Por vacinas, governo Bolsonaro ameniza tom com a China, enquanto tenta conter críticas a Araújo Planalto decide evitar debates

Por vacinas, governo Bolsonaro ameniza tom com a China, enquanto tenta conter críticas a Araújo Planalto decide evitar debates

22:01 - Planalto decide evitar debates públicos sobre Huawei, e importação de doses do imunizante de Oxford da Índia dá argumento ao presidente para defender chanceler

BRASÍLIA — Para garantir a importação da China de insumos farmacêuticos fundamentais para a fabricação de vacinas contra a Covid-19, o governo brasileiro decidiu amenizar o tom nos diálogos com aquele país sobre a tecnologia de telefonia 5G. A ideia é evitar debates públicos sobre a possibilidade de a Huawei ser barrada como fornecedora de infraestrutura do leilão que o Brasil fará, ainda que não haja decisão sobre permitir ou não a participação da empresa chinesa na disputa.

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Ao mesmo tempo, a confirmação da chegada, nesta sexta-feira, de um avião vindo da Índia com 2 milhões de doses da vacina Oxford/AstraZeneca serviu para aplacar dentro do governo os rumores de que o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, estava ameaçado no posto.

No caso da 5G, a ideia é evitar polêmicas sobre o tema, depois que o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), em novembro de 2020, relacionou o uso dos equipamentos da Huawei à "espionagem da China" em uma rede social. O embaixador chinês, Yang Wanming, respondeu em termos duros, e o deputado foi respaldado na contenda por Araújo.

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Ainda não há consenso no governo sobre o leilão da rede 5G. No Palácio do Planalto e na cúpula do Itamaraty, há uma predisposição em ceder às pressões que vinham do governo de Donald Trump, mas técnicos das áreas econômica e de comunicações não concordam, porque o Brasil pode ter sérios problemas com sua imagem e o preço para o consumidor subiria muito com a exclusão da Huawei. Sem contar que as companhias telefônicas são contra.

O atraso na importação dos imunizantes fabricados na Índia e no fornecimento de insumos chineses ao Instituto Butantan, que produz a CoronaVac, e à Fiocruz, que fabricará a vacina de Oxford, foram apontados como motivos para uma possível demissão do chanceler. Contribuiu para reforçar a teoria o fato de que os ministros Fábio Faria (Comunicações) e Tereza Cristina (Agricultura) foram acionados para dialogar na quarta-feira com o embaixador chinês.

Segundo auxiliares do Planalto, a escalação de Faria e Tereza Cristina foi uma decisão pragmática, já que ambos atuam em temas de interesse dos chineses. O ministro das Comunicações é responsável pelas negociações sobre a 5G, enquanto a ministra da Agricultura ganhou a confiança dos chineses ao construir parcerias comerciais no agronegócio.

Na mesma quarta, o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, conversou com o embaixador chinês em um encontro virtual, reforçando o pedido para o recebimento dos insumos.

As conversas ocorreram no mesmo dia em que Joe Biden assumiu o poder, sucedendo Trump. Com a chegada do democrata à Casa Branca, havia a expectativa de que Bolsonaro cedesse à pressão, inclusive de alguns de seus auxiliares, para substituir o chefe da diplomacia brasileira com o objetivo de manter as boas relações com os EUA.

O presidente Jair Bolsonaro agiu para debelar a nova crise que se formava no governo. Logo após a Índia confirmar a exportação das vacinas, Bolsonaro agradeceu ao chanceler e servidores do Itamaraty nas redes sociais. Na publicação, usou uma foto ao lado do embaixador da Índia, Suresh Reddy, com quem conversou na segunda-feira, e outra ao lado de Araújo, que republicou a postagem e agradeceu ao presidente e o chanceler indiano, Dr. S. Jaishankar.

"O governo da Índia colocou o Brasil na mais alta prioridade: somos um dos dois primeiros países a receber vacinas contra Covid compradas na Índia (ontem a Índia fez doação a 2 países)", escreveu.

Horas depois, Araújo surgiu ao lado de Bolsonaro na transmissão semanal ao vivo na internet. De acordo com Bolsonaro, o problema com a China é burocrático, e não político "como alguns falaram". Ele também disse que não existe "amor" nas relações diplomáticas, mas interesses comerciais, e que a China precisa dos produtos agrícolas do Brasil.

— O pessoal fala “ah, o Brasil precisa da China”. A China também precisa da gente. Ou tu acha que a China está comprando soja para jogar fora? — afirmou.

Questionado se haveria uma pressão da China pela demissão de Araújo, Bolsonaro afirmou que "ninguém procurou, nem ousaria procurar" o Brasil para pedir isso.

—Tem gente que quer ver uma crise, quer criar invenções onde não existe — acrescentou o chanceler brasileiro.

Apesar de Araújo ter sido respaldado para permanecer no cargo, a avaliação é que o governo depende do fluxo da vacinação para debelar a crise política e conter a queda de popularidade do presidente.

Aliados de Araújo alegam que ele foi alvo de fogo amigo no governo. Afirmam que o ministro manteve conversas tanto com a Índia quanto com a China. De acordo com pessoas próximas, o Instituto Butantan não pediu apoio do Itamaraty para requisitar os insumos, e a cobrança teria sido uma "retórica política" do governador de São Paulo, João Doria. Já a Fundação Oswaldo Cruz, que produzirá a vacina de Oxford, pediu apoio, e o embaixador brasileiro em Pequim teve reuniões com o secretário para a América Latina e com o chanceler chinês, que teriam reforçado que o Brasil é "um parceiro estratégico".

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