Em conferência com 500 partidos do mundo, Xi pede oposição a 'bloqueio tecnológico' dos EUA

Em conferência com 500 partidos do mundo, Xi pede oposição a 'bloqueio tecnológico' dos EUA

18:11 - Líder chinês diz que não existe um 'modelo único' a ser seguido, e que países precisam fazer 'o que é melhor para eles'; representante americano para região diz ser possível 'coexistir' com a China, mas aponta grande desafio

O presidente chinês, Xi Jinping, declarou a líderes de partidos políticos de mais de 160 países que eles deveriam buscar seus próprios modelos de desenvolvimento e, fazendo uma menção velada aos EUA, defendeu que se oponham a nações que levem adiante políticas de “bloqueios tecnológicos”. A reunião fez parte das celebrações do centenário do Partido Comunista da China.

— Acredito que qualquer manobra política que ameace o desenvolvimento de outros países e debilite os meios de sobrevivência de seus povos não terá o apoio popular e é, como um todo, algo fútil — afirmou Xi na abertura da reunião, que contou com a participação de chefes de Estado, de governo, parlamentares e lideranças de 500 partidos políticos. — Precisamos nos opor, de maneira conjunta, a qualquer um que defenda bloqueios tecnológicos, divisões tecnológicas e traga divisões ao desenvolvimento.

A fala soou como resposta de Pequim às políticas adotadas pela Casa Branca, sob Trump e agora sob Biden, que apontaram a China como o maior rival dos EUA no planeta, e estabeleceram como objetivo a contenção do crescimento da potência asiática. Um dos instrumentos dessa política são as restrições à venda de tecnologia à China e ao investimento de americanos em empresas chinesas estratégicas.

O governo Biden vem se aproximando de antigos aliados na Ásia e Europa, buscando reconstruir a influência americana e formar uma “aliança” de nações para se opor à China. Um exemplo dessa posição foi a retomada do chamado Quarteto, formado por Japão, EUA, Austrália e Índia, um grupo que se comprometeu, dentre outros temas, com a manutenção da “segurança e prosperidade” na Ásia e Pacífico.

No discurso, Xi Jinping tentou associar a posição dos EUA no cenário global ao unilateralismo e à busca por supremacia — ele chegou a mencionar a política de “EUA em primeiro lugar”, marca do governo Trump, sugerindo que essa postura acaba enfraquecendo, e não fortalecendo, a autonomia dos países.

Há anos o governo chinês critica ações do governo americano contra suas empresas de tecnologia, em especial companhias relacionadas ao desenvolvimento da tecnologia 5G, acusando Washington de exercer “competição desleal” e afastar potenciais rivais.

Uma dessas empresas, a Huawei, chegou a sofrer sanções, sendo impedida de comercializar seus produtos em solo americano e perdendo acesso a itens cruciais, como chips, que tivessem tecnologia americana. Sob Biden, foram adotadas políticas para o desenvolvimento interno de itens como chips e semicondutores, para reduzir ou até eliminar a dependência da produção chinesa, mas o proceso ainda está em seus primeiros passos.

Em mais uma menção indireta aos EUA, agora sobre a promoção global da democracia por Washington, Xi Jinping declarou que não há um único modelo a ser seguido por todos.

— O caminho para a felicidade pode ser diferente, e as pessoas de diferentes países devem escolher seus próprios caminhos para o desenvolvimento, seus sistemas e modelos — afirmou. — Da mesma forma, a democracia é também um direito dos povos de vários países, e não é monopólio de um pequeno grupo de nações. Se um país é ou não democrático, isso deve ser decidido pelo povo daquele país, não por um grupo pequeno de pessoas.

Por fim, fez mais um contraponto aos EUA, reforçando o papel da China como uma potência global e defensora do multilateralismo.

— Quero reiterar que a China sempre será um integrante da família de países em desenvolvimento. Vamos continuar a fazer o possível para elevar a representatividade e a voz das nações em desenvolvimento no sistema de governança global — concluiu.

Estabilidade
Ainda nesta terça-feira, em um evento em Washington, o coordenador da Casa Branca para a região Indo-Pacífica, hoje central na diplomacia americana, apontou que é possível uma coexistência pacífica entre os EUA e a China, mas que o desafio é enorme.

Para Kurt Campbell, o governo americano quer apresentar “oportunidades” à China, mas não quer permitir o que ele chamou de “passos contrários à manutenção da paz e estabilidade”. Ele mencionou temas sensíveis das relações bilaterais, como as denúncias de violações de direitos humanos na província chinesa de Xinjiang e em Hong Kong, além da situação de segurança no Estreito de Taiwan e no Mar do Sul da China.

— Podem ocorrer períodos de incerteza e mesmo períodos ocasionais de tensões elevadas — apontou Campbell.

Ele não quis confirmar se Biden e Xi se encontrarão durante a reunião de líderes do G-20, prevista para outubro, em Roma, mas disse esperar que os dois tenham algum nível de engajamento em breve. Os líderes chinês e americano já falaram uma vez ao telefone.