Reino Unido busca ‘parceria profunda e ampla’ com país

Reino Unido busca ‘parceria profunda e ampla’ com país

A parceria [Brasil-Reino Unido] tem imenso potencial de crescimento. Observe a participação do comércio brasileiro conosco: representa 1% da corrente de comércio total. Sejamos honestos: é muito pouco. Precisamos elevar isso e somos ambiciosos. Uma forma é com um acordo de livre-comércio, mas não é a única. Uma negociação com o Mercosul envolve não apenas Brasil e Reino Unido, mas outros três países. Queremos agir de todas as formas possíveis.

O novo embaixador britânico Peter Wilson desembarcou há 27 dias em Brasília com extensa lista de missões na bagagem: abrir negociações comerciais entre o Reino Unido e o Mercosul, reduzir ou eliminar 50 barreiras no Brasil que travam o comércio bilateral (de chás ingleses a uísque escocês), fechar um acordo para evitar a dupla tributação de empresas com presença nos dois países, preparar avanços para a conferência do clima, a CoP-26, que Glasgow sediará em
novembro.

Diante de múltiplas frentes, Wilson resume: “Queremos uma parceria ampla e profunda com o Brasil”. A melhor forma de fazer isso, segundo ele, é perseguir sempre uma conversa “franca e honesta” entre amigos. E, reforçando o apoio de Londres à entrada do país na Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), já estreia fazendo uso da sinceridade que preconiza: os altos índices de desmatamento e dúvidas em torno de instrumentos anticorrupção
são, hoje, os principais entraves à candidatura brasileira.

O embaixador deixa claro que não vê chance de a CoP-26 finalizar o artigo 6 do Livro de Regras do Acordo de Paris - sobre a negociação de créditos de carbono - sem acordo com o Brasil.

Elogia a nova meta climática que o governo brasileiro apresentou no fim de 2020, mas - de modo sutil - diz que é preciso ver a implementação do compromisso. “O Brasil não precisa entender isso como ataque, porque não é.”

A legislação que exige que empresas britânicas comprem produtos não relacionados a desmatamento já está em vigor, atendendo à pressão dos consumidores. Os fluxos financeiros globais, afirma se movem para lugares com parâmetros sustentáveis claros e políticas socioambientais. “Isso porque há uma ameaça real ao sistema financeiro se o clima continuar a se deteriorar do modo como está.”

Wilson, 52 anos, já serviu como diplomata em Pequim e fala mandarim. Foi representante da delegação britânica na ONU em Nova York e embaixador do Reino Unido na Holanda. Em Brasília, encontrou uma missão diplomática recém-reformada, com traços modernos - e lá se trancou, por duas semanas, para quarentena, que diz ter obedecido “rigorosamente”.

A seguir, os principais trechos da entrevista:

Valor: Depois do Brexit, qual é a perspectiva de termos um acordo comercial Mercosul-Reino Unido?

Peter Wilson: O comércio bilateral tem crescido, mas não o suficiente. Então, minha proposição inicial é acelerar o nosso intercâmbio. Para isso, a liberalização é chave. Há muitas formas diferentes de alcançar esse objetivo. O Mercosul é uma das frentes e queremos levar adiante negociações. Outra frente é reduzir ou eliminar barreiras de acesso ao mercado. Há hoje cerca de 50 barreiras que gostaríamos de ver removidas. Para ficar em um exemplo concreto: o scotch
escocês. Já fornecemos ao Brasil, mas poderíamos estar vendendo bem mais. [O setor comercial da embaixada informou outros dois produtos que enfrentam barreiras: chás e infusões, porque algumas plantas têm entrada banida no Brasil, e lácteos, por causa de inspeções altamente custosas aos produtores britânicos]. Em termos estratégicos, ter um acordo de livre-comércio com o Mercosul é o que gostaríamos. Mas queremos uma liberalização com o Brasil de qualquer forma possível, usando todos os meios possíveis. Um acordo de livre-comércio é parte disso, remover antecipadamente barreiras é outra parte, usar a nova legislação sobre indicações geográficas, também.

Valor: Pode ser mais pragmático, então, discutir bilateralmente essas barreiras específicas em vez de entrar numa longa e incerta negociação para acordo com o Mercosul?

Wilson: As duas coisas podem andar juntas. Vamos nos dedicar a tudo que possa render frutos rapidamente. O fato de termos deixado a União Europeia nos dá mais margem de manobra. E queremos usá-la. É uma oportunidade. Entramos em negociações de livre-comércio com mais de 60 países após o Brexit. E o nosso apetite é ainda maior. A parceria [Brasil-Reino Unido] tem imenso potencial de crescimento. Observe a participação do comércio brasileiro conosco:
representa 1% da corrente de comércio total. Sejamos honestos: é muito pouco. Precisamos elevar isso e somos ambiciosos. Uma forma é com um acordo de livre-comércio, mas não é a única. Uma negociação com o Mercosul envolve não apenas Brasil e Reino Unido, mas outros três países. Queremos agir de todas as formas possíveis.

Valor: A CNI sempre aponta um acordo para evitar dupla tributação com o Reino Unido como um dos mais relevantes para a indústria. Acredita que isso pode sair logo?

Wilson: Desejamos muito esse acordo e o consideramos totalmente viável. O Brasil é um dos poucos países com quem não temos tratado de bitributação. Se você tem um olhar mais estreito, verá apenas a divisão das receitas existentes hoje. Na verdade, tendo um acordo, as receitas vão crescer dos dois lados porque os laços econômicos se fortalecem. Muitas companhias serão incapazes de crescer sem um acordo de bitributação. Eu mesmo pude participar virtualmente, em
dezembro, do Diálogo Econômico e Financeiro com os ministros Paulo Guedes e Rishi Sunak [secretário do Tesouro britânico]. Ouvi o compromisso de ambos de chegar a um entendimento. Com a vontade política presente, os avanços técnicos são exequíveis.

Valor: Então pode-se ter a expectativa de acordo ainda em 2021?

Wilson: Do lado britânico, com certeza. Do lado brasileiro, os sinais políticos indicam que sim.

Valor: O Reino Unido tem sido um apoiador da adesão do Brasil à OCDE, mas o processo ficou à deriva. Pode recuperar tração? Quem o governo britânico prefere para suceder o secretário-geral Ángel Gurría, que está saindo? Isso influenciará o processo de entrada do Brasil?

Wilson: Deixe-me começar pelo final. Preciso ser extremamente cuidadoso porque é o nosso embaixador na OCDE, em Paris, quem está conduzindo o processo dos países-membros para a escolha do novo secretário-geral. Em nome da neutralidade, devemos ser muito zelosos. Quanto ao acesso do Brasil, nenhum outro candidato aderiu, previamente, a tantos instrumentos da significa, porém, que tudo esteja pronto. Há mais trabalho por fazer. E existem duas áreas-chave
para os países-membros da OCDE. Não cabe a mim comentar se estão certas ou erradas. São fatos. Uma preocupação é o desmatamento. Outra diz respeito aos instrumentos anticorrupção da OCDE. Nós apoiamos a candidatura brasileira, quero deixar isso claro, e acredito que o governo será capaz de endereçar esses pontos. Vamos prover toda a assistência técnica que se fizer necessária.

Valor: O processo de entrada do Brasil será mais ou menos rápido conforme a velocidade com que o governo atacar o desmatamento e o combate à corrupção?

Wilson: No tema anticorrupção, trata-se de uma questão técnica: como os instrumentos da OCDE já foram implementados no Brasil e como levar adiante instrumentos aos quais ainda não houve adesão. Quanto ao desmatamento, é [ver] em que direção as coisas estão caminhando.
Quanto mais clara for essa direção, mais fácil será convencer os membros da OCDE de que a entrada do Brasil facilitará, inclusive, esse caminho. Não é uma afirmação minha, não é uma afirmação do governo britânico, é a realidade política de onde o processo está neste momento.
Queremos uma parceria ampla e profunda com o Brasil. A melhor forma de alcançar isso é uma conversa, entre amigos, que seja franca e honesta. Tudo o que estou fazendo é dar a nossa visão sincera e ampla do processo. Nós queremos vocês lá.

Valor: O governo Bolsonaro é eficiente em controlar o desmatamento e trazer de volta a confiança dos investidores? Ou não?

Wilson: A NDC [nome oficial das metas climáticas dos países] que o Brasil anunciou recentemente foi um passo importante, um compromisso com metas ambiciosas. Mas o segundo ponto é a implementação. Acho justo, da mesma forma que o Brasil exigiu no passado, ter certeza de que estamos implementando os compromissos que fizemos - e o Brasil não deveria ver isso como um ataque ao país, porque não é. A negociação que o Reino Unido está conduzindo e que
terá fim em Glasgow tem vários elementos. Um deles é o desmatamento. Outro é ter certeza que os países mais responsáveis por fornecer recursos financeiros cumpram a promessa. Como presidente da CoP, o Reino Unido vai acompanhar esses elementos. Somos uma presidência ambiciosa, para o meu governo esse tema importa. Acredito que podemos trabalhar com o Brasil esses tópicos

Valor: Quais são os principais obstáculos para as empresas britânicas investirem no Brasil?

Wilson: Falei só com algumas empresas, mas vejo dois pontos-chave. Um é garantir cadeias sustentáveis de fornecimento. Isso importa para as empresas porque consumidores param de comprar quando não têm confiança na sustentabilidade da cadeia. Não estou fazendo uma declaração política, mas falando da realidade com a qual as empresas lidam todos os dias.
Implementamos em 2020 uma legislação para garantir que as empresas comprem de cadeias sustentáveis. Outro ponto são as barreiras comerciais. Mas não vejo o Brasil com a lente dos problemas: há grandes oportunidades aqui para empresas britânicas. Legislação é parte disso, assim como o comportamento do consumidor e a estabilidade financeira de longo prazo. Os mercados financeiros serão determinados pela confiança que os investidores têm com a
sustentabilidade e políticas “verdes” dos países. Os fluxos financeiros estão se movendo para onde as pessoas têm confiança nos parâmetros de sustentabilidade. Há uma ameaça real ao sistema financeiro se o clima continuar a se deteriorar do modo como está.

Valor: A CoP-26 é tida como tão importante quanto a que construiu o Acordo de Paris. Há risco de a pandemia atrasar a conferência? E é possível sustentar uma conferência deste porte em formato virtual?

Wilson: Queremos que a CoP aconteça como o planejado, em Glasgow, em novembro. Já foi adiada uma vez. Como vai acontecer, exatamente, ainda não está claro. Mas o importante não são apenas as duas semanas finais, mas todo o processo, com as decisões que os países irão fazer. Não depende tudo dos últimos minutos da negociação. Há acordos políticos que são importantes, e é do nosso interesse fazer antes, e que estabelecerão parâmetros para garantir
que a negociação em novembro será um sucesso. Quero ressaltar um deles: como vamos construir a criação de um mercado de carbono funcional. O Brasil, na minha opinião, tem forte interesse em um mercado de carbono que funcione bem. A chave para isso é conseguir um acordo no Artigo 6 [do Livro de Regras do Acordo de Paris, ainda em aberto]

Valor: O Brasil foi acusado, na CoP de Madri, de ter bloqueado o acordo no Artigo 6. Está otimista com um consenso em Glasgow?

Wilson: Sinto que podemos fazer negócios com o Brasil no clima. Queremos uma parceria ampla e profunda com o Brasil. O que quero dizer é que clima é uma grande prioridade para mim, assim como o comércio e a relação científica - incluindo vacinas. Estou confiante que podemos alcançar um acordo em clima. Temos muito trabalho a fazer e pontes a construir.

Valor: É possível ter um acordo no Artigo 6 sem o Brasil?

Wilson: Não.

Valor: O sr. estudou mandarim e serviu na embaixada em Pequim. Um desafio de Glasgow é aumentar a ambição dos países. Como vê a participação no processo de EUA e China, os dois grandes emissores, com Joe Biden e Xi Jinping?

Wilson: O primeiro-ministro Boris Johnson e o presidente Joe Biden tiveram um importante encontro sobre proteção climática. Trata-se de uma grande mudança na posição americana, fundamental para o sucesso em novembro. Também houve grande mudança na China. Acho que a NDC chinesa e o compromisso de “net zero” em 2050 são muito importantes. O que agora espero ver da China é o plano detalhado da implementação e uma clara direção de rota.
Conhecendo a China, sei que tem planos e verá vantagens econômicas. Não por acaso a China está na frente na produção de veículos elétricos, é o maior produtor mundial de painéis solares.
Pode-se enriquecer tornando-se verde. No Reino Unido acreditamos que há vantagens econômicas em fazer a descarbonização rapidamente.

Valor: E o Brasil, nesta cena?

Wilson: É importante reconhecer o que o Brasil já conseguiu. Vocês têm fontes de energias sustentáveis, é uma grande vantagem. Têm recursos naturais incríveis, interesse e oportunidade de vender créditos de carbono. Este conjunto de coisas, no fim das contas, vai moldar a sustentabilidade das economias no longo prazo. O que temos que fazer, como negociadores, é criar o ambiente onde estas coisas possam acontecer.

Valor: Falando sobre vacinas: há mais cooperação com o Brasil?

Wilson: O primeiro encontro que tive no Brasil foi com meu time. O segundo, com a Fiocruz, de tão importante que a cooperação entre o Reino Unido e o Brasil em vacinas é para mim. É muito bom que 2,8 milhões de doses da vacina da Oxford/ AstraZeneca já tenham chegado ao Brasil, parte das que estão a caminho e totalizam 15 milhões. A Fiocruz, com sua enorme capacidade e reputação, está desenvolvendo a habilidade de produzir vacinas aqui. Vamos conviver algum
tempo com esse vírus. E o processo de vacinação será importante não apenas neste ano, mas no futuro. Dado o papel global do Brasil e a forte tradição do país na vacinação, eu diria que, uma vez que vocês vacinem a sua população, que é prioridade, poderão exportar vacinas.

Valor: O Brasil atravessou grandes recessões nos últimos anos, teve impeachment, vive polarização política e retrocede na proteção ambiental. Há razões para otimismo?

Wilson: Várias, mas vou citar três. A primeira é ter um governo que está comprometido com a liberalização comercial, a melhor maneira de sair da recessão. A segunda é que vocês têm um governo que se orienta para o Ocidente, e isso diz algo sobre o tipo de parceria que podemos construir com o Brasil. A terceira é que vocês passaram por momentos complexos, mas isso também indica que o Brasil é um país democrático. Vivermos em democracias robustas é a base
para parcerias estratégicas.

Por Daniel Rittner e Daniela Chiaretti

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