Argentina volta a emitir para financiar governo, o que pressiona inflação

Argentina volta a emitir para financiar governo, o que pressiona inflação

A Argentina voltou a imprimir moeda em larga escala para financiar o gasto público, o que tinha deixado de fazer por um período durante o governo de Maurício Macri, por pressão do Fundo Monetário Internacional (FMI). Isso ajuda a resolver o problema fiscal imediato do governo, mas pressiona o câmbio e torna mais difícil o combate à elevada inflação.

A base monetária argentina aumentou 44,7% em dezembro passado comparado com o mesmo mês de 2018. Esse crescimento começou no quarto trimestre, quando Macri abandonou a política de emissão zero para enxugar a base monetária, e o Banco Central emitiu moeda para financiar o Tesouro. Essa prática foi mantida pelo governo de Alberto Feniández, que assumiu em dezembro.

O aumento da base monetária dá sinais de que `a emissão cumpriu o papel principal de financiar gastos do Estado`, afirmou o analista financeiro Salvador Di Stéfano, da consultoria homônima.

No inicio do mês o Ministério de Economia começou a realizar trocas de bônus do Tesouro, para alongar prazos e evitar a emissão monetária para pagar títulos da dívida. Porém, em meio às tratativas para renegociar a dívida, esses leilões tiveram baixa adesão.

`Se não conseguir renovar as letras que vencem, é provável que o BC tenha de continuar emitindo dinheiro para financiar o Tesouro`, afirmou Miguel Kiguel, diretor da consultoria Econviews.

Fernández já declarou que não pretende emitir dinheiro `a lo loco`, que poderia ser traduzido como `descontroladamente`. Mas não há uma meta nem um plano divulgado sobre isso.

Além disso, o país não tem acesso ao mercado externo, devido à sua crise de dívida, e está reduzindo as taxas de juros internas, para tentar estimular a economia. As taxas de juros estão já negativas, isto é, rendem abaixo cia inflação, o que desestimula as aplicações.

Assim, não há muitas opções para o governo financiar seus gastos, e Fernández tende a continuar recorrendo ao financiamento pela emissão monetário do BC, o que em muitos países é proibido, como no Brasil.

Em 2018, pressionado pelo FMI, o governo Macri aprovou uma lei para limitar a capacidade de o BC financiar o gasto público, mas deixou uma exceção para situações extremas. Em janeiro, o BC informou que, `no contexto da emergência econômica e social e de uma situação crítica em relação ao acesso ao mercado externo de crédito voluntário, o BC considera necessário prestar assistência excepcional ao Tesouro`.

Para o economista Jose Siaba Serrate, não há dúvidas de que o momento é de exceção e que a emissão, até o momento, está dentro do permitido. No entanto, ele teme que o ritmo de emissão continue acelerado.

Parte da alta de 13% no dólar paralelo no mês passado se deve ao excesso de pesos em circulação, jã que os pesos emitidos vão para a compra de dólar no paralelo. No mercado oficial, a compra é limitada a USS 200 por pessoa ao mês.

Ao mesmo tempo, essa alta do dólar paralelo eleva a expectativa de que o câmbio oficial vai subir e, por isso, os exportadores retêm suas vendas, reduzindo a entrada de divisas no mercado interno. Qualquer movimento do dólar se reflete no aumento dos preços, dificultando a tarefa de baixar a inflação que, em janeiro completou um ano acima de 50%.

`Os pesos que sobram não vão para investimentos. Isso alimenta uma escalada do dólar, com conseqüências diretas nos preços, dificultado o controle da inflação`, disse Di Stéfano. `Todas nossas decisões econômicas são baseadas no dólar`, afirmou.

Por enquanto, esse impacto sobre a inflação está retardado porque o governo mantém congelados os preços das tarifas públicas, combustíveis e transporte. Além disso, o valor do dólar oficial está controlado. Esses são os preços mais importantes da economia e, neste contexto,`inflação vem baixando de níveisescandolasamente altos`, de talhou Tetaz.

Em janeiro, a inflação ficou em 2,3% e projeções para fevereiro apontam para 2,3% a 2,8%. Para Martin Vauthier, da consultoria EcoGo, essa baixa poderia ser revertida pelo ` impacto da cotação do cambio e a baixa taxa de juros, que geram incertezas sobre o aumento do spread cambial`.

`Sem dúvida, neste contexto de elevada inflação, a expansão monetária implica assumir um risco alto em matéria de preços, sobretudo tendo em conta que ogoverno não conta com um plano antiinflacionário explícito`, opinou o presidente da consultora Invecq, Esteban Oscar Domech.