Frete China-Brasil dispara e deve encarecer produtos importados

Frete China-Brasil dispara e deve encarecer produtos importados

“Tempestade perfeita’” na cadeia logística faz preços chegarem a nível histórico

O frete marítimo na rota China-Brasil disparou. O custo das importações já vinha em alta no último
trimestre e, nesta semana, atingiu um patamar considerado inédito de US$ 10 mil por TEU
(medida padrão usada para contêineres), segundo importadores e empresas de navegação.

“É um nível histórico, nunca tinha visto o frete alcançar esse valor”, afirmou Luigi Ferrini, vicepresidente sênior da Hapag-Lloyd no Brasil. Há um ano, o custo dessa mesma rota estava na
faixa dos US$ 2 mil por TEU.

O encarecimento dos fretes vem se acentuando desde outubro, com a retomada global da
economia e a maior procura pelos produtos chineses, afirma Rafael Dantas, diretor da
importadora Asia Shipping.

A disparada ocorre também em outras rotas partindo da China. As viagens da Ásia para Europa e
Estados Unidos atingiram valores acima da média, com mais de US$ 4 mil por TEU.

A escalada de preços é fruto, principalmente, dos problemas logísticos e do grande descompasso
entre oferta e demanda ocorrido ao longo do último ano - uma “tempestade perfeita para os fluxos
globais de contêineres”, segundo a Centronave, que representa os grupos globais de navegação
de longo curso no Brasil.

“Quando eclodiu a pandemia, muitas empresas deixaram de fazer pedidos, houve dezenas de
cancelamentos de viagens [de navios de carga]. Mas a demanda por produtos não caiu como
esperado. O gasto que iria para viagens foi para itens de casa, home office. O consumo local
aumentou no mundo todo, e aí faltaram produtos”, resume Ferrini.

No auge da pandemia brasileira, entre março e julho, foram canceladas 23 viagens de navios da
China. O número equivale a ao menos cinco semanas sem importações de contêineres do país.

Em meados do ano, ficou claro para as empresas que seria necessário retomar os pedidos. O
aumento, porém, coincidiu com a retomada na Europa e nos Estados Unidos, levando a uma
disputa acirrada por contêineres e embarcações. Hoje, praticamente todos os navios disponíveis
no mundo estão em uso, diz a Centronave. Resultado: os fretes dispararam e, mesmo passado o
Natal, continuam em alta.

A situação se agrava porque a pandemia também reduziu a eficiência na liberação das cargas em
portos, terminais e armazéns, que também sofreram com as medidas de isolamento social e o
reforço nos protocolos de vigilância sanitária.

Para tentar amenizar o gargalo, entre outubro e dezembro, as empresas de navegação
acrescentaram 14 “extra-loaders” (navios adicionais), que ampliaram em cerca de 14% a
capacidade na rota Xangai-Santos. O incremento, porém, não tem sido suficiente para atender à
demanda. Na semana do Natal, o frete registrava US$ 7.184 por TEU. Sete dias depois, já
chegava a US$ 8.173. Agora, armadores e importadores afirmam que os preços alcançaram a
marca dos US$ 10 mil.

A alta poderá afetar diversos setores que dependem de importações chinesas. É o caso, por
exemplo, da indústria de produtos elétricos e eletrônicos (principalmente os portáteis e de linha
marrom). As empresas de maior porte do setor, que trabalham com contratos anuais no transporte
marítimo, relataram reajustes de 90%, segundo a Associação Nacional de Fabricantes de
Produtos Eletroeletrônicos (Eletros). As menores, que fazem importações esporádicas, apontaram
uma alta de 200% no custo.

No caso das grandes varejistas de moda, que importam a maior parte de suas coleções de
inverno, o frete mais caro terá impacto direto, já que os pedidos para a temporada fria começam
agora. “É difícil segurar os embarques em virtude dos altos preços, porque é necessário que os
itens cheguem a tempo do inverno. Como 2020 foi um ano duro, também não será possível
segurar o repasse dos custos no preço final”, afirma Edmundo Lima, diretor-executivo da
Associação Brasileira do Varejo Têxtil (ABVTEX).

Para Dantas, da Asia Shipping, outro agravante é a concentração no transporte marítimo,
composto por grandes grupos globais. “Após anos de crise, as empresas passaram a dividir
operações, trocar informações sobre o mercado. Essa consolidação sem dúvidas contribui para
os preços mais altos”, avalia.

Outro especialista ressalta que, em outras regiões, como na Europa, a disparada dos fretes já é
motivo de questionamentos em órgãos de defesa da concorrência.

Ferrini rebate as críticas e diz que a concentração do setor se deu apenas devido à quebra de
algumas empresas, que ficaram em situação frágil após anos de crise e redução nas tarifas
aplicadas.

A Centronave diz que a disparada dos preços é fruto de uma combinação de fatores atípicos,
decorrentes da pandemia e destacou que a capacidade das companhias de ampliar a oferta, para
reduzir fretes, é nula: a ociosidade mundial da frota é de 1,5% (contra 10,6% há um ano). Além
disso, a associação diz que a alta de preços afeta apenas o mercado spot (com negociação
imediata) e estima que entre 40% e 50% das importações da China para o Brasil sejam regidas
por contratos anuais, com fretes mais estáveis.

No mercado, ainda há muita incerteza sobre como os preços se comportarão no médio prazo. A
Centronave acredita que o frete irá se normalizar ao longo de 2021. Para Ferrini, a perspectiva é
que siga alto por mais dois ou três meses. A Asia Shipping projeta que os preços caiam em
relação ao atual recorde, mas continuem acima dos US$ 4 mil por TEU.