´A questão fiscal é muito ruim, é dramática´

´A questão fiscal é muito ruim, é dramática´

0 economista José Roberto Mendonça de Barras projeta uma recuperação ´bastante lenta, com muita incerteza´. E considera o Orçamento de 2021 ´café com leite´, porque não inclui o novo Bolsa Família nem o Fundeb

Em entrevista ao GLOBO, o economista José Roberto Mendonça de Barros, sócio da MB Associados e ex-secretário de Política Econômica, diz que a retomada será lenta e considera difícil `juntar as condições para a retomada de fato sustentada`. Com o agravante de que a questão fiscal `é dramática, perto do descontrole`, o que torna insustentável manter o auxílio emergencial que impediu queda maior do Produto Interno Bruto (PIB) no segundo trimestre. Cético em relação a avanços na reforma administrativa, diz que, se sair do papel, será `ótimo` Confira os principais trechos:

Recuperação da economia
Achamos que vai ser lenta. Tem uma renda vindo da transferência do governo, financiada pelo déficit público que cresceu, que vai deixar de existir. Logicamente, o consumo que depende dessa renda vai ser menor. Outra coisa: o preço dos alimentos está subindo muito, e o dólar está alto. Embora a inflação esteja na faixa de 2% (aoano) na média, o custo da alimentação está subindo acima de 10%. Alimentos básicos subiram mais de 35%. Estamos prevendo 2% (de alta do PIB em 2021). Nosso cenário é o de uma recuperação bastante lenta, com muita incerteza, porque o equilíbrio macroeconômico está em jogo. Não podemos esquecer que a questão fiscal é muito ruim, é dramática, e arrecadação não vai crescer muito. Tem uma equação muito desagradável para resolver.

Risco fiscal
Estamos perto do descontrole fiscal. Teremos déficit público de R$ 800 bilhões. Antes da pandemia, a previsão era de R$ 100 bilhões. A dívida pública vai ficar em 94% do PIB. O governo precisa emitir um sinal de que não está perdendo o controle. Mas tem uma parte do governo tentando gigantescamente gastar mais, seja nas transferências, seja no investimento público, seja com militares. Se isso for minimamente adiante, vai ter que emitir mais (dívida). Se aumentar o imposto, derruba mais a atividade doméstica. O que está todo mundo acompanhando é a redução do prazo médio de vencimento da dívida pública. Quando começa a ter essa incerteza, as taxas de juros mais longas ficam muito altas. Estão perto de 8% (ao ano), e as curtas, em 2%. O Banco Central deixa de vender papel de dez anos e vende de seis meses. Mas se vai fazendo isso sempre, de repente, está emitindo moeda.

Orçamento de 2021
O governo mandou o Orçamento, que é `café com leite`, por enquanto. Não estão lá os R$ 20 bilhões com transferência para o Fundeb (Fundo de Desenvolvimento da Educação Básica), não tem o novo Bolsa Família, não tem todos os projetos que os militares e os ministros querem. Essa vai ser a grande discussão do segundo semestre, que será atrapalhada pela eleição municipal. Juntando tudo isso, não dá para ver como retomar esse crescimento. E muito incerto. Nada é sustentável quando tem essa incerteza.

Programa de obras
Sou descrente. Não vai estimular (a economia) como estão pensando. Já temos experiência para saber que o investimento público direto é sempre feito com má qualidade. Por mais que digam que não, vai haver interferência política. O que vi foi uma lista de projetos, um potpourri, tem um pouco de tudo. Não garante que vai sair algo. Tem muito a ver com um projeto populista. Uma forma populista de tentar uma fórmula que deu errado com Geisel (Ernesto Geisel, presidente na ditadura militar entre 1974 e 1979), deu errado com o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento implantado no governo Dilma Rousseff). Por que vai dar certo agora? Não é a melhor forma de voltar a crescer. Além do que, o setor público não tem dinheiro. Isso, junto com a péssima situação fiscal, tornará difícil sair desse buraco.

Reforma administrativa
Não acredito que seja para valer nessa altura das coisas. Se for para valer, eu acho ótimo. Mendonça de Barros. Programa de obras é `forma populista de tentar uma fórmula que deu errado com Geisel e Dilma`

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