Reino Unido convida Brasil para discutir relação comercial

Reino Unido convida Brasil para discutir relação comercial

Relações externas: Após Brexit, britânicos buscam parceiros para negociar

O Reino Unido não esperou nem três dias fora da União Européia (UE) para já convidar o Brasil e outros grandes parceiros a discutir em Genebra o futuro das relações comerciais bilaterais nas próximas semanas, conforme o Valor apurou.

O plano do primeiro-ministro Boris Johnson é de ter 80% do seu comércio coberto por acordos de livre-comércio em três anos. Johnson se coloca como campeão do liberalismo face aos `protecionistas que ganham terreno de Bruxelas à China, passando por Washington`.

Enquanto os britânicos se mobilizam, a União Européia continua tentando ignorar demanda do Brasil e de outros exportadores agrícolas por compensações por causa da redução de suas cotas (com tarifa menor) no mercado comum europeu.

 Agora sem um grande sócio como o Reino Unido, quinta maior economia do mundo, a UE reduzirá cotas específicas de importação para 11 produtos vendidos pelo Brasil, que somam queda de volume de 13,3%, com impacto sobretudo para carne de frango e aves, que precisam ser, simetricamente, compensados por cotas no Reino Unido.

Para a Confederação Nacional da Indústria (CNI), um acordo entre o Mercosul e o Reino Unido poderia beneficiar com redução de tarifas de importação outros bens que não apenas aqueles sujeitos às cotas tarifárias, para os quais as exportações brasileiras possuem competitividade em suas exportações para o mundo e para o Reino Unido.

No total, segundo a entidade, são 211 desses grupos de produtos com competitividade de exportação ao Reino Unido, cujas vendas pelo Brasil somaram US$ 2,3 bilhões em 2017 ao país (80% do total negociado aos britânicos). Desses, sobre 128 (60% dos casos) o Reino Unido aplica alguma tarifa de importação.

Fabrizio Panzini, gerente de negociações internacionais da CNI, aponta dois pontos que merecem atenção do lado brasileiro. Primeiro, que o país não perca acesso a mercados em bens que terão cotas reduzidas na UE. Isso depende de negociação na OMC. E segundo, que `o Mercosul inicie um processo formal de negociação com o Reino Unido, como outros países têm feito, para quando o Brexit se efetivar, o Brasil tenha um acordo que garanta acesso ao mercado do Reino Unido livre de tarifas`.

 O Reino Unido saiu formalmente na sexta-feira da UE e agora precisa redefinir as modalidades de sua relação com o bloco europeu e com outros parceiros.

Até o fim deste ano o Reino Unido continua seguindo todas as regras e procedimentos da UE como no passado, de forma que não haverá até dezembro nenhum impacto em razão do Brexit.

Mas a partir de janeiro do ano que vem, terminado o período de transição, Londres deixa de se beneficiar das condições especiais de acesso obtido pela UE em acordos comerciais com bom número de países. Se quiserem manter acesso preferencial, os britânicos vão negociai- com os países com os quais a UE tem acordos.

A discussão principal de Londres é com a própria UE e o confronto continua. Boris Johnson insiste que não vê necessidade de um acordo comercial que suponha a aceitação de regras da UE sobre concorrência, subsídios, proteção social, meio ambiente. Já Bruxelas diz que ou respeita suas regras ou não há acordo ambicioso como Londres quer.

Ao Valor o diretor-geral da OMC, Roberto Azevêdo, observou que o maior problema do Brexit é portanto ainda a incerteza sobre que vai acontecer no fim do período de transição, em dezembro. `Isso faz com que as empresas tanto em serviços como bens sejam cautelosas e façam apostas mais modestas na capacidade de produção`, disse.

Para Azevêdo, pelo menos nos primeiros momentos do Brexit `o crescimento econômico na Europa e no Reino Unido poderá ser um pouco contido`. Ou seja, não é que a economia vai desacelerar, mas não será tão robusta quanto poderia ser em condições normais.

O cenário exige cuidado, ainda mais quando, como diz o diretor da OMC, `o que vem acontecendo já com essas guerras comerciais e tensões geopolíticas é uma desaceleração dos investimentos globalmente. E, quando o investimento desacelera, desacelera o comércio também, automaticamente`.

Nesta terça-feira, o embaixador do Reino Unido junto à OMC, Julian Braithwaite, fez pela primeira vez um discurso na entidade. É que antes nas reuniões só quem falava era o representante da Comissão Européia. Os Estados-membros da UE não podem se pronunciar, exceto em reuniões de orçamento.

O Reino Unido tem agora um lugar separado para sentar nas reuniões na OMC, entre os Estados Unidos e Emirados Árabes Unidos.
 

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