Síria entra no 11º ano da guerra sem acordo de paz e fatiada entre potências estrangeiras

Síria entra no 11º ano da guerra sem acordo de paz e fatiada entre potências estrangeiras

18:44 - Mais de 387 mil pessoas foram mortas desde o início do conflito e cerca de 5,6 milhões estão refugiadas em outros países

Mais de 5,6 milhões de refugiados, 6,7 milhões de deslocados, 387 mil mortos, 200 mil desaparecidos e US$ 1,2 trilhão em perdas econômicas são o custo da guerra na Síria até o momento, de acordo com dados do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur), do Observatório Sírio dos Direitos Humanos (EBC) e da ONG Visão Mundial. Desde 2011, o regime de Bashar al-Assad e grupos rebeldes se enfrentam violentamente no território sírio, na maior parte do tempo amparados por potências estrangeiras. Um cessar-fogo está em vigor desde o ano passado, mas o fim do confronto ainda é uma realidade distante, afirmam especialistas ouvidos pelo GLOBO.

— Em várias partes da Síria já não há mais conflito armado, mas, como também não há um acordo político entre as partes beligerantes, a situação está bloqueada — afirma Fabrizio Carboni, diretor regional do Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) para o Oriente Médio. — Em Homs, que foi uma dos epicentros da guerra, os ataques pararam há quatro ou cinco anos, mas, toda vez que vou para lá, tenho a sensação de que os conflitos terminaram ontem, porque nada mudou. Os bairros antigos continuam totalmente destruídos.

Estimativas da organização Human Rights Watch (HRW) apontam que mais de 80% dos 16,91 milhões de habitantes da Síria hoje vivem abaixo da linha da pobreza, com 60% das crianças passando fome diariamente, segundo a ONG britânica Save the Children. O preço da cesta básica é 33 vezes mais caro do que a média dos cinco anos anteriores à guerra, de acordo com a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO).

http://oglobo.globo.com/videos/v/manifestacao-em-idlib-marca-os-dez-anos...

Em 2019, o próprio ministro da Eletricidade afirmou que 70% das subestações da rede elétrica e linhas de abastecimento de energia estavam fora de serviço.

— A economia da Síria foi devastada por anos de guerra e décadas de corrupção desenfreada — afirma Dareen Khalifa, analista sênior do International Crisis Group. — Infraestrutura vital e bairros urbanos inteiros foram destruídos como parte de uma estratégia de guerra deliberada, aplicada por Damasco, bem como por seus aliados russos, para esmagar oponentes. Mas sanções impostas pelos EUA também estão impedindo que outros países invistam na Síria, o que alimenta a miséria dos mais vulneráveis, que são os sírios comuns, sem atingir nenhum objetivo político declarado.

Hoje, a Síria compreende quatro zonas distintas de influência, cada uma apoiada por uma potência estrangeira. Grande parte do país, incluindo as principais cidades, são controladas pelo regime de Assad, com apoio da Rússia e do Irã. Os curdos, apoiados pelos EUA e aliados, controlam o Nordeste, onde estão concentradas as maiores reservas de recursos naturais da Síria, especialmente gás e petróleo. Rebeldes apoiados pela Turquia controlam uma área a oeste de Aleppo, mais a faixa de fronteira que vai de Tel Abyad até Ras al-Ayn, no Nordeste. O Noroeste é controlado por um grupo jihadista chamado Hayet Tahrir al Sham (HTS, ou Organização pela Libertação do Levante).

— Há um cessar-fogo de fato em todo o país desde março de 2020, quando a Turquia interveio militarmente para impedir uma ofensiva de um ano apoiada pela Rússia em Idlib, no Noroeste da Síria. No entanto, e apesar da cessação das hostilidades ao longo do ano passado, o status quo é muito frágil e os cessar-fogo são violados diariamente por quase todas as partes — afirma Khalifa.

Para Fabrizio Carboni, além das perdas materiais, que são evidentes, o conflito também causa danos invisíveis aos sobreviventes, sobretudo psicológicos. Em um país onde mais da metade da população tem menos de 25 anos, uma pesquisa realizada pelo CICV com 1.400 jovens sírios revela que 54% disseram sofrer de distúrbios do sono, 73% de ansiedade, 56% de depressão, 45% de solidão e 62% de frustração e angústia.

— Depois de uma década de conflito, em meio a uma pandemia global e enfrentando um fluxo constante de novas crises, a Síria saiu da primeira página — disse o secretário-geral da ONU, António Guterres, em uma entrevista coletiva na última quarta-feira. — E ainda assim a situação continua sendo um pesadelo vivo.