Tomada do poder pelo Talibã é oportunidade para China, Rússia e Turquia, diz chefe da diplomacia da UE

Tomada do poder pelo Talibã é oportunidade para China, Rússia e Turquia, diz chefe da diplomacia da UE

18:04 - Em discurso no Parlamento Europeu, Josep Borrell diz se tratar do 'acontecimento geopolítico mais relevante' desde a crise da Crimeia, em 2014

A tomada do poder pelo Talibã no Afeganistão representa "uma nova oportunidade" para China, Rússia e Turquia de ampliar sua influência na Ásia Central, advertiu o chefe da diplomacia da União Europeia (UE), Josep Borrell, em um discurso no Parlamento Europeu nesta quinta-feira.

Borrell, que reafirmou a necessidade de que a Europa "discuta com os talibãs" para conseguir conter a crise humanitária no país, disse ainda se tratar do "acontecimento geopolítico mais relevante" desde que a Rússia anexou a Península da Crimeia, em 2014.

— A situação no Afeganistão terá impacto em longo prazo para a segurança regional e internacional. Este é o acontecimento geopolítico mais importante desde a anexação da Crimeia pela Rússia há sete anos — destacou Borrell diante dos eurodeputados. — Temos que nos comprometer de forma ativa com nossos sócios regionais e internacionais. A Ásia Central se transformará em uma região ainda mais estratégica para nós.

Borrell também pediu o fortalecimento das relações diplomáticas europeias com Irã, Paquistão e Índia.

— A UE terá que trabalhar em estreita colaboração com os Estados Unidos e intensificar os esforços diplomáticos para conseguir um consenso com seus aliados, com o objetivo de estabelecer uma abordagem comum eficaz contra o regime talibã — prosseguiu, lembrando que a perspectiva de ver Bruxelas "conversar com os talibãs" provocou comoção. — Mas devemos entender que abrir canais de comunicação não significa de modo algum o reconhecimento político internacional dos talibãs. Precisamos criar canais de comunicação com os que detêm o poder.

Em Londres, o secretário de Defesa britânico, Ben Wallace, disse que o destino do Afeganistão após uma guerra de 20 anos liderada pelos Estados Unidos e seus aliados da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) significa que a determinação do Ocidente agora é vista como enfraquecida por adversários como a Rússia.

— Isso é algo com que todos devemos nos preocupar: se o Ocidente é visto como não tendo determinação e se fragmenta, então nossos adversários como a Rússia acham isso encorajador — disse Wallace à rádio LBC.

Ele disse temer que o retorno do Talibã e o vácuo deixado pela retirada caótica dos militares dos países ocidentais permitam que terroristas da al-Qaeda recuperem sua posição no Afeganistão.

— Em todo o mundo, os islamistas verão o que estamos vendo como uma vitória e isso inspirará outros terroristas.

A China, por sua vez, pediu que a comunidade internacional não pressione ainda mais o Afeganistão. Em teleconferência com o chanceler britânico, Dominic Raab, o ministro das Relações Exteriores chinês, Wang Yi, afirmou que o mundo deve orientar e apoiar o país durante a transição para um novo governo e não deve usar o Afeganistão como campo de batalha geopolítico.

Na ligação com Raab, Wang também afirmou que é necessário "respeitar a independência e a vontade do povo afegão".

— A comunidade internacional deve encorajá-lo e orientá-lo em uma direção positiva, em vez de exercer mais pressão, o que contribuirá para estabilizar a situação — disse.

A crise afegã também foi discutida nesta quinta pelo presidente russo, Vladimir Putin, em telefonemas com o presidente francês Emmanuel Macron e o premier italiano Mario Draghi. Nas duas conversas, segundo os governos da França e da Itália, foi discutida a necessidade de manter a estabilidade do país centro-asiático e garantir a segurança da população civil.

Já o secretário-geral da ONU, António Guterres, disse que o desejo do Talibã de ganhar reconhecimento internacional é o ponto principal em que os demais países podem se apoiar para pressionar o grupo a respeitar os direitos humanos.

— É muito importante que a comunidade internacional esteja unida, que todos os membros do Conselho de Segurança estejam unidos, para usar o único peso que existe, que é o interesse do Talibã de obter a legitimidade do reconhecimento — disse Guterres, acrescentando que está disposto a falar com o grupo assim que "ficar claro com quem e com que objetivo".

Refugiados
Ainda em sua intervenção no Parlamento Europeu, o chefe da diplomacia do bloco europeu descartou, em curto prazo, uma chegada massiva de refugiados do Afeganistão aos países europeus, mas disse acreditar que pode ocorrer um aumento nos próximos meses se a situação política e econômica no país continuar se deteriorando sob o novo regime.

Nesse caso, uma diretiva de 2001 poderia ser invocada: adotada na esteira do êxodo causado pelas guerras dos Bálcãs, ela permite a oferta de proteção temporária às pessoas que são forçadas a deixar seu país ou região de origem ou que foram retiradas para garantir sua segurança.

Esta regra excepcional nunca foi usada. Mas no Parlamento Europeu já existem vozes a favor da sua invocação. A proteção, que em princípio duraria um ano, pode ser aprovada por maioria qualificada, o que permitiria contornar o previsível voto contrário de países como a Hungria ou a Polônia.