´Reforma é matemática, não ideologia´

´Reforma é matemática, não ideologia´

ENTREVISTA: Alessandro Zema, presidente do banco Morgan Stanley no Brasil. Executivo defende a aprovação da Previdência para o reequilíbrio das contas públicas e retomada do crescimento

A retomada do crescimento do Brasil passa obrigatoriamente pela aprovação da reforma da Previdência, que está em discussão no Congresso. `É absolutamente crítico resolver o equilíbrio das contas públicas.

E isso passa pela reforma da Previdência. Não é uma questão de ideologia, mas de matemática`, diz Alessandro Zema, presidente do banco de investimentos Morgan Stanley no Brasil. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Como o sr. avalia os 100 dias do governo de Jair Bolsonaro? Antes de responder essa pergunta queria fazer uma contextualização. Acredito que as menores tensões comerciais e atuação dos bancos centrais têm trazido uma melhora ao ambiente internacional. E isso favorece mercados emergentes. Dito isso, o Brasil tem potencial para capturar boa parte dos investimentos destinados a mercados emergentes.

Como os investidores estrangeiros estão olhando o Brasil neste momento? É absolutamente crítico resolver equilíbrio das contas públicas. E isso passa pela reforma da Previdência. Não é uma questão de ideologia, mas de matemática. O déficit gerado pela Previdência é insustentável: corresponde por 8,5% do PIB do Brasil. Há ambiente político para que a reforma seja aprovada? Há 25 anos que se discute a reforma da Previdência.

Foram 5 presidentes. Acredito que o Congresso e a sociedade estão preparados para entender que não dá mais para se empurrar com a barriga. A Previdência é a primeira parte do reequilíbrio das contas públicas. Depois, a gente consegue aumentar o nível de confiança da economia, fazendo com que as empresas invistam mais, gerando renda e emprego.

O sr. ainda está confiante na aprovação da reforma mais ambiciosa, mesmo com os recentes conflitos em Brasília? Enquanto não houver a reforma, o Brasil está condenado a um crescimento pífio de PIB. Torço pela aprovação da reforma de R$ 1 trilhão. Uma reforma abaixo disso só resolve o problema do governo Bolsonaro.

Não podemos empurrar para as gerações futuras o desequilíbrio fiscal que temos hoje. 0 que significa um crescimento pífio? Crescimento de 0,6% na média dos últimos 10 anos. Nos últimos dez anos, tivemos soluções paliativas que nunca endereçaram à questão fiscal. Se aprovada a Previdência, quais serão as outras prioridades do governo? O Brasil, para desenvolver todo o seu potencial, precisa de uma série de reformas. A Previdência é a primeira delas.

Em seguida vem a reforma tributária, independência do Banco Central, mudança tamanho do Estado. Havia uma expectativa dos investidores de que a recuperação do Brasil fosse mais rápida... Essa incerteza política tem gerado desapontamento. Com o resultado das eleições, os investidores locais, por estarem mais próximos da situação, conseguiram se reposicionar melhor.

Dito isso, os investidores globais, que não são focados em América Latina e países emergentes, só devem injetar mais recursos aqui quando a reforma de fato acontecer. Mas já há movimentos concretos de investimentos no País. Quais movimentos? Os leilões de concessões de ae- Sul foram bem sucedidos. O programa de privatização do governo também deve atrair muitos investidores. Sem contar que as empresas estão acessando mais o mercado de capitais. Quando há boas histórias, há interesse de investidores.

Neste ano, já foram sete operações de mercado de capitais: seis transações de `follow on` (emissões de ações) e um IPO (abertura de capital, na sigla em inglês), movimentando US$ 2,7 bilhões. Os investidores estrangeiros participaram ativamente. Como será este ano? Dependendo da velocidade das privatizações e aprovação da Previdência, podemos chegar US$20 bilhões em ofertas, com emissões de ações e IPOs. Sobre as privatizações, o que sr. acha imprescindível e quais são as ´vacas sagradas´? O programa de leilões de infraestrutura prevê levantar R$ 130 bilhões de ativos.

Se tomar uma perspectiva mais holística, o governo enviou uma proposta mais ambiciosa de reforma da Previdência, enviou projeto de lei de independência do Banco Central, vem discutindo a reforma tributária. Já fez bastante coisa. A Petrobrás tem feito desinvestimentos. É normal que haja resistências.

Está claro, pelo que ouço, que Petrobrás, Banco do Brasil e Caixa são as vacas sagradas. 0 mercado reagiu mal à interferência do presidente no reajuste do diesel... A questão do diesel causou surpresa, mas governo respondeu rápido sobre a Petrobrás ter independência e a questão dos caminhoneiros. O período que Petrobrás foi usada como política macroeconomia, a gente quer esquecer.

Os resultados foram desastrosos para empresa e para a economia. Quais são os planos do Morgan Stanley para o Brasil? O banco tem, nos últimos 22 anos, atuação forte em renda variável, renda fixa e banco de investimento. São os três grandes carros-chefes no Brasil. Mas queremos crescer outros negócios.

Começamos a atuar aqui desde o ano passado na área de `asset management` (gestão de ativos). Somos o segundo maior gestor global de fortunas e queremos aumentar a participação de clientes brasileiros em nossa operação fora do País. QUEME

Formado em Administração de Empresas pela FEA-USP e MBA pela London Business School, Alessandro Zema é desde março presidente do Morgan Stanley no País. 0 executivo está há 11 anos no banco e também é chefe da área de Banco de Investimento.

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