Analista: Brasil terá perdas ‘pesadas’ e Argentina se beneficiará se embargo chinês de carne durar

Analista: Brasil terá perdas ‘pesadas’ e Argentina se beneficiará se embargo chinês de carne durar

A China é a maior importadora de carne bovina brasileira, entretanto, com casos confirmados de vaca louca, a exportação foi temporariamente suspensa. A Sputnik Brasil entrevistou analista para saber como pode ficar a economia brasileira diante da interrupção do comércio entre os países.

No sábado (4), as exportações de carne bovina do Brasil para a China foram suspensas após a confirmação de dois casos atípicos da doença da vaca louca registrados pelo Ministério da Agricultura, conforme noticiado.

Os casos aconteceram em duas cidades brasileiras distantes uma da outra: Nova Canaã do Norte (MT) e outro em Belo Horizonte (MG). Entretanto, a vaca louca "atípica" é considerada de menor risco do que a forma clássica da doença, pois ocorre de forma natural e apenas esporádica em bovinos mais velhos.
A China é a maior importadora de carne bovina do Brasil, e a interrupção do comércio atende ao protocolo sanitário firmado entre os dois países, e dura até que as autoridades chinesas concluam a avaliação das informações repassadas.

A Sputnik Brasil conversou com Augusto Carneiro, trader da Sudambeef S.A (empresa de importação e exportação) e responsável pelas vendas para a Rússia e Leste Europeu, para entender melhor sobre o caso.

Carneiro elucida que os casos típicos de Bovine Spongiform Encephalopathy (BSE, na sigla em inglês), denominada em português de encefalopatia espongiforme bovina (EEB) e popularmente conhecida por doença da vaca louca, são causados pela alimentação inadequada ingerida pelos animais através da "ração" que lhes é dada.

Essa ração, é constituída de ossos dos próprios bois ou vacas triturados, e produz nos bovinos perda da coordenação motora. "Quando isso ocorre, ocorre em cadeia, porque a alimentação foi dada para um lote de animais", explicou o especialista.
Já os casos atípicos são isolados e não são decorrentes da alimentação, mas sim do próprio animal pelo tempo largo de vida do mesmo, que teve alguma anomalia motivada por algo que ele ingeriu. Neste caso, o grupo não fica contaminado, apenas os bovinos que apresentam essa anormalidade.

"No Brasil é mais difícil acontecer o caráter típico da doença porque a alimentação é a base de pasto, de grama natural, e quando os animais têm alguma complementação alimentar, é uma complementação apenas de reforço, diferente de países europeus, que por não terem pasto devido ao frio, os animais são alimentados através da ração."
Entretanto, Carneiro ressalta que essa técnica vem cada vez mais perdendo força, uma vez que a nível global, de modo geral, foi interrompida a alimentação de bovinos com ração.

Brasil e autoembargo
Questionado se a decisão do Brasil de executar um autoembargo de exportação pelos casos que decorreram foi acertada, o especialista diz que sim, pois isso mostra um respeito pelo acordo bilateral feito entre China-Brasil.

"Quando foi assinado o acordo para o Brasil oferecer carne à República Popular da China, fez parte do pacto que se algum caso de vaca louca fosse notificado, teria que haver suspensão da exportação de itens bovinos até que o mesmo seja 100% resolvido."
Se outros países podem suspender a importação de carne bovina do Brasil, Carneiro diz que possivelmente isso "pode acontecer, seja suspensão parcial, nos estados afetados por BSE [MT e MG], ou até mesmo geral, para todo o país, isso é algo com possibilidade concreta de acontecer".

Consequências da suspensão
Carneiro diz que se a suspensão durar um período muito grande, o Brasil pode sim sofrer consequências "pesadas" na sua economia, já que a China é a principal importadora de carne bovina do país.

"A gente não pode descartar que se isso ficar muito tempo [a suspenção da exportação] vai interferir até nos dados econômicos do país, não tenhamos nenhuma dúvida disso. Porque na retaguarda do comércio de carne gerado entre Brasil-China estão muitos empregos, economia girando, à medida que isso é cortado de forma repentina […] impacta demais, e conforme o tempo for passando, vão ter efeitos na economia do próprio país."
O trader conta que "este ano, o volume de exportações já ultrapassou as 500 mil toneladas, um volume muito expressivo, significativo, a cadeia bovina produtiva do Brasil, toda ela está alicerçada também nas exportações chinesas. Então o tempo que vai dizer se vai afetar ou não".

Em uma possível perda do protagonismo brasileiro para as exportações chinesas, o especialista diz que um país que poderia se beneficiar com essa baixa é a Argentina. Entretanto, ressalta que Buenos Aires apenas exporta 300 mil toneladas, enquanto o Brasil exporta quase o dobro.

"Não há força hoje que possa repor as exportações brasileiras de carne bovina. […] O volume brasileiro está em outro patamar", afirmou Carneiro.

Carneiro também salienta que "assim como os chineses não têm reposição para carne brasileira em tão larga escala com as outras opções de fornecimento hoje, os brasileiros também não têm outra opção tão encorpada como o mercado chinês para que seja redirecionado todo esse volume em um curto espaço de tempo".

Contudo, se o período de suspensão for muito grande, os chineses "vão ter que migrar para países que possam vir a substituir parte do volume exportado pelo Brasil, e aí partiriam para outros países sul-americanos, como a Argentina e o Uruguai".

"Pode ser que eles [Argentina e Uruguai] venham a se beneficiar uma vez que pode ocorrer uma corrida por mercadoria, e eles seriam esses substitutos como uma opção que já está à disposição, a relação já existe, então são os que estão mais alinhados para uma possível substituição."
Ao mesmo tempo, o trader chama atenção para o fato de que se a demanda não diminui, mas a interrupção da exportação brasileira permanece, "passa-se a pagar mais para o produto, então esses países vão ter uma agregação de valor".

Medidas para voltar à exportação
Sobre quais medidas sanitárias o Brasil precisaria desenvolver para retomar a exportação, Carneiro diz que pelo fato de os casos terem sido atípicos, já é um grande passo, "porque com isso identificado, a princípio, tratam-se de casos isolados".

O segundo passo seria "trazer o máximo de documentação possível para poder demonstrar que os casos são isolados e que a carne é de boa qualidade no geral".

"Esses frigoríficos não vão parar de abater […] na prática não estão vendendo para China, mas ainda estão em operação, então dá para analisar o produto e identificar se o animal tem ou não [a doença] enquanto ele está vivo, é só ir nas fazenda, fazer as testagens, e demonstrar que foram casos individuais."
Indagado se a Organização Mundial da Saúde Animal (OIE, na sigla em inglês), poderia vir a modificar o status brasileiro de país livre de BSE, Carneiro considera que não, uma vez que é "muito clara a regra que para haver a desconstituição de uma zona livre precisa acontecer caso típico, que até o momento, não foi o identificado no Brasil".

Flexibilização das inspeções sanitárias
O Brasil demorou décadas para obter status de país livre de BSE e de outras doenças como a febre aftosa. Todo esse esforço se dá a partir da inspeção através do mapa de risco em cada frigorífico brasileiro.

Porém, recentemente, houve mudanças no sistema de inspeção do país, que passará a ser menos centrado no Estado. Se do seu ponto de vista o analista acha que tal fato seria um retrocesso, Carneiro diz que "a resposta é complicada porque resta saber como vai ser o operacional terceirizado".

"Uma vez que esse operacional seja constituído por técnicos, por pessoas que tenham conhecimento e ciência a respeito do que se fazer para cuidar, tratar, fiscalizar toda a cadeia animal brasileira, vai ser benéfico, vai ser útil. Agora, se a equipe não for preparada, fica mais difícil."
O trader salienta que a ideia da terceirização é desafogar o serviço público do mapa de risco, e que se esse objetivo for atingido, as mudanças são válidas.

A China é a maior importadora de carne bovina brasileira. De janeiro a julho deste ano, o Brasil embarcou mais de 500 mil toneladas de carne para o país asiático, o que apresenta 38% das importações totais de Pequim, segundo dados da alfândega chinesa citados pela Folha de São Paulo.

Por Por Ana Livia Esteves, Yasmin Scali, Yasmin Scali