Acusações de Moro contra Bolsonaro podem dificultar candidatura brasileira à OCDE

Acusações de Moro contra Bolsonaro podem dificultar candidatura brasileira à OCDE

Drago Kos, chefe da divisão anticorrupção da organização, pede investigação rigorosa do caso

Os planos do Brasil de ingressar na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) podem ter ficado mais distantes após as acusações feitas por Sergio Moro de que o presidente, Jair Bolsonaro, tentou interferir na Polícia Federal. Drago Kos, chefe do grupo de trabalho anticorrupção da entidade, pediu que as alegações do ex-ministro da Justiça sejam investigadas pelas autoridades brasileiras.

— Nossos estados membros são muito, muito rigorosos quando discutem adesões à OCDE. Por isso, espero que o Brasil use isso como uma oportunidade. Mas se seguirem outro caminho, nossos estados membros saberão como lidar com isso — afirmou Kos, em entrevista à Bloomberg, acrescentando que sua equipe é conhecida por ser a mais dura na avaliação de pedidos de ingresso. — Nós temos que ter absoluta certeza de que o Brasil não está retrocedendo.

Míriam Leitão:
O ingresso no seleto grupo de países ricos e desenvolvidos é desejo conhecido de Bolsonaro, feito que traria honra à sua gestão. Enquanto faz lobby com o presidente dos EUA, Donald Trump, em busca de apoio ao anseio brasileiro, autoridades trabalham duro para atender os padrões políticos e econômicos exigidos pela organização.

Kos disse ter ficado impressionado com o pedido de demissão de Moro, que ganhou fama por ter sido o juiz responsável pela Operação Lava-Jato, que desbaratou esquemas de corrupção e colocou empresários e políticos atrás das grades. No ano passado, os dois se encontratam em Brasília para discutir os esforços que o país realizava para atender aos padrões anticorrupção da OCDE.

Socorro a estados:
A saída abrupta de Moro manchou as credenciais anticorrupção de Bolsonaro, um dos pilares de seu governo. O caso deu início a uma tempestade política no país, já que a Polícia Federal é responsável por uma série de investigações com potencial para implicar a família do presidente, incluindo um caso sobre a disseminação de notícias falsas e outro sobre lavagem de dinheiro. A família nega qualquer irregularidade.

A OCDE está perguntando a autoridades brasileiras “o que está acontecendo”, disse Kos, informando que está marcada uma videoconferência em junho para discutir esta e outras questões relacionadas com a candidatura brasileira, submetida em 2017.

Reajuste:
Kos sugere que o Brasil deve investigar as acusações feitas por Moro para provar que continua comprometido com a luta contra a corrupção, como aconteceu na época da Operação Lava-Jato.

— Quando você vê uma pessoa como Moro deixando o Ministério da Justiça, você sabe que deve haver algo terrivelmente errado — afirmou Kos. — No Brasil eu conheci policiais, promotores e grandes especialistas muito qualificados para lidar com casos de corrupção. A questão agora é saber quão livres eles estarão para fazerem seu trabalho.