Militares e policiais ignoram atiçamento de Bolsonaro e passam quase despercebidos em atos pelo país

Militares e policiais ignoram atiçamento de Bolsonaro e passam quase despercebidos em atos pelo país

20:24 - Participação de fardados havia acendido alerta de governos estaduais para eventuais episódios de indisciplina

Monitorada por governos estaduais, que temiam atos de indisciplina nas tropas, a presença de militares e policiais nas manifestações bolsonaristas neste 7 de Setembro foi tímida, com a participação de membros da reserva e sem registro de confrontos.

Nas últimas semanas, ações em São Paulo, no Distrito Federal, em Pernambuco, no Ceará, no Pará, em Mato Grosso e em Santa Catarina utilizaram instrumentos jurídicos variados de monitoramento, fiscalização e controle das forças policiais dos estados.

O Código Penal Militar prevê para o crime de incitação à indisciplina, por exemplo, pena de 2 a 4 anos de prisão. Para o crime de conspiração estão previstos de 3 a 5 anos, e motim, de 4 a 8 anos de restrição de liberdade.

Nesta terça-feira (7), a presença dos policiais militares ficou restrita à segurança dos atos. Na avenida Paulista, apesar da estimativa de 4.000 policiais no local, nem todos os manifestantes passaram por revista.

Em uma rua paralela que dá acesso à região do Masp, dois PMs faziam a abordagem do lado ímpar da rua, mas ignoravam quem passava por uma calçada ao lado, que também dava acesso à avenida. A Folha presenciou ao menos três manifestantes que, mesmo com bolsas, entraram por essa passagem nada secreta.

Um manifestante vestido com roupas com símbolo da Aeronáutica e com os dizeres “veterano” também passou pelos policiais sem mostrar sua mochila, mesmo sem utilizar essa calçada alternativa.

Aqueles que não usaram a calçada paralela ou não tinham roupas ligadas às forças de segurança tinham as bolsas revistadas pelos PMs. Em geral, os policiais recebiam de volta sorrisos e palavras de carinho. Apenas uma manifestante, com um cachorro à tiracolo, reclamou de abrir a bolsa tão pequena quanto uma carteira.

A reportagem presenciou um advogado, que se identificou apenas como Marcelo, dizendo que tinha percebido alguém armado no meio do público. Ele informou a três PMs que esbarrou no homem que tinha um volume na cintura e, pela posição, suspeitava ser uma arma. Os PMs ouviram e, após o advogado ir embora, continuaram no mesmo lugar.

Ao final do ato, manifestantes posaram para fotos ao lado de militares que estavam à serviço. Simpatizantes bateram palmas, agradeceram ao trabalho e também xingaram o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), ex-aliado e hoje adversário de Bolsonaro.

A reportagem também registrou um oficial do Exército fardado que caminhava nos arredores da Paulista. Ele disse que estava no local a trabalho e que outros integrantes da inteligência também atuavam ali à paisana.

A manifestação de apoio ao ato bolsonarista na capital paulista, além de ataques a Doria, motivaram o governador a afastar o coronel da PM paulista Aleksander Lacerda. Ele comandava cerca de 5.000 pessoas de sete batalhões da região de Sorocaba, compreendendo 78 municípios.

Em Salvador e no Rio de Janeiro, os atos tiveram participação de policiais da reserva e pelo uso de símbolos associados a polícias como boinas do fardamento policial.

No Rio, o destaque foi a participação do PM da reserva Fabrício Queiroz, apontado como operador financeiro do esquema de “rachadinha” no gabinete do senador Flávio Bolsonaro (Patriota-RJ) quando o filho do presidente era deputado estadual.

Queiroz publicou foto em apoio às manifestações com teor golpista convocadas por Bolsonaro e foi recebido com festa por apoiadores do presidente no protesto em Copacabana.

No mesmo local, dois homens identificados com camisetas da brigada de infantaria paraquedista, vestindo boinas vermelhas e calças camufladas, circulavam entre os manifestantes com bandeiras do Brasil nos ombros.

Em Salvador, o ato foi encerrado com uma homenagem ao soldado Wesley Soares, morto em março deste ano no Farol da Barra, mesma região dos atos realizados nesta terça-feira.

Na ocasião, o soldado passou quatro horas dando tiros para o alto, gritando palavras de ordem, e foi baleado após atirar com um fuzil contra policiais que negociavam sua rendição. Desde então, ele tem sido tratado como uma espécie de mártir por grupos bolsonaristas.

Também participaram das manifestações policiais da reserva como o deputado estadual Capitão Alden (PSL) e o coronel da reserva Humberto Sturaro, potencial candidato em 2022 no campo bolsonarista. Esse foi um dos episódios de tensão registrados na Bahia, que registrou motins da PM em 2001, 2012 e 2014.

Em Fortaleza, o deputado federal Capitão Wagner (Podemos-CE), que ganhou notoriedade após liderar um motim de policiais em 2012, também participou dos atos a favor do presidente.

Em Brasília, após tentarem furar a barreira policial que impedia o acesso à praça dos Três Poderes, alguns manifestantes passaram a fazer uma oração pelos fardados.

Na noite de segunda-feira (6), apoiadores de Bolsonaro conseguiram passar pelo bloqueio da Polícia Militar na Esplanada dos Ministérios, que permitiu que carros descessem em direção ao STF (Supremo Tribunal Federal).

Após romperem o bloqueio, caminhões e centenas de manifestantes avançaram até a frente do Palácio do Itamaraty, parando em um bloqueio a poucos metros do Congresso.

Uma fonte da Secretaria de Segurança Pública do DF disse à Folha que o episódio está sendo tratado pelo governo local como invasão de dois bloqueios na Esplanada. De acordo com o relato, não houve nenhuma negociação com a PM.

A Feneme (Federação Nacional de Entidades de Oficiais Militares Estaduais) divulgou nota interna aos seus associados dizendo que "a PM deu um show em todo Brasil" e "fez o que tinha que fazer: cumprir a lei sem cor partidária ou ideologias".

A organização, que reúne 51 associações e 75 mil filiados pelo país, escreveu que os policiais "agiram como deveriam ter agido e se esperava, como aliás havíamos (Feneme) previsto junto à mídia nacional, inclusive", se referindo a uma matéria publicada pela Folha.

O comunicado foi assinado pelo presidente da organização, o coronel da reserva Marlon Teza. Segundo a nota, o ato "frustrou muitos que pregavam a desobediência e outras atitudes da nossa gloriosa Polícia Militar. Foi mostrado que somos sérios e cumpridores do dever legal".