Posições de Bolsonaro esfriam mais relação com a Alemanha

Posições de Bolsonaro esfriam mais relação com a Alemanha

A visão na Alemanha é de que o Brasil e a América Latina como um todo correm risco de mais marginalização na política internacional

Qualquer que seja o novo governo que sair da eleição federal na Alemanha, no dia 26, tende a prolongar o congelamento da relação europeia e alemã com o Brasil, com os rumos que o governo de Jair Bolsonaro toma. E isso tem impacto econômico ao não melhorar condições para atrair mais investimentos, por exemplo, concordam analistas.

As posições de Bolsonaro vão provocar também mais exigências do lado europeu para uma assinatura do acordo União Europeia-Mercosul, algo que, de toda forma, deverá demorar bem além da eleição na França no ano que vem.

“Com posições radicais, discursos de ódio, ameaças e insultos, Bolsonaro dispara, pelo menos verbalmente, a destruição da Amazônia em nome do ‘progresso’ , e legitima ataques a grupos sociais marginalizados” , observa Günther Maihold, vice-diretor do Instituto Alemão para Assuntos Internacionais e de Segurança (SWP), think tank vinculado ao Bundestag (o Parlamento alemão). “Agora, ele parece gerar uma situação próxima ao defunto governo Trump, atacando o parlamento e o Judiciário.”

“Portanto, a Alemanha insistirá na aplicação do Estado de Direito e na proteção da democracia. Isto será interpretado pelo governo Bolsonaro como uma intrusão nos assuntos internos, enquanto na Alemanha faz parte de uma política internacional de resiliência democrática. Assim, a fissura entre os dois países no próximo mês pode se tornar ainda maior”, acrescentou.

Para a professora Barbara Fritz, da Freie Universität, em Berlim, se Bolsonaro convencer os militares a um golpe, “certamente não terá reconhecimento do governo (alemão), terá rejeição, sanções econômicas e políticas”. Ela observa, porém, que o país continua a ter instituições que funcionam. “Tomara que Bolsonaro seja um parênteses na história e passe. Mas, com certeza, ele já teve muito efeito destrutivo.”

O professor Detlef Nolte, do Instituto de Estudos Latino-Americanos de Hamburgo, diz que nos meios políticos e intelectuais da Alemanha a visão sobre o Brasil com Bolsonaro “é muito crítica por causa da Amazônia, das tendências autoritárias” e visivelmente só a extrema-direita o suporta.

Na União Europeia (UE) em geral, qualquer interlocução do mais alto nível com a liderança brasileira está parada. Não existe, sequer de forma virtual. Com a Alemanha, líder no bloco e motor da economia europeia, a situação parece ainda pior. O setor privado alemão insistiu para Berlim retomar diálogo com o governo brasileiro, sem sucesso.

A primeira edição do mecanismo de consultas bilaterais de alto nível, para os dois governos tratarem periodicamente das questões mais relevantes, ocorreu em 2015, quando Angela Merkel foi a Brasília com sete ministros. A reunião seguinte deveria se realizar em 2017 na Alemanha, mas o governo de Angela Merkel colocou o freio na iniciativa. Primeiro, alegou que o então governo de Michel Temer era de transição. Depois veio Bolsonaro e o esfriamento das relações se consolidou.

Na crise da pandemia de covid-19, Merkel telefonou para os presidentes da Argentina, Alberto Fernández, e do Chile, Sebastián Piñera. Mas ignorou Bolsonaro, em meio ao espanto na Alemanha com sua postura contra a ciência e contra vacinas, por exemplo.

O empresariado alemão respira aliviado no momento pelo menos com o fato de o acordo UE Mercosul comercial não ter entrado na campanha eleitoral. O temor era de a questão ser politizada, com ongs pressionando mais os partidos políticos antes da eleição por um posicionamento contrário ao entendimento.

Isso não ocorre até porque a América Latina em geral é ignorada na campanha, como ocorre na Europa em geral. Como nota Nolte, “a América Latina é muito distante, e a escala de importância para a Alemanha é: a Europa, a Rússia pela proximidade, os EUA com a aliança militar, a China pela importância econômica, o Oriente Médio pelos problemas de refugiados e a África pelas questões de migração”.

A visão na Alemanha é de que o Brasil e a América Latina como um todo correm risco de mais marginalização na política internacional. Na agenda de mudanças climáticas, transição energética, saúde global, a América Latina é considerada um parceiro estratégico. No entanto, a avaliação é de interesse limitado na região sobre esses temas. Ao mesmo tempo, o cenário é altamente polarizado tanto internamente como em nível regional. “Há necessidade de um novo impulso das lideranças das duas regiões a fim de superar a crise de relacionamento em que nos encontramos de fato”, diz Maihold.

Depois da eleição federal alemã no dia 26, virá o momento decisivo, que será a negociação da coalizão e do contrato de governo. E parece claro que o Partido Verde, hoje com 17% de intenção de votos, poderá participar de qualquer coalizão.

Para Maihold, em todo caso haverá a continuação da resistência à ratificação do acordo UEMercosul em vários países-membros que se deve, em grande parte, a grupos de lobby internos. “O que falta é o apoio das partes interessadas no acordo. Independentemente dos verdes, o processo de ratificação perdeu impulso em geral. Os países do Mercosul não se beneficiam mais do Esquema de Preferências Generalizadas (SPG) devido a sua classificação como países de renda média alta, portanto, precisamos encontrar novos fundamentos para os esquemas de comércio e cooperação.”

Com certeza, acrescenta o analista, os verdes no governo “pediriam uma espécie de renegociação do acordo que mudaria elementos centrais da regulamentação atual sobre ecologia, direitos humanos, normas trabalhistas etc., o que nesse momento parece ser ambicioso com o governo brasileiro de Bolsonaro”.

Nesse contexto, a relação bilateral Alemanha-Brasil continuará longe de atingir seu pleno potencial. “Ela parece ter perdido direção e ímpeto no plano político. A problemática relação comercial não ajuda a resolver esta situação, pois os atores alemães continuarão insistindo na proteção da Amazônia, na mudança climática e considerando-a como um bem público global com uma responsabilidade conjunta”, diz Maihold.

Para Nolte, os verdes vão pedir mais garantias sobre o acordo birregional. Mas, “se a maioria (dos países europeus) estiver a favor a Alemanha, mesmo com os verdes, vão aceitar o acordo”, diz.

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