´China pode ser um risco maior para emergentes´

´China pode ser um risco maior para emergentes´

Entrevista Para Stear, do Société, economia forte compensa aperto nos EUA

O aumento de juros nos Estados Unidos não representa grande risco para os mercados emergentes, pelo menos não por ora. Apesar da volatilidade nas últimas semanas, os ativos ainda têm o respaldo do crescimento mais robusto da maior economia do mundo, que compensa o efeito do aperto monetário.

Para o chefe de pesquisa em renda fixa e especialista em emergentes do Société Générale, Guy Stear, o risco é o que acontecerá no ano que vem quando a atividade global poderá ser afetada pela normalização das condições monetárias.

`Este pode ser o principal tema no fim de 2018 e pode afetar os mercados emergentes`, diz. Ele alerta também para o risco de uma desaceleração da China no ano que vem. Os dirigentes do Federal Reserve projetam nova alta de juros em 2017 e outros três movimentos no ano que vem. Contudo, no cenário para 2018, pode entrar na conta até uma mudança na chefia do banco central americano.

O mandato da atual presidente, Janet Yellen, termina no começo de fevereiro. Especula-se no mercado que o presidente Donald Trump poderia optar por um crítico da política de acomodação monetária. A seguir, os principais trechos da entrevista. Valor: Como o aumento de juros nos Estados Unidos pode ser considerado um risco para os mercados emergentes?

Guy Stear: Estamos no segundo ano de um ciclo muito lento de elevação de juros nos Estados Unidos. E no começo do processo, em que ainda se discute o motivo pelo qual as taxas estão subindo. A resposta é que o crescimento está forte nos EUA e globalmente.

Isso é um fator importante para todos os mercados emergentes no médio prazo, incluindo o Brasil. O sentimento fundamental nos investidores globais é de alívio pelo fato de o crescimento estar forte. A tendência é a de que a atividade vai permanecer forte.

Apesar do aumento da volatilidade nos mercados e da alta do dólar nas últimas semanas, esta é a direção que devemos ver durante boa parte de 2018. Valor: Mas qual o motivo do movimento global de alta do dólar? Stear: O que vimos nas últimas semanas foi o mercado percebendo que o Fed realmente estava falando sério. O ritmo de elevação de juros é muito importante e o ciclo atual tem sido muito lento.

Ao longo deste ano, o Fed vem alertando os mercados que planeja elevar juros, mas os mercados não estavam acreditando nisso porque não viam pressão inflacionária. E há muito risco político no radar, o que justificaria uma eventual decisão do Fed de esperar mais. Só que agora os mercados se dão conta da intenção do Fed. Vemos então um aumento da inclinação na curva de juros americana e a alta do dólar.

Valor: O que pode gerar preocupação nesse processo? Stear: Conforme se aprofunda o ciclo de aperto monetário, o que pode gerar preocupação é o impacto de juros mais altos na despesa financeira. Isso se aplica também para empresas que tomaram empréstimos em moedas fortes.

A segunda preocupação é com o impacto no crescimento. Esta pode ser a principal história no fim de 2018 e pode afetar os mercados emergentes. Mas não é o tema em questão no fim deste ano ou no começo do ano que vem.

Valor: Você não vê risco agora para os mercados emergentes? Stear: Eu acho que é pouco provável. Temos outro problema para emergentes: a desaceleração da economia e do mercado imobiliário na China. A grande questão é o que acontecerá com o crédito no país no ano que vem.

Minha preocupação é que o governo pode reduzir a geração de crédito, aumentando a pressão econômica. Acredito que a China pode ser um risco maior que o aumento de juros nos EUA. Valor: E como o Brasil está posicionado para enfrentar esses riscos, desde o aperto monetário nos EUA até a China?

Stear: As empresas da América Central e da América do Sul diminuíram a alavancagem nos últimos anos e administraram seus balanços de forma mais disciplinada que, por exemplo, a própria China. Isso protege contra uma desaceleração da economia dos EUA ou até da China.

O risco está mais atrelado a preços de commodities, algo que afeta o Brasil também. Valor: Como o Brasil se compara com outros emergentes, como o México, a Turquia? Stear: São economias bastante diferentes. O Brasil é mais similar ao México, em termos de sensibilidade ao risco Trump, e o risco político tem pesado no mercado brasileiro.

Mas o país está posicionado de maneira relativamente positiva. A Turquia está numa situação política complicada e isso não dá conforto para os investidores estrangeiros. A Rússia passou por um processo de desalavancagem das empresas e tem bastante dependência dos preços de petróleo. O México é o país mais sensível às decisões de Donald Trump no mundo.

Valor: Olhando os riscos políticos no Brasil, temos no ano que vem a disputa eleitoral. Como as questões locais podem se equilibrar com as externas?

Stear: Neste momento, eu acho que os investidores estão mais focados no risco global e externo do que no risco doméstico. Esse é o cenário a não ser que algo muito extraordinário aconteça. As pessoas estão vendo o Brasil no contexto do que está acontecendo no mundo, em vez dos eventos regionais.

Valor: No Brasil, também comenta-se muito sobre a reforma da Previdência e o risco de um rebaixamento de rating. Como essas questão são avaliadas do exterior? Stear: Isso é um fator bastante importante no médio prazo. As pessoas estão olhando para o argumento de retorno e crescimento global.

Sobre as expectativas para o rating, não acho que seja algo tão importante para o mercado. Tem um impacto quando não é esperado ou quando aparece algum fator surpreendente. Acredito que os investidores estão cientes dos problemas do Brasil e, por ora, continuam bastante otimistas sobre as oportunidades em emergentes.