Bolsonaro eleva a tensão política e provoca fissuras no STF e entre militares

Bolsonaro eleva a tensão política e provoca fissuras no STF e entre militares

Ministro da Defesa divulga nota pedindo respeito entre Poderes e condenando violência em ato prestigiado pelo presidente domingo

Aelevação da tensão política a partir de gestos do presidente Jair Bolsonaro estáprovoc ando fissuras no Supremo Tribunal Federal e entre militares.
No domingo(3), o presidente esteve com apoiadores em manifestação que atacava a corte e o Congresso, entre outras bandeiras antidemocráticas. No ato, repórteres foram agredidos por participantes.
Empolgado com o protesto, Bolsonaro disse estar junto comas Forças Armadas `ao lado do povo` e afirmou que havia chegado `no limite`.
Entre os militares, a tensão provocada porBolsonaro obrigou oministroda Defesa, Fernando Azevedo, a emitir a segunda nota oficial em menos de um mês pa ra a fastar a idéia de que os fardados têm intenções golpistas.
O presidente estava decidido a desafiar o Supremo nesta segunda: queria renomear o chefe da Agência Brasileira de Inteligência, Alexandre Ramagem, como diretorgeral da Policia Federal.
O delegado tivera a posse suspensa por decisão do ministro Alexandre de Moraes, a passada. Ramagem e amigo da família Bolsonaro, e a PF investiga o dã em casos como o inquérito sobre disseminação de fake news.
O presidente acabou desistindo após uma operação que durouboa parteda madrugada, com telefonemase visitas de aliados e também de poli ticos não alinhados, como o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP).
Seu plano B, contudo, continha uma provocação ao Supremo. Ele designou para a PF um subordinado de Ramagem na Abin, Rolando Souza, e deu posse a ele no Palácio do Planalto. A primeira medida de Rolando foi iniciar o processo para substituir o chefe da PF no Rio, território da família Bolsonaro que o ex-minis tro Sérgio Moro disse estar na mira do presidente.
A decisão de Moraes, a despeito de a corte ter feito uma defesa unânime dele ante a acusaçãodopresidente deque sua decisão havia sido política, divide os ministros no STF.
O presidente do colegiado, Dias Toffolí, não foi consulta do sobre a q uestão e co nsidera que Moraes ultrapassou o sinal entre os Poderes. Para ele, houve a prevalência do chamado ativismo judicial na medida.
Nesta segunda, Marco Aurélio Mello vocalizou a preocupação dos ministros. Em ofício a Toffoli, defendeu que suspensõesde atosde outros Poderes sejam decididas pelo colegiado de 11 ministros, e não de forma monocrática.
`É uma medida para evitar o desgaste que estamos tendo agora`, afirma ele, referin do-se à decisão de Alexandre de Moraes. `Quando se invade área alheia, é sempre um problema seríssimo.` O guru da área digital de Bolsonaro, seu filho Carlos, vereador no Rio, passou o Réveillon passado com Ramagem.
Além disso, a PF tem co operação estreita com as autoridades do Rio que apuram ligações do gabinete do então deputado estadualFlávioBolsonaro, filho do presidente e hoje senador, com milícias.
O ex-ministro da Justiça Sérgio Moro deixou o cargo acusando o presidente de querer mudar a direção e superintendências da polícia por motivos políticos. No sábado, ele depôsno in quérito do caso, gerando tensão no Palácio da Alvorada. Moro, antes um dos esteios do governo, apresentou histórico de mensagens trocadas com o presidente que, segundo ele, comprovamas in tenções de Bolsonaro.
Também no sábado, uma outra decisão do Supremo, impedindo a expulsão de diplomatas da ditadura venezuelana do Brasil, irritou de vez o presidente. A declaração de Bolsonaro no domingo, de que as Forças Armadas estão `do lado do povo`, foi dada um dia depois de se reunir com os três comandantes e os ministros militares no Alvorada.
O ministro Fernando Azevedo, ponto de contato entre os generais do governo e os da ativa, além do Judiciário, elaborou uma nota nesta segunda que admoestou todos os lados da polêmica.
Disse que as Forças Armadasdefendema independência entre Poderes, dando assim razão a Bolsonaro, mas condenou a agressão a jornalistas que o presidente minimizou.
`As Forças Armadas cumprem a sua missão constitucional. Marinha, Exército e Força Aérea são organismos de Estado, que consideram a independência e a harmonia entre os Poderes imprescindíveis para a governabilidade do Pais`, diz nota.
Ele afirma que a liberdade de expressão e `requisito fundamental` em um país democrático, mas continua dizendo que `no entanto, qualquer agressão a profissionais de imprensa é inaceitável`. Enquanto isso, instado a falar sobre a violência na manhã da segunda, Bolsonaro atri buiu a `alguns possíveis infiltrados` as agressões. E completou: `Pessoal da Globo vem aqui falar besteira.
Essa TV foi longe demais`, disse, sem repudiar as agressões aosrepórteres. `As Forças Armadas estarão sempre ao lado da lei, da ordem, da democracia e da liberdade. Este ê o nosso compromisso`, completa Azevedo no texto. Nota semelhante havia sido divulgada em 20 de abril, um dia depois de o presidente ir à frente do quartel-general do Exército em Brasília apoiar manifestantes bolsonaristaspedindo intervenção militar contra os outros Poderes. A associação entregovemo e Forças Armadas, inevitável, incomoda setores daatívados militares.
Bolsonaro cogitou no fim de semana a troca do comandante da Força, Edson Pujol, a quem os filhos do presidente consid eram distante da frequência do pai na condução da crise do coronavírus.
Um eventual substituto, Luiz Eduardo Ramos {Secretaria de Governo), se mobilizou para dizer que não havia na da disso no ar quando a Folha noticiou a possibilidade.
Ela foi aventada talvez para o ano que vem, quando a geração de Ramos chegará à faixa mais longeva na hierarquia do Exército, na reunião que ministros e comandantes militares tiveram com Bolsonaro no sábado. Nesta segunda, líamos voltou a negar a hipótese, ligou para Pujol e distribuiu uma mensagem chamando a reportagem de falsa.
`Sem mencionar que seria desonroso para mim e total quebra dos valores que todos nós cultuamos, como antigüidade e merecimento`, disse.
A desconfiança entre setores da ativa foi, de to do modo, reforçada no episódio. Ramos é muito próximo dopresidente, com quem dividiu dormitório como cadete.
Já os fardados do governo, que retomaram o protagonismo neste ano, após serem eclipsados pela ala ideológica boLsonarísta errüaiy, têm alternado apoio ao presidente e freios de arrumação.
Se na noite de domingo a ação era para evitar a nomeação de Ramagem, na manhã seguinte osgeneraisÂzevedo, Ramos, Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional) e Walter Braga Netto (Casa Civil) prestigiaram a posse-relâmpago de Souza.
A nota de Azevedo também explicitou o que já havia sido enviado como recado ás cúpulas do Congresso e do Judiciário na semana passada.
Os militares consideram que sim, os Poderes têm se excedido no contraponto ao Executivo, o que não signifi caque embarcariam em qualquer movimento autoritário por parte do Planalto.
Além de Azevedo, falou também o único nome indemissível da ala fardada: o vice-presidente Hamilton Mourão, gene ral da reserva.
Ele criticou o Supremo. `Julgo que cada um tem que navegar dentro dos limites da sua responsabilidade`, afirmou em entrevista à Rádio Gaúcha.
`Os casos inais recentes, que foi da nome ação do d ire tor-geral da Policia Federal, a questão dos diplomatas venezuelanos eram decisões que são do presidente da República`, afirmou o vice.
`É responsabilidade dele, é decisão dele escolher seus auxiliares, assim como chefe de Estado ele é o responsável pela política externa do país.
` Na linha de Azevedo, Mourão defendeu que` os Poderes têm que buscar se harmoni zar mais e entende r o limite da responsabilidade da cada um`. lile disse também entender que `hoje existe uma questão de disputa de poderentre os diferentes Poderes, existe uma pressão muito grande em cima do Poder Executivo`.
O problema de fundo, como notou um político próximo da área militar, é que os fardados pagam um preço constante por sua simbiose com o governo de Bolsonaro e seusarroubos autoritários.
Nesta segunda, o presidente recebeu o tenente-coronel reformado do Exército Sebastião Curió Rodrigues de Moura (85), um dos militares responsáveis pela repressão ã guerrilha do Araguaia, na década de 70.0 compromisso, de manhã, só foi in cluído na agenda oficial por volta das -nh-io. Curió é ex-oficial do CIE (Centro de Informações do Exército) e ex- agente do SNI (Serviço Nacional de Informações). Segundo arquivos guardados por ele e revelados em 2009 ao jornal O Estado de S. Paulo, as Forças Armadas executaram na guerrilha do Araguaia 41 militantes que já estavam presos e amarrados. No total, 67 militantes foram mortos no conflito.
Ricardo Delia Colleta, Daniel Carvalho,Talita Fernandes, Mônica Bergamo, Igor Gielow e Camila