Social-democracia volta, e a ultradireita está viva

Social-democracia volta, e a ultradireita está viva

Escrever obituário político é tentador, mas o vento vira. Inflação à argentina. A cada ciclo presidencial, na Argentina, a inflação sobe um degrau e se torna mais desorganizadora da economia.

O obituário da social-democracia foi escrito diversas vezes na segunda metade da década passada, após uma série de derrotas de partidos da centro-esquerda na Europa e nos Estados Unidos. François Hollande teve só 6% dos votos como candidato à reeleição na França. O trabalhismo britânico afundou. Na Espanha, o fim do bipartidarismo deixou o PSOE numa crise existencial. O Pasok, na Grécia, virou sinônimo de tragédia. Surgiu o nacional- populismo. Viktor Orbán na Hungria e os irmãos Kaczynski na Polônia ganharam força espalhando preconceitos e xenofobia. Matteo Salvini se tornou uma ameaça na Itália. A Alternativa para a Alemanha (AfD) ressuscita demônios. E teve, é claro, Donald Trump.

O vento começou a mudar de direção. Em parte porque o discurso da direita radical é bom para conquistar votos, mas ruim para construir coalizões e governar. Em parte porque a socialdemocracia, onde não houve radicalização, conseguiu reconectar-se com suas bases tradicionais. “Os partidos de esquerda vão melhor quando as questões socioeconômicas dominam o debate”, afirmou o cientista político Cas Mudde, da Universidade da Geórgia, em entrevista ao “Washington Post” semanas atrás. Já a direita leva vantagem, segundo ele, quando temas “socioculturais” - como identitários ou imigração - prevalecem na agenda pública.

Escrever obituário político é tentador, mas o vento vira
A centro-esquerda teve vitórias significativas nos últimos meses. Justin Trudeau ganhou um terceiro mandato no Canadá. O SPD, ao contrário do que se imaginava no início de 2021, superou a democracia- cristã na Alemanha. O PSOE se reergueu e governa a Espanha sem instabilidade. Depois de décadas enfraquecida, a social- democracia detém maioria nos cinco países nórdicos. A Itália, aos trancos e barrancos, foi bem-sucedida em conter Salvini. E teve, é claro, Joe Biden.

Vive-se agora uma sensação de que a ultradireita já caiu no ostracismo ou está com os dias contados. Engano. Marine Le Pen passou anos na França em um esforço para desvincular-se de seu pai, Jean-Marie, sobre quem sempre pesava a pecha de antissemita e revisionista do Holocausto. A progressiva higienização de Le Pen resultou em um espaço vazio, que acaba de ser ocupado. O maior fenômeno político do momento se chama Éric Zemmour, é judeu, vê os muçulmanos como ameaça à pureza cultural francesa e assumiu o segundo lugar nas pesquisas para a eleição que ocorrerá dentro de seis meses.

O professor Oliver Stuenkel, da FGV-SP, foi rápido em captar as lições deixadas ao Brasil pelo ensaio de guinada ao centro por Le Pen. “A base radical não é cegamente fiel a seu líder e possui baixa tolerância à moderação. A necessidade de atender às demandas da base radical explica, por exemplo, por que Bolsonaro, mesmo se quisesse adotar um discurso moderado, teria pouco espaço para fazê-lo, pois isso implicaria o risco de encarar um candidato ainda mais à direita dele e que o chamaria de traidor”, escreveu Stuenkel em suas redes sociais. O mau desempenho recente da AfD nas urnas não conta a história toda. A fragmentação eleitoral pode favorecê-la no xadrez político alemão, e ela está em posição competitiva para colocar-se como força regional, em Estados como a Turíngia e a Saxônia, na antiga Alemanha Oriental comunista.

Atravessando o Atlântico, José Antonio Kast - admirador declarado da ditadura de Augusto Pinochet - está com um pé no segundo turno no Chile. Javier Milei, na Argentina, era só um economista libertário que fazia comentários na rádio portenha. Virou sensação nas eleições legislativas ao adotar o combo da ultradireita, que inclui anticomunismo e a luta contra “ideologia de gênero”. E tem, é claro, Donald Trump: ele se move cada vez mais, diante da fraqueza do governo Biden, para pleitear sua volta à Casa Branca.

Inflação à argentina
A cada ciclo presidencial, na Argentina, a inflação sobe um degrau e se torna mais desorganizadora da economia. Cristina Kirchner terminou o primeiro mandato com alta de 24% nos preços em 2011 - mas esse era o índice extraoficial, porque o Indec (IBGE argentino) sabidamente maquiava estatísticas. Ao fim do segundo mandato de Cristina, em 2015, foi para 32%.

Mauricio Macri, o queridinho dos mercados, entregou uma inflação de 53% ao ano em 2019. Na semana passada, o governo Alberto Fernández anunciou congelamento de preços para 1.245 produtos. Em tempos de fome, a lista abrange itens básicos - óleo, açúcar, arroz e farinha de trigo. Mas, convenhamos, ninguém é de ferro: gim, vodka, hidratantes para as mãos e ketchup Hellman’s também estão lá.

Na máquina argentina, a tentativa de estabilizar preços cabe à Secretaria de Comércio Interior. No primeiro mandato de Cristina ela era ocupada pelo economista Guillermo Moreno, famoso pela truculência com que recebia empresários em seu gabinete. Executivos brasileiros que moravam em Buenos Aires, na época, ainda lembram como Moreno colocava seu revólver à mesa no início das reuniões - antes de expor a necessidade de não remarcarem seus produtos - e berrava ao ser contrariado.

O atual presidente nomeou para o cargo Roberto Feletti, um dos principais formuladores da política econômica kirchnerista na década passada, que foi secretário de Fazenda em La Matanza. Com mais de 2 milhões de habitantes, trata-se do município mais populoso da Província de Buenos Aires e tem uma peculiaridade urbanística: construído nos anos 1950 por Juan Doming Perón, o bairro de Ciudad Evita forma o rosto de “mãe espiritual da pátria” e “porta-voz dos humildes”, visto do alto. É comum alguém da cidade morar no coque, levar os filhos para a escola na boca, pegar o trem perto do ombro, trabalhar no nariz de Evita.

Quando o novo secretário de Fernández era vice-ministro da Economia, entre 2009 e 2011, havia um acordo informal do governo com o McDonald’s para congelar o preço do Big Mac. Era o suficiente para ficar bem no ranking de competitividade da revista “The Economist”. Mas uma lei - a tal lei do mercado - era impossível de mudar. Entrava-se em alguma lanchonete da rede e o popular sanduíche nunca estava disponível. Também não se via uma propaganda sequer do Big Mac. Em seu lugar, com preços livres e sempre reluzente nas fotos publicitárias, surgiu o Triple Mac. A América Latina realmente não é para amadores.

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