'Se houver flexibilidades, têm que ser para todos', diz embaixador sobre impasse com Argentina

'Se houver flexibilidades, têm que ser para todos', diz embaixador sobre impasse com Argentina

08/05 - 19:11 - País vizinho quer proteger indústria interna em tratados com mercados fora do Mercosul, como Canadá e Coreia do Sul

BRASÍLIA - O governo brasileiro está disposto a negociar com a Argentina uma forma de permitir que os vizinhos participem dos acordos comerciais que estão em negociação entre o Mercosul e terceiros mercados, sem que as indústrias locais sejam prejudicadas. Porém, o Brasil dificilmente aceitará exceções que afetem negativamente as economias dos demais sócios do bloco e que beneficiem apenas os argentinos.

— Se houver flexibilidades, têm que ser para todos, e não só para a Argentina. Por isso, vamos analisar a questão com calma e vermos até onde os argentinos poderão avançar. Estamos dispostos a conversar com eles — disse ao GLOBO o secretário de relações bilaterais e regionais nas Américas do Itamaraty, Pedro Miguel da Costa e Silva.

O impasse criado pela Argentina em relação às negociações em curso com Coreia do Sul, Líbano, Canadá e Cingapura começou no fim de abril. O governo do presidente Alberto Fernández anunciou que não iria mais participar das conversas e que só iria manter os tratados já fechados, em 2019, com a União Europeia e o Efta (bloco europeu formado por Suíça, Noruega, Islândia e Liechtenstein).

A Argentina apresentou como justificativa para seu distanciamento de Brasil, Uruguai e Paraguai nas negociações a prioridade dada por Fernández à economia interna do país, agravada pela pandemia da Covid-19. Mas deixou claro que não será obstáculo para que os demais sócios prossigam com os diversos processos negociadores em curso e os que poderão surgir.

Menos de uma semana depois, a Argentina deixou a questão em aberto e admitiu avançar na agenda externa do bloco, desde que em ritmos diferentes. Isso significa, por exemplo, que a redução de alíquotas de importação ocorreria mais lentamente do que o processo de abertura de mercados dos demais integrantes do Mercosul. Os argentinos também sinalizaram que imporiam restrições para outros itens, como serviços e investimentos.

— A Argentina quer participar de tudo, mas com condições, flexibilidades e um tratamento diferente em alguns casos. Vamos ver se isso é factível, convincente e pode ser algo aceitável pelos parceiros do bloco e internacionais — afirmou Costa e Silva.

Alberto Fernández tem sido pressionado pelas indústrias nacionais a agir com cautela nas negociações de acordos de livre comércio. Os argentinos argumentam que a economia do país já estava bastante fragilizada antes mesmo da pandemia de coronavírus.

A Argentina é o quarto maior mercado de destino das exportações brasileiras e um importante comprador de produtos industrializados do Brasil. Nos quatro primeiros meses deste ano, as vendas para o mercado argentino somaram US$ 2,6 bilhões, valor 19% abaixo do que foi registrado no mesmo período de 2019.