negócios. Além disso, vai garantir que todos interajam e que o processo seja realizado em conformidade com todas as partes envolvidas.

Esse projeto começou de forma piloto, com a Jordânia e foi acelerado devido à pandemia. O próximo passo é integrar toda a cadeia produtiva ao Ellos para que seja possível o rastreamento do produto desde o início de sua produção até chegar às mãos do consumidor, garantindo a segurança na fabricação daquele produto.

ACORDO

A Câmara de Comércio Árabe-Brasileira e a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex) assinaram, durante o fórum, um acordo para a retomada das ações de cooperação de fomento das parcerias comerciais.

O presidente da Apex, Sergio Segovia, destacou a importância da parceria, que foi iniciada em 2010. A Apex já mantém um escritório em Dubai para dar suporte às empresas brasileiras que atuam na região.

MULHERES

Em julho último, a Câmara do Comércio Árabe-Brasileira lançou o Comitê de Mulheres WAHI - Mulheres que Inspiram. Esse comitê visa o crescimento mútuo das mulheres árabes e brasileiras, no mundo dos negócios, por meio da realização de eventos e acordos de cooperação. As mulheres estão presentes na Câmara, inclusive em postos de diretoria.

Por isso, no segundo dia do Fórum Econômico Brasil & País Árabes, a questão da mulher diante da pandemia da Covid-19 também foi objeto de discussão. Uma das convidadas para falar do assunto foi a presidente da Federação das Mulheres de Negócios do Kuwait, Sheikha Hessa Al Sabah.

No seu pronunciamento, ela destacou o impacto catastrófico da pandemia nas relações comerciais e humanas e as complicações ainda maiores para as mulheres.

"As mulheres estão na linha de frente quando falamos de cuidados, pois representam cerca de 70% da área médica e hospitalar. Além disso, são as que mais sofreram com o desemprego e a violência doméstica", disse Sheikha Hessa.

Outra convidada desse painel foi a representante da América Latina no Women in Business G20, Delia Raquel Flores, da Argentina. Ela destacou a importância da paridade de gêneros e disse que "as mulheres precisam estar no poder, e não apenas estar empoderadas". O fechamento desse painel ocorreu com a exibição de um vídeo sobre Comitê de Mulheres WAHI - Mulheres que Inspiram.

Nesta quarta-feira (21), o Fórum Econômico Brasil & Países Árabes prossegue. O principal tema a ser discutido será "Segurança Alimentar: uma parceria estratégica entre Brasil e o mundo árabe".

Estão confirmadas as participações da ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento do Brasil, Tereza Cristina, e de Mariam bint Mohammed Al Mheiri, ministra de Estado de Segurança Alimentar dos Emirados Árabes Unidos, entre outras autoridades e especialistas no tema

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