´Sem abertura, medidas podem trazer mais vulnerabilidade´

´Sem abertura, medidas podem trazer mais vulnerabilidade´

A iniciativa do Banco Central (BC) para modernizar a lei cambial é bem-vinda. No entanto, o esforço para transformar o real em uma moeda conversível e usada em nível regional deveria focar, antes, em estratégias para abrir o Brasil ao comércio exterior. A opinião é da diretora do programa de estudos latinoamericanos da Johns Hopkins University, Monica de Bolle,

`A conversibilidade tem esse aspecto maior da inserção comercial que não passa apenas por modernizar a legislação, e isso está meio sendo deixado de lado no momento`, disse Monica ao Valor. `Se não houver abertura econômica, o risco é que essas medidas não tenham muito impacto e, ao mesmo tempo, tragam mais vulnerabi lidade externa.`

Valor: O que acha do projeto de tomar o real conversível?

Monica de Bolle: É bastante razoável modernizar a lei cambial, até porque ela é muito antiga. Agora, a questão da conversibilidade em si depende também de ter demanda por reais fora do Brasil. É claro que a modernização facilita, mas não é suficiente para tornar a moeda conversível.

Valor: Porquê?

Monica: O comércio internacional é algo extremamente importante para aspirações de se ter uma moeda regional ou conversível. A China, por exemplo, é um país com muito controle da conta de capital, ninguém lá tem permissão para abrir conta em dólares. Apesar disso, o yuan é conversível. É aceito e usado em vários países, porque é cada vez mais utilizado em transações de comércio exterior.

Valor: Mas a abertura já não está sendo feita?

Monica: Quando eu falo em aumentar a participação do comércio exterior, isso significa outras medidas além de reduzir as tarifas de importação. Essa história de que esse governo está reduzindo o grau de protecionismo é relativa, porque hoje a nossa tarifa não é tão alta. O nosso grande problema são as barreiras não tarifárias, como as regras de conteúdo local.

Valor: O que acha de permitir a abertura decontas em dólar?

Monica: Na minha opinião, é um tiro no pé. Isso não torna o real nem mais nem menos conversível. É uma coisa absolutamente desnecessária e até indesejável. Por razões históricas, alguns países da região permitiram isso há décadas para driblar crises. No Peru, essa dolarização da economia até caiu após o país atingir algum grau de estabilidade macroeconômica, já no Uruguai e na Bolívia, esse grau continua muito alto, o que cria uma vulnerabilidade externa que, sinceramente, não acho que vale a pena ter. O Chile, a economia mais bem administrada da região, nunca permitiu, assim como nós.

Valor: 0 nosso elevado grau de reseivcis internacionais não serviria pa ra aten uaresse risco ?

Monica: Não concordo. As reservas são, sem dúvida alguma, um colchão de proteção. O problema é que, em qualquer país que permita um grau de dolarização informal, essa dinâmica atinge um patamar que é impossível ter reservas suficientes para fazer frente a uma crise externa. O Uruguai, por exemplo, que sempre foi um país bem administrado, sofreu uma megacrise em 2002 somente por reflexo do `corralito` da Argentina, Muitos argentinos colocaram seus dólares em bancos uruguaios imaginando que, dessa forma, estariam mais protegidos. Acontece que o volume somado dos depósitos em dólar do Uruguai e da Argentina era dez vezes maior que o de reservas. Então acreditar que é possível chegar a um nível cie reservas para cobrir todos os depósitos é algo irrealista.

Valor O que nos diferencia da Argentina?

Monica: A Argentina sempre teve insuficiência de reservas, isso é um fato. Por outro lado, também nunca teria quantidade necessária de reservas para cobrir qualquer corrida. Um adendo: o plano de estabilização de 1991 tinha como base a chamada Lei de Conversibilidade, Só que o peso não se tornou mais ou menos conversível por causa disso, só havia uma garantia de troca por dólares para os argentinos, que durou com o `currency board`. Ou seja, se não houver abertura econômica, o risco é que essas medidas não tenham muito impacto e, ao mesmo tempo, tragam mais vulnerabilidade externa.

Valor: Que riscos podem ser evitados durante esse processo?

Monica: Uma lição aprendida por todos os países que fizeram essa liberalização é que não se pode fazer nada muito rápido e que precisa haver certa ordem. Outro ponto é em que medida esse plano ajuda a atrair investimentos e também que tipo de investimentos. A minha preocupação é: se for simplesmente para atender as demandas do mercado financeiro, aquele dinheiro que entra e sai rapidamente, não vejo muito benefício. Quando o assunto é investimento direto, tudo o que está relacionado a isso já conta com alguma flexibilidade, tanto é que esse tipo de fluxo não cai muito nem em momentos mais delicados.

Valor: O Brasil deveria, então, seguir o exemplo do Chile?

Monica: A única ressalva ao Chile é que, como uma economia muito pequena, não almeja nem tem capacidade de ter uma moeda internacional. Não tem tamainteressante é com a China. Ainda que a conta de capital lã seja muito fechada, o yuan é moeda internacional, faz parte inclusive da cesta de moedas do FMI. O Brasil tem tamanho para isso, mas não tem a integração necessária para esse tipo de ambição.

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