Crise hídrica: ministro de Minas e Energia diz que problema não acaba este ano

Crise hídrica: ministro de Minas e Energia diz que problema não acaba este ano

04:30 - Ministro de Minas e Energia diz que discute situação com o presidente desde outubro do ano passado

No oitavo andar do Ministério de Minas e Energia (MME), o ar-condicionado está desligado e várias luzes estão apagadas. É o retrato de uma crise que se desenha desde o ano passado e que faz com que o ministro Bento Albuquerque precise responder diariamente a pergunta: vinte anos depois, o Brasil voltará a enfrentar racionamento de energia? A resposta é “hoje” não, mas com a ressalva de que “o monitoramento é permanente”.

Albuquerque diz que o presidente Jair Bolsonaro foi informado do risco de crise hídrica desde outubro do ano passado, quando fez uma apresentação em Power Point junto com o diretor-geral da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), André Pepitone, e com Rodrigo Limp, ex-secretário de Energia do MME e atual presidente da Eletrobras.

Segundo o ministro, partiu do presidente a sugestão de criar uma campanha para incentivar a redução do consumo. A previsão é gastar R$ 120 milhões em comerciais na televisão, rádio e internet.

Aos críticos que afirmam que o governo deveria ter atuado com maior prontidão para responder aos sinais de crise, ele ressalta que é fácil falar depois que algo aconteceu. É recorrente entre os especialistas a avaliação de que o governo deveria ter sido mais ágil para adotar medidas de incentivo à redução do consumo e para poupar os reservatórios das hidrelétricas.

— É o que nós chamamos de comentarista de videotape, que comenta depois que aconteceu. Depois que aconteceu, é mais fácil dizer. Tem que ver as medidas que foram tomadas naqueles cenários. Eu acredito que as medidas que tomamos eram as medidas cabíveis naquele momento — afirma, em entrevista ao GLOBO.

‘Não escondemos nada’
Mas especialistas e governo têm ao menos um ponto em comum: a avaliação de que a crise hídrica não vai ter um ponto final em 2021. O nível dos reservatórios baixará ainda mais até dezembro, quando começa o período úmido, que segue até abril.

Dados do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) apontam que grande parte das represas do Sudeste e do Centro-Oeste chegará ao fim do ano com menos de 10% de água.

Dificilmente haverá chuva suficiente para fazer subir o nível de um ano para o outro, até porque o solo está seco — o que faz com que seja necessário mais água para encher uma barragem.

— Evidentemente, nós não estamos preocupados só com 2021. Mas também com 2022, 2023, 2024. Porque os nossos reservatórios estão em níveis baixos e ficarão ainda mais baixos até o fim do ano. As coisas não vão se resolver em dezembro, muito menos em abril de 2022. É lógico que o nosso foco agora é prover a oferta necessária para que a gente passe sem maiores problemas por essa fase até novembro, quando o período úmido começa. Mas nós temos que fazer um trabalho de médio prazo para que possamos ter condições melhores nos anos vindouros — afirma.

A bacia do Rio São Francisco é um exemplo da dificuldade de um sistema de armazenamento de água se recuperar de uma grave crise hídrica. O lago de Sobradinho, na Bahia, chegou a ficar com 1% de água em 2015.

Só voltou a ter 90% da capacidade em maio de 2020, após um longo processo de recuperação, de chuvas acima da média, e de um conjunto de medidas para fazer o nível da água aumentar. As usinas do Velho Chico agora estão sendo fundamentais para transmitir energia para o Sudeste.

Albuquerque afirma que setembro vai ser decisivo. Nas próximas semanas, até outubro, o governo irá avaliar o impacto das medidas tomadas no fim de agosto.

Foi anunciada a criação da bandeira de "escassez hídrica", que representa um adicional de R$ 14,20 a cada 100 quilowatts-hora (kWh) consumidos; um programa para incentivar a redução do consumo de clientes residenciais e de pequenos comércios (atendidos por distribuidoras); e uma medida para grandes empresas gastarem menos energia nos horários de pico (no meio da tarde).

— O mês de setembro se caracteriza de maior importância, porque lançamos os programas. Se a demanda não reduzir, ou se o programa de resposta da demanda não corresponder à expectativa de reduzir o consumo na ponta (pico), vamos ter que trabalhar na oferta, na ampliação da geração — explica.

Os meses de outubro e novembro são críticos porque marcam o fim do período seco. Por isso, o que ocorrer em setembro vai ser determinante. O ministro não descarta um novo reajuste na bandeira tarifária:

— Esse é o cenário de hoje. Dentro do cenário de hoje, vendo o que ocorreu de maio até julho, a bandeira de escassez hídrica considera isso.

Discreto e ministro de uma área técnica, que costuma ter pouca exposição, Albuquerque foi duas vezes à televisão em rede nacional num período de dois meses. Ao fazer um apelo para as pessoas reduzirem o consumo, pediu o uso de chuveiros elétricos e ferros de passar fora do horário de pico, que é no meio da tarde. O risco de muito consumo no horário de pico é o sistema não ter potência suficiente para atender à demanda e ocorrer um apagão.

— Algumas pessoas me perguntam até de forma mais direta, se o governo está escondendo alguma coisa. Não estamos escondendo absolutamente nada. Estamos conduzindo um processo desafiador, mas com muito critério, método e processo — diz, acrescentando que já percebe um engajamento maior pela redução do consumo.

Comitê com 40 integrantes
No andar de cima, a principal sala de reuniões do MME recebe mais de uma vez por semana autoridades e técnicos do setor elétrico para tomar medidas que garantam o fornecimento de eletricidade do país, algumas delas com reflexo direto nas contas de luz. Mais de 40 pessoas participam das reuniões do Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE) e da câmara de medidas urgentes contra a crise (chamada de Creg). É o resultado dessas reuniões que faz o ministro não falar em racionamento neste momento.

— Hoje, os nossos cenários não apontam para necessidade de racionamento. Hoje. Os nossos cenários não são feitos em termos de “eu acho”. São informações meteorológicas, questões de demanda, tudo cumprindo metodologia e modelos computacionais. Mas esse monitoramento é permanente, é um processo que vamos avaliando — afirmou.

O Brasil passa hoje pela pior crise hídrica em 91 anos. O nível dos reservatórios das usinas hidrelétricas das regiões Sudeste e Centro-Oeste do país é o mais baixo para esta época do ano desde o início dos registros públicos do Operador Nacional do Setor (ONS), em 2000.

A comparação com a crise do início do século é inevitável. Da mesma forma que em 2001, a crise está concentrada na região que é a “caixa d’água” do setor elétrico. Mas há diferenças importantes, como a possibilidade de maior transferência de energia do Nordeste e Norte para outras partes do país, além do uso massivo de termelétricas — cujo impacto é sentido diretamente nas contas de luz.