Primária argentina é o maior teste para o impopular Fernández

Primária argentina é o maior teste para o impopular Fernández

País realiza no domingo prévias partidárias, mas a votação é nacional e aberta a todos e acaba indicando o cenário para as eleições legislativas de novembro. O kirchnerismo teme perder a maioria no Congresso, o que dificultaria a governabilidade do país

Os argentinos votam neste domingo nas primárias legislativas, no que deve ser o maior teste para o governo do presidente Alberto Fernández, que enfrenta uma forte queda na popularidade e risco de perder a maioria no Congresso.

Para evitar a perda da maioria no Congresso, o que tornaria a governabilidade do país ainda mais difícil, o governo acelerou os gastos públicos nos últimos meses, como indica o forte aumento na emissão monetária. Contudo, isso também acelera a inflação.

A votação de domingo, conhecida como Paso (Primárias Abertas, Simultâneas e Obrigatórias), são escolhidos os candidatos para as eleições legislativas de novembro. Só que a votação é aberta a todos. Ou seja, acaba funcionando como uma prévia ou uma pesquisa da própria eleição, com amostragem próxima do eleitorado real.

Nas últimas 11 pesquisas de intenção de voto, três apontaram favoritismo das listas de candidatos para a Câmara de Deputados da Frente de Todos, o grupo kirchenerista de apoio a Fernández; três favorecem a coalizão de oposição Juntos pela Mudança, liderada por grupos próximos do ex-presidente Mauricio Macri; e cinco mostram empate técnico. Na pesquisa da consultoria CEOP, uma das mais respeitadas, as listas da oposição somam 46% e as governistas, 37%.

Pressionado, Fernández, intensificou a campanha dos aliados para as primárias de domingo, buscando marcar diferenças em relação aos opositores do campo de Macri. A rejeição popular às políticas econômicas do ex-presidente favoreceu a eleição de Fernández em 2019. “Se quiserem [a oposição] fazer as mesmas coisas que Macri fez, é melhor que não voltem para causar danos ao povo argentino”, afirmou o presidente.

Mas Fernández vive um dos piores momentos de seu mandato. Sua aprovação caiu quase 20 pontos percentuais, para a casa dos 35%, segundo as últimas pesquisas - muito em razão do vazamento recente de fotos da festa de aniversário da primeira-dama no período mais rígido da quarentena contra a covid-19, no ano passado.

“Há quase dois anos os argentinos estão obcecados com dois temas muito específicos, a pandemia e a gestão da economia, que patina desde o século passado, com alto endividamento, inflação latente e crises cambiais persistentes”, disse a analista da consultoria Oxford Economics, Debora Reyna.

Mas ela explica que eleições para o Legislativo costumam ser encaradas com menos entusiasmo pelos argentinos do que as majoritárias. “Em geral, essas votações são vistas de modo mais apático.”

No dia 29, em eleição isolada para o governo da Província de Corrientes - tradicionalmente avessa ao kirchnerismo - o governador Gustavo Valdés derrotou o candidato apoiado pela Casa Rosada por 75% a 25%, causando uma certa euforia na oposição.

“Diante do sinal de que a oposição poderia ter um bom resultado na eleição para o Congresso, houve uma reação positiva do mercado”, disse Reyna. “Mas é pouco provável que, mesmo com maioria no Legislativo, a oposição tenha como impor medidas muito austeras.”

A emissão de moeda argentina se acelerou fortemente no segundo semestre, chegando a mais de US$ 220 bilhões, segundo o site Infobae, e já supera o total de emissões do primeiro semestre. Diante das incertezas, o dólar no mercado paralelo superou na quarta-feira a marca dos 187 pesos - a maior cotação deste ano - pressionando ainda mais a inflação, que já é superior a 50% em 12 meses.

“O argentino médio, neste momento, não quer nem ouvir falar de ajustes estruturais que permitam o retorno de um crescimento sustentável”, afirmou o analista especializado em mercado argentino Livio Ribeiro, pesquisador da Fundação Getúlio Vargas. “Reforma não é tema relevante nem para o eleitorado nem para os dirigentes do país. O que existe é uma polarização entre populismo de direita e populismo de esquerda, na qual o que importa mesmo é o quadro de situação imediata.”

“Não há sequer algum tipo de planejamento de médio prazo - nem se fala de longo - muito em razão de necessidades imediatas de uma população que empobreceu muito e muito rapidamente”, completa Ribeiro.

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