Itamaraty orienta diplomatas a não homenagear general

Itamaraty orienta diplomatas a não homenagear general

Segundo embaixada iraniana, brasileiros não prestaram condolências

O Itamaraty instruiu oficialmente diplomatas brasileiros a não comparecerem a nenhuma cerimônia em homenagem ao general iraniano Qassim Suleima ni, morto pelas forças americanas no Iraque.

Circular telegráfica do ministério, obtida pela Folha, diz: `Rogo a vossa excelência não comparecer a nenhuma cerimônia em memória do gene ml Qassim Suleimani, excomandante da Força Quds iraniana, e de Abu Mahdi al- Muhandas, ex-chefe da milícia Hizbullali, nem assinar li vro de condolências em suas homenagens`.

O general Suleimani era considerado a segunda autoridade mais importante do Irã e comandava a Guarda Revolucionária, responsável pelo serviço de inteligência e por conduzir operações militares secretas no exterior.

O iraquiano al-Muhandas era comandante de um grupo de milícias xiitas que atuavam no Iraque, com apoio de Teerã. Ele estava com Suleimani quando o comboio em que viajavam foi atingido por um ataque com um drone americano, próximo ao aeroporto de Bagdá.

Procurada, a embaixada do Irã no Brásil informou que, até a tarde desta terça, nenhum representante do Itamaraty prestou condolências ou assinou o livro na representação do pais em Brasília. A representação iraniana enviou o convite para isso aos diplomatas brasileiros por meio de uma comunicação oficial. Até a conclusão desta edição, o Itamaraty não havia retornado aospedidos de informação feitos pela Folha.

O alinhamento do Brasil cornos Estados Unidos já vinha provocando tensões diplomáticas. O governo irani ano convocou a encarregada de negóciosda embaixada do Brasilno país, Maria Cristina Lopes, para reclamar da nota oficial divulgada pelo Ministério das Relações Exteriores sobre o ataque que matou o general Suleimani.

Na nota, publicada na sexta {3), oBrasil manifestou `apoio à luta contra o flagelo do terrorismo`. Lopes foi chamada por ocupar temporariamente o lugar do embaixador, Rodrigo Azeredo, que está em férias.

De acordo com o Itamaraty, a conversa foi cordial. Na prática diplomática, uma convocação desse tipo eqüivale a um ato de reprimenda.

Comunicado rião é manifestação contra o Irã, afirma Brasil

Ricardo Delia Coletta

Chamada a dar explicações sobre o apoio dado pelo Brasil aoataque americano que matou o general Qassim Suleimani, a diplomata Maria Cristina Lopes disse às autoridades iranianas que a posição do governo JairBolsonaro não deve ser entendida como uma manifestação contra o país persa.

Lopes, que é a encarregada de negócio s da missão d o Brasil em Teerã, foi convocada depois de o Itamaraty divulgar nota, na última sexta {3), em que endossa a operação americana para matar Suleimani.

No documento, o Ministériodas Relações Exterioresdíz apoiara `luta contra o flagelo do terrorismo` e afirma que atos terroristas riãopodeinser relativizados. A linguagem segue os argumentos dos EUA, que acusam o general de planejar atos terroristas.

A convocação de um diplomata para dar explicações é uma das formas que um governo tem para manifestar descontentamento e incômodo com outro país. Número dois na embaixadabrasileira em Teerã, Lopes foi chamada porque o titular da missão diplomática, Rodrigo Azeredo, está em férias no BrasiL

Na reunião em Teerã, de acordo com interlocutores do governo ouvidos pela Folha, osiranianos se queixaram da nota do Itamaraty e afirmaram que o governo Bolsonaro comprou integralmente a versão dos EUA para justificar a morte de Suleimani.

A chancelaria do Irã também reclamou do fato de o Itamaraty ter incluído no comunicado uma menção aos recentes ataques à embaixada americana em Bagdá.

Os protestos duraram dois diase os manifestantes se retirara m do complexo na quarta {1°}. Os EUA acusaram o Irã de estar por trás das ações.

Instruída pelo ministério em Brasília, Maria Cristina Lopes apresentou as justificativas do governo brasileiro. Além de dizer que a nota do Itamaraty não configurava uma condenação contra o estado iraniano, a diplomata afirmou que as relações entre os dois países são amplas e que elas não podem ser reduzidas ao tema abordado no comunicado.

Ela reiterou os argumen tos usados pelo governo Bolsonaro, de que o terrorismo não é um problema exclusivo do Oriente Médio.

Ela afirmou, por exemplo, que o governo Bolsonaro tem preocupação com a presença de grupos terroristas inclusive na América do Sul, como na Venezuela.

O argumento de que organizações terroristas têm ramificações nesse país vizinho já foi utilizado pelo próprio ministro Ernesto Araújo (Relações Exteriores).

Lopes afirmou ainda às autoridades de Teerã que, apesar dos termos usados pelo governo Bolsonaro 11a nota do Itamaraty, isso não quer dizer que o Brasil deixará de se relacionar com o Irã em outros aspectos.

De acordo com interlocutores, o tom usado pelos ira nianos na reunião com a diplomata brasileira foi duro. No entanto, eles consideram que Teerã modulou a inten sidade da resposta, urra vez que outros países também afirmaram que o país persa tem uma atuação `negativa` no Oriente Médio.

França, Alemanha e Reino Unido, por exemplo, expressaram em comunicado conjunto, `preocupação pelo papel negativo que o Irã tem desempenhado na região, inclusive porineiodaG uarda Revolucionária e das forças Quds sob o comando do general Suleimani`. Esses países, no entanto, não associaram no seu comunicado a operação militar dos EUA a um esforço de combate ao terrorismo como fez o Brasil.