Sete meses e 3,2 bilhões de doses depois, vacinação contra Covid não chegou a 5 países

Sete meses e 3,2 bilhões de doses depois, vacinação contra Covid não chegou a 5 países

19:27 - Burundi, Tanzânia, Eritreia, Haiti e Coreia do Norte sofrem com negacionismo e negligência

Mais de 3,2 bilhões de doses de diversas vacinas contra a Covid-19 já foram aplicadas desde que a imunização começou no mundo, há sete meses, mas nenhuma delas chegou ao braço dos habitantes de cinco países.

Segundo dados oficiais da Organização Mundial da Saúde (OMS), o vírus corre desimpedido nos africanos Burundi, Tanzânia e Eritreia, no caribenho Haiti e na ditadura comunista asiática da Coreia do Norte.

Em comum, esses países adotaram uma mescla de negacionismo e negligência e ficaram para trás no esforço global para vencer uma doença que já matou cerca de 4 milhões de pessoas.

A atitude é vista com gravidade por especialistas na África, onde os índices de contaminação pelo coronavírus têm crescido rapidamente em países como África do Sul, Namíbia e Uganda.

O continente por enquanto registra baixos patamares de letalidade, respondendo até aqui por 147 mil óbitos, ou 3,7% do total mundial.

Há consenso por parte de especialistas, no entanto, de que as cifras estão bastante subestimadas, pela deficiência nos sistemas de registro de saúde dos países e pela opacidade dos dados oficiais.

“Temos uma série de dificuldades para acelerar a vacinação na África. Falta vontade política da comunidade internacional, mas não é apenas isso: não existe oferta global de doses suficiente, e há questões contratuais com laboratórios fabricantes que atrasam a distribuição aos países mais pobres”, diz a epidemiologista Ann Marie Kimball, professora emérita da Universidade de Washington, nos EUA.

Segundo ela, os africanos têm histórico de vacinação em massa que praticamente erradicaram doenças como poliomielite e varíola. “Não há nada cultural sobre a África que dificulte a vacinação, apenas decisões equivocadas de alguns de seus governantes, como mostra o caso da Tanzânia”, diz Kimball.

A maior parte dos africanos está incluída na iniciativa Covax Facility, espécie de consórcio global coordenado pela OMS, em que vacinas são direcionadas aos países mais pobres do mundo, que não têm recursos para adquirir os imunizantes, e ainda menos condições de produzi-los.

A promessa do programa é chegar a 20% da população de cada país imunizada com a primeira dose ainda neste ano, mas o ritmo ainda está muito aquém desse patamar.

Até agora, apenas 53 milhões de doses foram destinadas aos 54 países africanos, o equivalente a 1,63% do total aplicado no planeta, segundo dados compilados pelo projeto Our World in Data, da Universidade de Oxford (Reino Unido). É metade do que foi aplicado apenas no Brasil.

Segundo as regras da Covax Facility, para receber as vacinas é preciso juntar-se formalmente ao mecanismo. Mas as nações retardatárias, cuja população somada é de 117,3 milhões, desprezaram a iniciativa quando foi lançada, no ano passado. O Brasil, um dos que mais demoraram a aderir, formalizou a inscrição no último dia do prazo, 18 de setembro de 2020.

Em comum, os países citaram desconfiança em relação à eficácia das vacinas e uma crença de que sozinhos poderiam controlar a doença, muitas vezes recorrendo a métodos tradicionais sem comprovação científica. Caso mais emblemático, a Tanzânia, país no centro da África, sofre até hoje as consequências do negacionismo de seu ex-presidente John Magufuli, para quem a Covid-19 seria eliminada com base em orações, exercícios físicos e medicamentos à base de ervas.

Em março deste ano, Mugufuli morreu, sem que tenha havido explicação oficial para o motivo, e em meio a fortes rumores de que a causa teria sido o coronavírus. Em seu lugar, assumiu sua vice, a atual presidente, Samia Suluhu. Embora não tenha renegado completamente a defesa de tratamentos tradicionais contra a Covid, ela começou a defender a ciência e os cuidados pessoais para evitar a doença e passou a usar máscara em público, algo que o antecessor se negava a fazer.

“Tivemos uma mudança nítida de comportamento. Falo pelo que acontece no hospital no qual trabalho, em que as pessoas que vêm visitar pacientes agora precisam usar máscara e lavar as mãos com cuidado”, diz Amani Saguda, ortopedista do hospital Benjamin Mkapa, em Dodoma, capital do país.

Saguda, que também faz parte da diretoria da Associação Médica da Tanzânia, afirma que ainda há muita desconfiança no país com relação às vacinas, algo que, espera ele, será reduzido com a chegada dos primeiros imunizantes. “O governo finalmente anunciou que está importando vacinas, e parou de dizer que a Covid acabou em nosso país. O que temos tentado dizer a todos é que você não pode ir contra as evidências científicas, por mais que tenha suas crenças pessoais”, afirmou Saguda.

A Tanzânia finalmente se juntou à Covax em maio e, segundo uma pessoa que acompanhou a negociação pela OMS, deve receber em breve seu primeiro carregamento de imunizantes para começar a vacinação. O país africano de 62 milhões de habitantes tem oficialmente apenas 509 casos, número considerado irreal. “Conheço muitos colegas médicos que pegaram a doença”, diz o ortopedista.

No vizinho Burundi, a situação está ainda mais atrasada. O pequeno país de 12 milhões também passou por uma sucessão presidencial traumática. Em junho do ano passado, o presidente Pierre Nkurunziza morreu oficialmente de um ataque cardíaco, mas também sob a desconfiança de que teria sido mais uma vítima da Covid-19. Seu sucessor na Presidência, o general Évariste Ndayishimiye, segue até hoje sem ter formalmente se juntado à Covax.

A linha oficial do governo é que basta fechar o país e incentivar a população a adotar cuidados de higiene pessoal para vencer o vírus, algo muito difícil de se fazer em uma região de fronteiras porosas.

“Uma vez que mais de 95% de nossos pacientes estão se recuperando, avaliamos que as vacinas ainda não são necessárias”, disse o ministro da Saúde de Burundi, Thaddee Ndikumana, em fevereiro. Desde então, não houve mudança pública na posição do governo local.

Na Eritreia, governada com mão de ferro há 28 anos pelo ditador Isaias Afwerki, as tentativas de acordo para fornecimento de vacinas também não prosperaram. O país, apelidado de Coreia do Norte da África, é um dos mais fechados do continente e recentemente esteve envolvido num conflito na região etíope do Tigré. Pelos números oficiais, houve até agora somente 25 mortes por coronavírus no país, onde a verificação independente de informações é virtualmente impossível.

Não por acaso, a Coreia do Norte “original” também não iniciou a vacinação. O regime comunista não fornece nenhuma estatística sobre número de infectados e mortos e até há pouco tempo parecia viver em um universo paralelo, no qual a doença nunca existiu.

Recentemente, no entanto, o governo do ditador Kim Jong-un parece estar se rendendo à realidade, e houve cobranças públicas a autoridades locais sobre o descontrole da doença. Segundo a Covax Facility informou à Folha, há negociações em curso para introduzir a vacinação contra a Covid-19 no país asiático.

O mesmo ocorre no Haiti, país mais pobre das Américas, que vive um processo crônico de instabilidade política e de segurança pública. Um carregamento inicial de vacinas da AstraZeneca, fornecido pela Covax, foi recusado em maio, em razão de receio com possíveis efeitos colaterais.

Desfeitas essas preocupações, a promessa agora é receber um lote até o final deste mês, para finalmente dar início à campanha de imunização. No país morreram, oficialmente, 462 pessoas em razão da doença.

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