Sumiço do crédito asfixia a economia na Argentina

Sumiço do crédito asfixia a economia na Argentina

País só voltará a crescer em 2020, prevê a Moody´s

O Banco Central da Argentina se tornou uma espécie de tomador de empréstimos de última instância. É o único lugar onde os bancos podem deixar seu dinheiro de forma segura e lucrativa, uma vez que o crédito está secando numa economia em recessão. O mais recente plano do presidente Mauricio Macri, apoiado por uma ajuda recorde de US$ 56 bilhões do Fundo Monetário Internacional (FMI), resultou nas taxas de juros mais altas do mundo elas estão agora perto de 70% ao ano. O objetivo é tirar dinheiro de circulação, frear a inflação e proporcionar apoio a uma moeda que já perdeu metade de seu valor neste ano.

A equipe econômica do governo Macri quer que os argentinos tenham pesos, e não dólares, e quer esses pesos mantidos em depósitos bancários. Isso está começando a acontecer. A moeda estabilizou-se no primeiro mês do plano do FMI, e os depósitos a prazo fixo aumentaram. Mas, depois de duas décadas de volatilidade, atrair os argentinos de volta para a moeda local não sai barato. Os bancos estão tendo que pagar mais de 50% de juros sobre esses depósitos. Para ter lucro, eles precisam emprestar a taxas ainda maiorese é difícil encontrar tomadores dignos de crédito numa recessão.

É aí que entra o Banco Central. A taxa de compulsório bancário para os depósitos a prazo é alta, de 25%. Mas o presidente do BC, Guido Sandleris, permite aos bancos manter parte dessa reserva em títulos de sete dias conhecidos como Leliqs, em vez de em dinheiro. As Leliqs não oferecem risco e pagam no momento mais de 68%. O BC garantiu que essa taxa não cairá abaixo de 60% até dezembro. Isso dá aos bancos uma margem respeitável. Eles não terão grandes retornos sobre o patrimônio, dada a inflação de 40%. Mesmo assim, é um colchão contra outras pressões, que vão dos maiores custos de financiamento à queda das receitas com comissões e um provável pico nos empréstimos inadimplentes, afirma Valeria Azconegui, analista Moody´s Investors Service.

Enquanto isso, empresas como a CC Agro y Tec, que importa produtos eletrônicos de consumo, estão sendo expulsas do sistema de crédito, segundo Diego Valguarnera, seu diretor financeiro. `Os bancos estão diante da escolha entre colocar recursos num investimento que praticamente não oferece riscos ou emprestar esses recursos para as empresas, num momento em que o consumo está em queda`, diz ele. `Eles escolhem a primeira opção.` Após uma visita recente a Argentina, analistas do JP Morgan disseram que há uma falta de demanda por empréstimos e de disposição de correr risco para concedê-los, numa economia que encolheu 4% no segundo trimestre.

A Argentina não voltará a crescer antes de 2020, prevê a Moody´s em relatório divulgado ontem. A agência estima uma contração de 2,5% do PIB argentino este ano e mais uma queda de 1,5% em 2019. A concessão de financiamentos imobiliários caiu 50% desde maio. As pequenas empresas estão sendo esmagadas. Os cheques pré-datados se tornaram a forma de financiamento preferida delas, pois permitem aos clientes pagar em prazos que variam de 30 a 90 dias. Isso está sendo esticado para até 150 dias, e as empresas precisam pagar juros cada vez maiores pela compensação antecipada. `É uma combinação sufocante`, diz Pedro Cascales, da Câmara das Pequenas e Médias Empresas, que representa 500 mil companhias. `As empresas não conseguem pagar os fornecedores porque as vendas caíram ou os clientes estão atrasando seus pagamentos.`

Mas, se tudo ocorrer conforme planejado, o BC poderá reduzir as taxas das Leliqs e colocar mais pesos em circulação, com o retorno da confiança. Mas há muitos riscos ao programa do FMI incluindo um político. Macri vai concorrer à reeleição em outubro de 2019. Os bancos podem esperar, mas não se sabe por quanto tempo seus clientes na economia real agüentarão. Pedro Dragun, diretor de pesquisas da União Industrial Argentina, diz entender que a política de juros altos é uma tentativa de reduzir a demanda por dólares. `Mas isso tem um efeito bastante adverso sobre os setores produtivos. Precisamos que os juros caiam logo, antes que a economia afunde.`

Carolina Millan e Ignacio Olivera Doll

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