Primárias marcam esgotamento da fórmula de união do peronismo idealizada por Alberto e Cristina

Primárias marcam esgotamento da fórmula de união do peronismo idealizada por Alberto e Cristina

14/09 Partido no poder recebeu uma mensagem clara do povo: é necessário retificar o curso

Argentinos participaram das eleições primárias, abertas, simultâneas e obrigatórias (PASO) no domingo passado, escolhendo candidatos a deputados em 24 províncias e candidatos a senadores em 8. As duas coalizões mais importantes que competiram em nível federal foram o partido governista peronista, Frente de Todos (FDT), e Juntos por el Cambio, a principal oposição, formada pelos partidos PRO (Propuesta Republicana), UCR (Unión Cívica Radical) e CC (Coalición Cívica).

Projetados para as eleições gerais de novembro, os resultados formariam este cenário: na Câmara dos Deputados, que tem 257 cadeiras, o FDT, que não tinha quórum próprio (129) e aspirava a alcançá-lo nesta eleição, cairia de 122 para 117 assentos, enquanto o Juntos subiria de 115 para 116. O restante das vagas seriam divididas entre as forças provinciais e os partidos menores. No Senado, que tem 72 cadeiras e exige 37 para quórum próprio, o FDT cairia de 41 para 35 e o Juntos aumentaria de 25 para 34 senadores. O peronismo, que tem maioria no Senado desde 1983, teria 1 voto a mais que o segundo, além de perder o quórum próprio.

O resultado foi uma verdadeira surpresa. Embora por uma margem pequena, a maioria das pesquisas davam ao FDT a vitória. Sobretudo no distrito central do país, a poderosa província de Buenos Aires, que tem 37% do cadastro nacional e é um bastião eleitoral de Cristina Fernández de Kirchner, governada por um aliado. Portanto, a derrota nacional não afeta apenas o presidente Alberto Fernández, mas também enfraquece sua vice.

A experiência desenhada por Cristina para se posicionar como candidata a vice-presidente e eleger Fernández como companheiro de chapa para presidente, em 2019, reunindo todo o peronismo que permanecia dividido desde 2009, segundo os resultados eleitorais, foi um fracasso. Pouco depois, uma pandemia global foi desencadeada, expondo a incapacidade do novo chefe de estado de administrar um programa de sucesso para enfrentar o flagelo. Nesse contexto, o governo cometeu uma série de erros (a quarentena mais longa do mundo, o manejo inadequado da compra de vacinas, etc); teve privilégios descobertos, como a vacinação especial para os amigos do poder e a festa de aniversário da primeira-dama, que não respeitou a quarenta imposta pelo próprio presidente por meio de um Decreto de Necessidade e Urgência; recorreu a uma série de excessos verbais entre os quais se constatou discriminação contra países latino-americanos; e levou o país a uma situação econômica crítica, com inflação mensal de 3% e forte deterioração do quadro social.

O resultado foi expresso nas urnas: quase 70% dos cidadãos votaram contra as políticas oficiais. O partido no poder recebeu uma mensagem clara do povo: é necessário retificar o curso. Mas, além disso, a magnitude do fracasso obriga a repensar a própria coalizão governante, derrotada em 17 das 24 províncias, incluindo Buenos Aires. Seria este o primeiro sinal do fim da hegemonia kirchnerista e, consequentemente, do surgimento de novas lideranças capazes de renovar o peronismo diante das próximas eleições presidenciais?

A principal oposição enfrenta o desafio de garantir o funcionamento institucional, exercer o controle parlamentar e projetar uma agenda legislativa capaz de ajudar a Argentina a acabar com as crises recorrentes. O resultado eleitoral fortaleceu a liderança de Horacio Rodríguez Larreta, atual Chefe de Governo da Cidade Autônoma de Buenos Aires, e o surgimento de Facundo Manes, neurocientista e candidato a deputado nacional na província de Buenos Aires, permitiu a recuperação do papel do radicalismo naquele mega distrito. Na realidade, ambas as coalizões parecem estar em processo de renovação de lideranças, e é de se esperar que as novas alternativas tragam ao cenário político figuras capazes de curar as feridas abertas por tantas rivalidades inúteis e fracassos recorrentes.

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