Commodities: USDA surpreende, e milho e trigo têm forte alta em Chicago

Commodities: USDA surpreende, e milho e trigo têm forte alta em Chicago

Departamento de Agricultura americano reduziu suas estimativas para a produção global de grãos acima do esperado; soja também subiu na sessão

Em seu relatório mensal de oferta e demanda de commodities agrícolas, aguardado com expectativa pelo mercado, o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) fez cortes expressivos nas previsões de produção de milho e trigo na safra 2021/22. Os dados puxaram as altas de ambos os cereais na bolsa de Chicago.

O contrato do milho para dezembro, o mais negociado no momento, avançou 2,5% (14 centavos de dólar), a US$ 5,7325 o bushel. Mais cedo, o USDA informou que a safra americana 2021/22, fortemente afetada pela seca, deverá ser de 374,7 milhões de toneladas, abaixo das 385,2 milhões de toneladas previstas em julho. A projeção de analistas consultados pelo jornal “The Wall Street Journal” era de 379,7 milhões de toneladas.

“O corte era esperado, mas foi muito mais robusto do que a expectativa, uma queda de 11 milhões de toneladas, o que representou uma redução grande na previsão de produtividade”, diz Cristiano Palavro, analista de mercado da Pátria Agronegócios. Os contratos chegaram a subir mais de 5% durante a sessão, mas se acomodaram perto do encerramento.

“O USDA mostrou que o tempo seco e quente que tem predominado em parte do oeste do cinturão produtor americano (especialmente na Dakota do Norte, Dakota do Sul e Minnesota) realmente causou estragos. Se o clima não colaborar até o fim de agosto, durante a granação do milho, devem ocorrer novos cortes no relatório de setembro”, avalia Daniele Siqueira, da AgRural.

Para o Brasil, a estimativa do USDA para 2021/22 segue em 118 milhões de toneladas, com exportações de 43 milhões de toneladas. No ciclo 2020/21, o departamento reduziu sua projeção para 87 milhões de toneladas (a anterior era de 93 milhões de toneladas), e a previsão de exportações recuou em 5 milhões de toneladas, para 23 milhões de toneladas.

“No milho, destaque também para a safra que a Ucrânia começa a colher em setembro, e cuja estimativa de produção foi ajustada para cima [de 37,5 milhões para 39 milhões de toneladas].
Com a Argentina e a Ucrânia exportando bem, isso tira dos EUA parte do peso de ter que cobrir o vácuo deixado no mercado internacional pela quebra da safrinha 2021 no Brasil”, acrescentou Daniele.

A soja bem que ensaiou uma alta mais robusta, mas terminou o dia perto da estabilidade. Os lotes para novembro, que são os mais negociados no momento, avançaram 0,07% (1 centavo de dólar) a US$ 13,410 o bushel. A expectativa dos operadores também estava em torno do USDA, mas, no caso da soja, o documento foi considerado “neutro”.

Segundo o levantamento do USDA, a produção americana deverá chegar a 118,1 milhões de toneladas, 1,8 milhão a menos que o previsto no mês passado, mas ainda 4,9% acima do volume do ciclo 2020/21. Para as demais principais peças do tabuleiro mundial da soja, como o Brasil, não houve alterações no quadro.

“No caso da soja, a produtividade ainda está bem em aberto, porque o enchimento de grãos, que é a fase decisiva da produtividade, acontece em agosto. Além disso, a soja é mais resistente ao clima adverso do que o milho. Por enquanto, o corte feito pelo USDA foi pequeno e em linha com o esperado pelo mercado. A definição da safra ainda está por acontecer”, acrescenta Daniele Siqueira.

“No momento da divulgação, o relatório gerou um otimismo inicial que sustentou uma alta forte. O motivo é que o USDA costuma ser cauteloso nas estimativas americanas de soja neste mês, mas fez um corte de 1,8 milhão de toneladas – o que não é muito robusto, mas surpreende”, afirma Palavro, da Pátria Agronegócios.

Mas, no decorrer do pregão, os investidores se concentraram em outros dados, como a redução das importações da China tanto em 2020/21 quanto em 2021/22. “Para a demanda, o relatório foi ruim. Houve aumento nos estoques e também corte de 1 milhão de toneladas nas vendas para a China pelo terceiro mês seguido”, prossegue.

A maior valorização do dia foi a do trigo. O vencimento do cereal para setembro, o mais negociado, subiu 3,65% (26,5 centavos de dólar), a US$ 7,5350 o bushel. Na segunda posição, para dezembro, a alta foi de 3,45% (25,50 centavos de dólar), a US$ 7,6475 o bushel.

A seca e o tempo muito quente em algumas regiões do Hemisfério Norte fizeram o USDA reduzir suas estimativas para a produção mundial de trigo em 2021/22, safra que começou em junho. O corte foi de 15,5 milhões de toneladas, e a nova indicação é de 776,91 milhões de toneladas. O maior reajuste foi na Rússia, maior exportador mundial, cuja produção foi estimada agora em 72,5 milhões de toneladas, abaixo das 85 milhões do mês passado.

Como consequência, o USDA reduziu as projeções para os estoques finais da temporada 2021/22, agora calculadas em 279,06 milhões de toneladas; no mês passado, a estimativa foi de 291,68 milhões. Esse corte foi bem superior às estimativas de analistas ouvidos pelo “The Wall Street Journal”, que em média apontavam para estoques em 290 milhões de toneladas. A relação entre estoque e demanda ficou em 35,4%.

Para setembro, a expectativa do mercado é de consolidação dos números de produtividade da safra americana, especialmente os de soja. “O relatório de agosto ainda não capta todos os efeitos do clima sobre as lavouras, e logo depois disso o foco está para o início da safra 2021/22 do Brasil. Há grande curiosidade no mercado sobre um eventual atraso no plantio da soja e possíveis aumentos na área de milho verão, dada a escassez na oferta de milho que enfrentamos devido à quebra da safrinha”, completa Daniele Siqueira.

Por Rikardy Tooge, Fernanda Pressinott e Fernando Lopes