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Possível retrocesso do Mercosul preocupa, diz ex-chanceler argentina

Possível retrocesso do Mercosul preocupa, diz ex-chanceler argentina

A ex-chanceler argentina Susana Malcorra, 64, diz estar `muito preocupada com os rumos do Mercosul`. Em entrevista à Folha, por videoconferência em Madrid, onde vive agora, a ministra de Relações Exteriores do presidente Maurício Macri de 2015 a 2017 contou que já vinha alertando o governo argentino para as declarações do então pré-candidato fair Bolsonaro com relação à região.

A ex-chanceler argentina Susana Malcorra, 64, diz estar `muito preocupada com os rumos do Mercosul`. Em entrevista à Folha, por videoconferência em Madri, onde vive agora, a ministra de Relações Exteriores do presidente Maurício Macri de 2015 a 2017 contou que já vinha alertando o governo argentino para as declarações do então pré-candidato fair Bolsonaro com relação à região.

`Agora, as mensagens que venho escutando do presidente eleito do Brasil e de seu entorno é que podemos ter um retrocesso na integração em que vínhamos trabalhando e que será muito ruim que o Brasil não privilegie o vínculo com o Mercosul e, em particular, com a Argentina.`

Em entrevista recente, o futuro ministro da Economia brasileiro, Paulo Guedes, disse que o Mercosul `não é uma prioridade` e que havia se tornado `prisioneiro de alianças ideológicas`.

Malcorra lembrou que, há não muito tempo, `Brasil e Argentina tinham temas de conflito entre si, e isso se superou quando veio a democracia e os primeiros presidentes democráticos de ambos os países decidiram que a integração era necessária e que passava necessariamente pela economia. Por isso fundaram o Mercosul e a relação melhorou muito.`

Para ela, as declarações do futuro governo brasileiro debilitam a capacidade de negociação do bloco para, entre outras coisas, fechar o acordo de livre comércio com a União Européia. Apesar da lentidão da negociação, que já dura quase 20 anos, Malcorra acredita que, durante seu período no governo e em 2018, `se avançou muito, eu diria que estamos no trecho final. Ou seja, não é o momento de mandar mensagens que possam desestabilizar nossa posição e apontar para um retrocesso de nossa parte`.

Malcorra também fez uma autocrítica, afirmando que `se em algo falhamos nos últimos anos foi por não termos sido suficientemente rápidos. Argentina e Brasil foram os principais responsáveis nesse caso. Algumas vezes era o Brasil quem liderava a reação contra e a Argentina se escondia. Noutras, a Argentina o fazia, e o Brasil se escondia. Porém, nunca abandonamos a convicção de que o Mercosul era uma prioridade`.

A ex-ministra está lançando o livro `Pasión Por El Resultado` (Paixão pelo Resultado, sem edição no Brasil), em que, além de contar como foi sua passagem pelo cargo de chanceler, fala de sua trajetória na iniciativa privada e como chefe de gabinete da Secretaria-Geral da ONU.

Pessoalmente, uma bandeira que sempre carregou foi o da inserção da mulher nos ambientes de trabalho e de poder. `A Argentina melhorou muito desde que iniciei minha carreira. A política de cotas no Congresso (30%) impulsionou a participação feminina, mas isso ainda não é o suficiente. Quando vemos as imagens dos momentos de tomadas de decisão, elas são essencialmente masculinas.`

Afirmou ter sido insistente com o presidente Macri sobre a necessidade de mais políticas afirmativas, `porque de outro modo, nossas sociedades nunca serão igualitárias`, e que é preciso que exista uma mudança cultural por meio da educação.

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