Renegociação da dívida dá fôlego à Argentina e lança desafio da reconstrução

Renegociação da dívida dá fôlego à Argentina e lança desafio da reconstrução

Pandemia e inflação anunciavam tsunami no país onde 40% da população urbana são pobres

A Argentina voltou a emitir sinais de racionalidade ao fazer um acordo preliminar com a maioria dos seus credores externos. Em maio, o governo Alberto Fernández deixou de pagar US$ 503 milhões em juros da sua dívida de US$ 65 bilhões. Sinalizava a inevitabilidade de uma renegociação. Já acontecera oito vezes nos últimos 192 anos. A primeira foi em 1827, onze anos depois da independência. A última, em 2014. O histórico garante destaque ao país entre os recordistas mundiais do calote.
Quase todas as crises dos argentinos com seus credores foram precedidas por ciclos de expansão da economia — o maior ocorreu na fase da imigração europeia, final do século XIX, quando Buenos Aires virou capital de uma rica potência agrícola. Desta vez, a novidade está na surpresa pandêmica, com efeitos devastadores para a sociedade que, mais uma vez, perdeu a noção do valor da própria moeda. Expressão matemática dessa vulnerabilidade está na inflação anual de 50%.
A pandemia, combinada à inflação descontrolada, numa economia combalida e sem perspectiva de financiamento externo, anunciava uma espécie de tsunami avançando sobre 44 milhões de argentinos, dos quais 16 milhões são pobres (40% da população urbana). Desses, admite o governo, metade está há mais de um ano submetida a uma dieta involuntária por escassez extrema de dinheiro para comprar comida.
É boa notícia, portanto, o entendimento com os credores. Desanuvia um pouco o horizonte das empresas e governos regionais que, agora, podem começar as respectivas renegociações. Os parâmetros estão dados pelo governo Fernández: para cada US$ 100 da dívida, a Argentina aceitou o compromisso de pagar US$ 54,80 (o governo queria bem menos, US$ 35), com carência de 12 meses (a proposta oficial era de 36 meses).
À primeira vista, esse acerto inicial com os credores é bom para Fernández ou seu sucessor, caso ele não dispute a reeleição. Permite-lhes manejar uma quantia nada desprezível: US$ 32 bilhões até 2029. No momento, equivale a um alívio para o país, cujas reservas cambiais correspondem a pouco mais de um terço desse valor.
Fernández agora tem a obrigação de apresentar aos argentinos um plano de reconstrução. É hora de fazer escolhas políticas sobre o papel do Estado na economia, que setores e quem conduzirá o processo de desenvolvimento, num governo cuja rotina tem sido marcada pelo duelo político entre o presidente e sua vice, Cristina Kirchner. A ambiguidade no poder só aumenta o custo de saída da crise.

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