Economia fraca pede corte de juro além da reforma

Economia fraca pede corte de juro além da reforma

A fraqueza da economia é tamanha que apenas a aprovação da reforma da Previdência pode não ser suficiente para tirar o país do atual quadro de inanição. Assim, um corte da taxa básica de juros teria como função ampliar os efeitos positivos esperados com as mudanças previdenciárias e dar impulso maior à atividade, que decepciona dado após dado e leva a uma série de revisões de projeção.

Essa é a visão de parte do mercado que mantém a aposta na flexibilização monetária mesmo após a mensagem transmitida pelo Banco Central na ata da última reunião cio Copom, na qual reafirma a perspectiva cie retomada adiante em um cenário de menos incertezas, apesar de reconhecer uma piora na atividade, com chance de se estender para o primeiro trimestre. `A autoridade parece acreditar que a aprovação da reforma da Previdência será uma condição suficiente para acelerar o crescimento.

Nós pensamos que é necessário, mas não suficiente`, afirma Mario Mesquita, economista-chefe do Itaú Unibanco, em nota sobre a ata. `Ainda esperamos que o BC retome o corte de juros em sua reunião de setembro`, completa. Evidência desta aposta no mercado, os juros futuros embutem corte de 0,07 ponto percentual da Selic na decisão do Copom em julho e de 0,02 em setembro. Ontem, o Dl para janeiro de 2021 recuou cie 6,95% para 6,84%. A queda da Selic ampliaria os efeitos positivos na atividade gerados pela aprovação da reforma.

O primeiro deles seria no reforço da confiança do mercado. Na seqüência, o corte funcionaria como um incentivo adicional para que empresários e consumidores coloquem o `dinheiro para rodar`, diante da redução do custo de capital. `É melhor aplicar recursos em uma atividade sua, rentável, do que deixar ele parado no caixa, por isso a redução do custo do dinheiro sempre ajuda`, afirma Fernando Honorato, economista-chefe do Bradesco, que continua vendo espaço para a discussão do corte.

São dois os impactos iniciais na economia com a redução dos juros, na avaliação de Sérgio Werlang, ex-diretor de Política Econômica do BC e assessor da presidência da Fundação Getúlio Vargas (FGV). Primeiro, influencia a demanda por investimentos de curto prazo do setor privado. Segundo, ajuda na demanda de bens duráveis por parte da população, constituindo assim os dois canais de transmissão da política monetária. `Esses dois canais são mais imediatos.

Na seqüência, o efeito na economia vem por meio do [barateamento do] crédito`, explica. Hoje o Brasil não tem problema de oferta de crédito corporativo ou para pessoa física, e sim de demanda, conforme defende Honorato, do Bradesco. Ele afirma que tanto bancos como o mercado de capitais estão dispostos a emprestar recursos, mas os dados de alavancagem em queda das companhias sugerem que elas estão apenas revisando seu perfil de dívida, sem investir.

Nesse contexto, a queda da Selic poderia ajudar a estimular a demanda e, assim, gerar efeito mais pronunciado na atividade. O economista estima que um corte de 100 pontos da Selic produz uma expansão no Produto Interno Bruto (PIB) de cerca de 0,5%. Embora o recuo do juro básico incentive consumo e investimentos a qualquer momento, se a decisão for atrelada à reforma, o efeito tende a ser ainda maior.

Ivo Chermont, economista-chefe da Quantitas, vê sentido no corte junto com outros fatores, como a resolução da questão fiscal, a redução do juro neutro ao longo do tempo e a possibilidade de a agenda ser liberada para outras pautas da guinada liberal do ministro da Economia, Paulo Guedes. `A política monetária um pouco mais estimulativa é uma peça na engrenagem de uma máquina que estava enguiçada e poderá começar a ser usada novamente. Se essa máquina voltar a funcionar, embora tenha impactos mais fortes com o passar do tempo, transmitirá os efeitos influenciando expectativas`, afirma.

A combinação dos fatores ganha ainda mais relevância com a discussão em torno do patamar dos juros de longo prazo, que respondem em maior parte ao riscopaís e, portanto, à situação fiscal brasileira. É exatamente essa taxa de longo prazo que determina o custo de grandes investimentos. Para se ter idéia, enquanto atualmente a Selic está em 6,5%, a taxa de longo prazo passa de 9%. E o estímulo via política monetária atrelado ao recuo do juro longo teria impacto maior na atividade.

Para que uma atuação do Banco Central faça sentido, no entanto, a inflação precisa estar controlada, de preferência abaixo da meta. Só assim o corte de juros será justificado e é exatamente esse ponto que impede que a expectativa de queda da Selic não ganhe ainda mais espaço entre os especialistas do mercado. É o caso de Fernando Rocha, economista da gestora JGP, que espera a manutenção em 6,5% por mais tempo.

Rocha destaca a mudança na descrição do BC dos níveis de inflação ao parar de usar o termo `confortáveis`. `Acho que a mensagem do Banco Central na ata vai no sentido oposto ao corte de juros. Eu interpreto que o BC cortaria juros apenas em uma situação de atividade sem recuperação que levasse as expectativas de inflação para abaixo da meta. Mas o cenário base da autoridade é de retomada da economia com a aprovação da reforma.`