China toma mais espaço do Brasil na Argentina, aponta OMC

China toma mais espaço do Brasil na Argentina, aponta OMC

A parte das importações procedentes do Brasil caiu para 20,4% do total em 2020 comparado a 26% em 2012, enquanto a China passou de 14,6% do total em 2012 para 20,4% no ano passado

As exportações do Brasil continuam perdendo espaço para produtos da China na vizinha Argentina, ao mesmo tempo em que o Brasil continua a ser o principal mercado para as vendas argentinas. É o que mostra a Organização Mundial do Comércio (OMC) durante um exame da política comercial argentina, que ocorre hoje e sexta-feira.

Conforme relatório da OMC que serve de base para o exame, na Argentina a parte das importações procedentes do Brasil caiu para 20,4% do total em 2020 comparado a 26% em 2012. Já a fatia da China nas importações argentinas aumentou consideravelmente nesse período, passando de 14,6% do total em 2012 para 20,4% no ano passado.

Ou seja, com a Argentina comprando cada vez mais produtos chineses, o resultado é que o Brasil e a China tinham praticamente a mesma fatia do mercado argentino em 2020. Dados do Indec (Instituto Nacional de Estadística y Censos), em Buenos Aires, sobre o comércio exterior argentino entre janeiro-julho deste ano confirmam o avanço chinês: a Argentina comprou US$ 6,9 bilhões de produtos chineses, comparado a US$ 6,8 bilhões no Brasil. Já as vendas argentinas alcançaram US$ 4,3 bilhões para a China e US$ 5,9 bilhões para o Brasil.

Não é só o Brasil que perde terreno para os chineses. A fatia dos EUA nas compras externas argentinas caiu de 12,5% para 10,4% e da União Europeia (UE) de 17,1% para 15,6% entre 2012 e 2020. Por sua vez, os principais mercados de exportação para a Argentina eram o Brasil (14,5%), UE com 12,2% do total, a China com 9,6% e os EUA com 6,0% em 2020.

No ano passado, 85% das importações argentinas foram de produtos manufaturados. A evolução da composição das importações desde 2012 mostra um aumento da parte de máquinas e equipamentos e de produtos químicos, e uma forte contração na importação de veículos e de combustíveis. Ao mesmo tempo, a Argentina continua vendendo sobretudo produtos agrícolas. A China é também seu principal cliente para carne bovina e pescado.

A economia da Argentina sofre persistente contração desde 2012, na vez anterior em que a OMC tinha examinado sua política comercial. E os parceiros continuaram perdendo negócios. A própria China, mesmo tendo aumentado sua fatia no total das importações argentinas vendia em 2020 menos do que em 2012 (-US$ 1,3 bilhão). No caso do Brasil, o volume de vendas em 2020 foi inferior em US$ 5,2 bilhões ao de 2012.

O documento da OMC destaca que no final de 2020 a economia argentina tinha um PIB (Produto Interno Bruto) de -13,3% ao de 2013, com baixas de formação bruta de capital fixo de -28,9% e de consumo privado de 19,9% no mesmo período. A dívida externa aumentou de US$ 156,4 bilhões (26,9% do PIB) em 2012 para US$ 271,5 bilhões (70,9% do PIB) no ano passado.

A fraqueza do crescimento econômico e a desvalorização do peso em relação ao dólar dos EUA resultaram em estagnação e queda do PIB por habitante, que passou de US$ 13.932 em 2012 para US$ 8.442 em 2020. A crise sanitária agravou a recessão (queda de 9,9% do PIB no ano passado) e taxa de desemprego artingiu 11%.

A Argentina continua a usar amplamente os instrumentos de defesa comercial para proteger a indústria nacional contra a concorrência estrangeira. Em março deste ano, tinha 114 medidas antidumping em vigor, para combater o que considera produtos com preços deslealmente baixos. Elas são aplicadas sobretudo contra a China (54%), Brasil (12%) e Índia (5%).

O país se destaca também pelo uso amplo de licenças de importação, automáticas ou não automáticas, principalmente no caso de têxteis, máquinas e aparelhos e metais comuns. Em documento preliminar aos países na OMC, o governo argentino observou que o atual exame de sua política comercial ocorre num mondo que enfrenta duras consequências da pandemia. E que seu compromisso é de “consolidar um crescimento favorecendo a inclusão social e alcançar um ritmo sustentável no médio prazo”.

Com relação ao Mercosul, o governo argentino diz que o bloco é um instrumento chave pra melhorar as condições de acesso de suas exportações a outros mercados. Não menciona as divergências no bloco, lideradas pelo governo de Jair Bolsonaro. Mas faz uma longa lista do que considera avanços no Mercosul, incluindo acordo de compras públicas que favorecem as empresas dos países sócios.