Disputa entre Fernández e Cristina abre maior crise institucional do peronismo desde a volta da democracia

Disputa entre Fernández e Cristina abre maior crise institucional do peronismo desde a volta da democracia

16/09 Em áudio vazado, deputada kirchnerista se refere a presidente como 'doente, surdo e usurpador'; chefe de Estado afirma em tuíte que seu governo 'continuará se desenvolvendo do modo que eu estimar conveniente'

Na noite da última terça-feira, o presidente da Argentina, Alberto Fernández, se reuniu a sós com sua vice, Cristina Kirchner, na residência oficial de Olivos. Até aquele momento, o que existia era um governo derrotado de forma esmagadora nas primárias realizadas no último domingo para a escolha dos candidatos às eleições legislativas de novembro. Depois do tête-à-tête, afirmaram analistas locais ao GLOBO, abriu-se a mais grave crise institucional já enfrentada pelo peronismo no comando da Casa Rosada desde a redemocratização da Argentina, em 1983.

Fernández e Cristina — que antes da campanha eleitoral de 2019 passaram dez anos sem se falar — tornaram público um desentendimento sobre o qual se fala desde o primeiro dia de governo. Diante da decisão do chefe de Estado de não ceder às pressões do kirchnerismo para trocar ministros de sua confiança, entre eles o da Economia, Martín Guzmán, cinco ministros ligados a Cristina apresentaram suas renúncias na quarta-feira.

Alguns deles, confirmaram fontes do Gabinete, avisaram os meios de comunicação antes de comunicar sua decisão ao presidente. Em meio a rumores sobre qual será o desfecho da crise, Fernández, pela primeira vez, mostrou estar disposto a enfrentar a ofensiva do kirchnerismo e resistir. "A gestão de meu governo continuará se desenvolvendo do modo que eu estimar conveniente. Para isso fui eleito", escreveu o chefe de Estado, em sua conta no Twitter.

A resposta de Cristina chegou através de uma carta pública. No texto, a vice-presidente confirmou sua defesa de uma mudança de Gabinete como reação necessária à derrota eleitoral. Ela também confirmou o encontro de terça com Fernández e disse que se reuniu com ele 19 vezes desde o início do governo, incluindo pouco antes das primárias, quando expressou sua preocupação pela situação social e econômica.

“Fui, sou e serei peronista. Por isso pensava que não podíamos ganhar. E disse isso ao presidente. Muitos companheiros e companheiras ouviram meus temores”, escreveu a vice argentina, responsabilizando totalmente Fernández pela derrota. "Não sou eu quem põe o governo em xeque. É o resultado eleitoral."

Cristina questionou medidas de ajuste econômico e pediu que Fernández reveja o projeto de Orçamento para 2022 apresentado esta semana por Guzmán, que prevê ajustes e cortes de subsídios. Ela encerra a carta lembrando que, quando tomou sozinha a decisão de escolher Fernández como candidato presidencial, “o fiz com a convicção de que era o melhor para minha pátria. Só peço ao presidente que honre aquela decisão, mas, acima de tudo (...) que honre a vontade do povo argentino”.

Fontes da Casa Rosada afirmaram que a estratégia do presidente, até o momento, é tentar se fortalecer no confronto com Cristina. Entregar ao kirchnerismo o que ele pede, explicaram as fontes, seria optar por um enfraquecimento fatal, sem retorno.

A leitura que fazem ministros de Fernández é que o kirchnerismo pretende que o presidente carregue sozinho o peso do revés eleitoral. E, de quebra, se apropriar totalmente do governo. Os desafios à autoridade do presidente são permanentes desde o início do mandato, mas, até agora, aconteciam longe dos holofotes.

Após a renúncia dos ministros — ainda não aceita pelo presidente —, vazou um áudio da deputada Fernanda Vallejos, da bancada governista na Câmara, no qual ela se refere ao presidente como um "doente", "usurpador", "cego" e "surdo", que "quer conservar seu núcleo de inúteis" na Casa Rosada. A deputada, sabe-se, é uma espécie de porta-voz informal da vice-presidente.

— O áudio de Vallejos torna difícil que tudo continue igual, a ruptura entre Fernández e o kirchnerismo é evidente — explica Juan Negri, professor da Universidade Di Tella.

Para ele, "esta é uma crise significativa, mas que não necessariamente terminará como a de 2001", quando o então presidente Fernando de la Rúa renunciou ao cargo, deixando gravada na memória dos argentinos a imagem do chefe de Estado indo embora do palácio de governo de helicóptero. Meses antes, seu vice-presidente, Carlos Chacho Álvarez, saiu do governo de coalizão entre a União Cívica Radical e a extinto Frente Ampla em meio a escândalos de corrupção.

Desta vez, a crise institucional é vivida por uma aliança entre peronistas, que hoje mostra claramente ter sido um casamento por conveniência. A derrota eleitoral nas primárias de domingo passado desencadeou um terremoto, mas os primeiros movimentos sísmicos são muito anteriores.

Cristina e seus aliados nunca estiveram de acordo, por exemplo, com a política econômica comandada por Guzmán, e agora pretendem uma virada populista — leia-se mais emissão monetária, subsídios e programas de ajuda social — que consiga reverter o resultado das primárias e impeça que a derrota do governo se confirme na eleição para a Câmara e o Senado.

— Se o governo já estava perdendo votos pela crise econômica e a decepção com o peronismo, esta crise interna, a mais grave em termos institucionais para o peronismo desde 1983, poderá provocar um desastre eleitoral ainda pior na eleição de 14 de novembro — afirma a analista Mariel Fornoni, diretora da empresa de consultoria Management and Fit.

Na visão de Fornoni, "alguém deverá ceder na negociação que está acontecendo, e não estamos vendo. A questão é quem".

A crise do governo coincidiu com protestos nesta quinta que reuniram dezenas de milhares de manifestantes, convocados por organizações de esquerda fora do peronismo para exigir mais ajuda para as famílias na pobreza, que hoje atinge 40% da população. Organizações de tendência peronista também convocaram uma manifestação em frente à Casa Rosada em apoio a Fernández, mas, na tentativa de reduzir as tensões, o presidente pediu que elas desmarcassem a mobilização.

Fernández conta com o apoio de alguns sindicatos e governadores. Cristina tem uma tropa de deputados, senadores e, principalmente, o movimento La Cámpora, chefiado por seu filho, o deputado Máximo Kirchner. Um terceiro ator importante na crise é o presidente da Câmara, Sergio Massa, que, junto com os votos cativos de Cristina, ajudou Fernández a ser eleito em 2019.

O general e ex-presidente Juan Domingo Perón costumava dizer que os peronistas são como os gatos, "quando as pessoas ouvem eles gritando, não é que estão brigando, é que estão se reproduzindo". Não está claro, ainda, se esta afirmação continua vigente ou se, pelo contrário, desta vez o peronismo está implodindo na metade de um mandato presidencial.