Pressionado por protestos e Exército, Evo renuncia à Presidência da Bolívia

Pressionado por protestos e Exército, Evo renuncia à Presidência da Bolívia

Com renúncia coletiva, senadora opositora reivindica comando do país e fala em convocar eleições

Préssionado pela oposição, pelas Forças Armadas e por três semanas de intensos protestos no país, Evo Morales renunciou à Presidência da Bolívia neste domingo (ío), depois de 13 anos no poder.

Em um pronunciamento transmitido na televisão a partir da cidade de Cochabamba, o agora ex-presidente bolivianouisse ter sido vitima de `um golpe cívico, político, policial`.

`Não roubei nada. Se acham, apresentem uma prova. Meu pecado ê ser indígena, dirigente sindical, cocaleiro. Quero pedir desculpas por ter sido exigente durante o trabalho. Não foi para Evo, foi para o povo boliviano. Aqui não termina a vida, segue a luta`, disse ele, encerrando a fala.

À noite, em uma rede social, Evo disse haver uma ordem de prisão contra ele e que grupos violentos haviam atacado sua casa. `Os golpistas destroem o Estado de Direito.`

O anúncio de Evo foi sucedida por uma série de renúncias. O vice-presidente, Álvaro Garcia Linera, que ficou ao lado de Evo durante o pronunciamento, o presidente da Câmara, VictorBorda, e a presidente do Senado, Adriana Salvatierra, deixaram seus cargos, além de dois ministros do governo.

Com a renúncia de Salvatierra, a Bolívia caiu num vácuo de poder. Segundo a Constituição, em caso de renúncia do presidente, assume o vice. Na ausência deste, quem fica em seu lugar é o presidente do Senado. Caso este também esteja ausente, a atribuição cabe ao presidente da Câmara. E aí devem ser convocadas as eleições em prazo máximo de 90 dias.

Mas, no caso da Bolívia, todos esses renunciaram. Em entrevista a uma TV boliviana, a opositora JeanineAhez, segundã-vice-presidente do Senado, afirmou que vai convocar uma reuníão nesta segunda-feira e assumirá a Presidência com o único objetivo de convocar novas eleições. O primeiro-vice-presidente do Senado tambêm renunciou.

No entanto, não está previsto na Carta que a sucessão se daria dessa maneira. O governo brasileiro avalia que ainda não está claro se há base legal para reconhecer a legitimidade de Anez. O governo brasileiro não vai se pronunciar; pois está aguardando o Tribunal Constitucional se posicionar.

Além disso, Anez reconhece que náo sabe se contará com a presença dos senadores do partido de Evo, que seria necessaria para garantir o quórum da assembleia que permitíria a ela se declarar presidente e convocar eleições.

A crise que desemboca agora na renúncia do primeiro líder indígena da históría do país não começou recentemente e tem raízes no ano de 2009.

Naquele ano, uma nova Constituição foi aprovada, e Evo passou a defender que, a pesar de já ter governado por dois mandatos, poderia disputar a Presidência mais uma vez porque seu primeiro termo ocorreu antes da nova Carta.

Reeleito outra vez após o Tribunal Constitucional aceitar o argumento, recorreu a um referendo em 2016 para obter o direito de disputar as eleições pela quarta vez consecutiva.

Evo, no entanto, foi derrotado na consulta. Só que não aceitou o resultado e usou outra artimanha para concorrer.

Para ele, a cláusula da Constituição que garante a todo bolívíano o direito de se candidatar à Presidência respaldaria sua vontade de disputar o cargo e, caso não pudesse participar, seus direitos estariam desrespeitados.

Ainda que tenha contrariado a população, a proposta convenceu juizes, que o autorizaram a disputar as eleições que marcariam sua renuncia.

Na noite do dia 20 de outubro, o órgão responsável pela apuração, com 80% das atas apuradas, divulgou os números do sistema de contagem rápida. O resultado levava à disputa de um segundo turno entre Evo e o opositor Carlos Mesa.

Três horas depois, porém, essa contagem foi interrompida por 24 horas, enquanto ocorria a apuração voto a voto. Quando por fim foram anunciados os novos dados, Evo aparecia à frente por pouco mais de dez pontos percentuais de vantagem, o que dava a ele a reeleição já em primeiro turno.

As acusações de fraude geraram manífestações que deixaram ao menos três mortos e mais de 300 feridos nas principais cidades, e a pressão nas ruas fez com que o governo aceitasse uma auditoria da contagem pela OEA (Organização dos Estados Americanos).

Os resultados da verificação seriam divulgados apenas em 13 de novembro, mas foram adiantados `por conta da gravidade das denúncias`, de acordo com Luís Almagro, secretário-geral do órgão, em um comunicado no qual pedia que a eleição de outubro fosse `anulada e que o processo eleitoral começase novamente`.

Na manhã deste domingo, então, Evo convocou uma nova eleição. Em vez de arrefecer a tensão no país, no entanto, o anúncio teve o efeito inverso.

O comandante das Forças Armadas, Williams Kaliman, fez um pronunciamento na TV à tarde, em que sugeria a Evo renunciar para pacificar as ruas.

Por volta das 17h (horário de Brasília), o avião presidencial boliviano decolou do aeroporto de El Alto, próximo a La Paz, onde o presidente estava desde a manhã, alimentando especulações de que ele poderia estar deixando o pais.

Mas a aeronave aterrissou no aeroporto de Chimoré, perto de Cochabamba, um reduto político de Evo e a partir de onde fez o anúncio da renúncia.

A declaração do comandante das Forças Armadas foi a ponta final do movimento de pressão das forças de segurança do país. Na sexta (8), unidades da polícia de cidades de todas as regiões da Bolívia se rebelaram e deixaram de reprimir os opositores que exigiam a renúncia do presidente.

Nas ruas de La Paz, a saída de Evo foi recebida com comemorações de grupos opositores, que agitaram bandeiras e gritaram palavras de ordem contra o agora ex-presidente.

Em alguns pontos, os manifestantes montaram barricadas e acenderam fogueiras. Carlos Mesa e Luis Fernando Camacho, os dois expoentes da oposição a Evo, se juntaram à população nos atos.

A renúncia de Evo ocorre em meio a uma onda de manifestações contra governos na América do Sul. Ainda que as crises de cada país tenham suas particularidades, os líderes de Equador, Chile e, agora, Bolívia sofreram derrotas significativas.

No Equador, o presidente Lenín Moreno foi obrigado a recuar do corte de subsídios a combustíveis depois de intensa pressão popular.

No Chile, o aumento das tarifas de metrô desencadeou uma reação que ainda não terminou. Os protestos, que já deixaram ao menos 20 mortos e milhares de feridos, abraçaram outras demandas contra a desigualdade social no pais e pressionam o presidente Sebastián Pinera, que foi obrigado a tomar uma série de medidas para aplacar os atos.

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