Sem respostas para a crise, governo argentino perde apoio

Sem respostas para a crise, governo argentino perde apoio

A Argentina segue em beco sem saída

O governo argentino vai enfrentar dois desafios que podem selar seu destino já na metade do mandato e abrir as portas para o acirramento da crise econômica atual. A coalizão Frente de Todos caminha para a derrota nas eleições de domingo, onde estarão em disputa metade das cadeiras da Câmara dos Deputados e um terço das do Senado. Há sério risco de que os governistas percam a maioria no Senado, limitando seriamente a margem de ação do presidente Alberto Fernández. Em outra frente crucial, a da dívida externa, o governo argentino não quer começar a pagar o empréstimo de US$ 45 bilhões do Fundo Monetário Internacional e negocia tendo essa premissa inviável como norte.

As primárias livres e obrigatórias de 12 de setembro, uma prévia das legislativas de domingo, acenderam um sinal vermelho na Casa Rosada. A Frente de Todos obteve 31% dos votos nacionais, contra 40% da rival Juntos pela Mudança, perdendo nos principais centros eleitorais do país, em especial na estratégica Província de Buenos Aires, antes dominada pelos peronistas. As últimas pesquisas apontam que a perspectiva eleitoral do governo não mudou, se é que não piorou, mesmo após as medidas tomadas pelo governo.

Após a derrota de setembro, Cristina Kirchner pôs Alberto Fernández em xeque, exigiu e obteve trocas no governo após ordenar aos ministros kirchneristas que entregassem cartas de demissão. A vice-presidente mostrou sua força, diretamente proporcional à fraqueza de Alberto, mas perdem com a popularidade em queda de ambos, em que quase se igualam (31% e 33%, respectivamente).

O governo decretou o congelamento de preços de 1.400 produtos, uma medida tão recorrente quanto inócua adotada por governos peronistas. O salário mínimo foi aumentado antes do tempo, mas essas e outras ações continuam sendo minadas por uma inflação alta e em elevação. Com 3,5% em setembro, ela alcançou 52,5% em doze meses.

O Banco Central continua financiando o déficit primário, que corre na faixa de 1,3% do PIB, ao qual se acrescentam dívidas com juros de 3% do PIB, com alguma melhora em relação aos últimos anos do governo de Mauricio Macri, não o suficiente, porém, para indicar o caminho da normalidade orçamentária nem sustentabilidade macroeconômica. Como sintoma de desconfiança, o dólar paralelo (blue) encostou em 200 pesos e por alguns momentos atingiu o dobro da cotação oficial, que também sobe.

Não há, porém, como se livrar da asfixia de uma economia que não tem fontes de financiamento relevantes que não as das emissões monetárias. Em dezembro vence US$ 1,88 bilhão de compromissos externos, o que reduziria as reservas líquidas a apenas US$ 2,5 bilhões. No ano que vem as contas a vencer são maiores. Em março, há que pagar US$ 2,8bilhões ao FMI, parcela de um vencimento anual de US$ 19 bilhões. Não há como fazê-lo sem novo acordo com o FMI, em negociação há um ano e com fim previsto até março.

A estratégia de kirchneristas e peronistas de diversos matizes diante do estrangulamento externo da dívida é culpar os credores por terem emprestado o dinheiro. É o que estão fazendo agora. Até mesmo o ministro da Economia, Martín Guzmán, deixou seu papel de técnico de lado para vestir o uniforme de político, ao declarar que o dinheiro do Fundo foi usado para reeleger Macri (que perdeu a eleição).

O próprio ex-presidente Mauricio Macri, que fez um governo ruim, deu, incrivelmente, argumentos que fortalecem os peronistas, ao dizer que os empréstimos do FMI “foram usados para pagar bancos comerciais que queriam sair com medo de uma volta do kirchnerismo”. Em suma, para financiar a saída de capitais em um país com carência de dólares - aberrante falta de espírito público.

Macri recebeu uma herança maldita de Cristina Kirchner, não arrumou a economia e a entregou mais carregada de dívidas a Alberto Fernández, que tem uma receita errada para debelar a crise que se agrava. Se a culpa pelos empréstimos é dos credores e não do governo nacional, a Argentina se dá ao direito de falar grosso em uma situação pré-falimentar.

“Queremos crescer e pagar, mas nesta ordem”, disse o embaixador argentino nos EUA, Jorge Argüello. Ou seja, argumentos semelhantes aos nove calotes que o país já deu.

O ministro da Economia diz que sua receita de recuperação vai bem, embora os analistas procurem tanto a fórmula quanto os resultados e não os encontrem. A Argentina segue em beco sem saída

www.prensa.cancilleria.gob.ar es un sitio web oficial del Gobierno Argentino