Política externa na gestão de Bolsonaro e Ernesto inaugura diplomacia populista

Política externa na gestão de Bolsonaro e Ernesto inaugura diplomacia populista

Atuação se baseia em propostas simples para problemas complexos e mobilização das massas

Desde o inicio do mandato de Jair Bolsonaro, a política externa sob influência direta do guru Olavo de Carvalho foi um dos traços mais marcantes do governo. O desejo manifesto de ruptura fez com que muitos buscassem adjetivos para caracterizá-la. Conservadora? Nacionalista? Antiglobalista? Subserviente?
Cada um desses adjetivos descreve aspectos importantes da atuação do Brasil no mundo, mas acredito que a palavra que melhor descreve o estado atual da política externa do país é populista.
A total submissão das diretrizes diplomáticas ao projeto pessoal (ou familiar) de poder de Jair Bolsonaro, marcado pelo reacionarismo ideológico e pela truculência política, é algo inédito no Brasil, mesmo nosperíodos autori tários, e desconhecido entre democracias consolidadas.
Ao tentar indicar Eduardo, de parcas credenciais, para chefiar a embaixada nos EUA, Bolsonaro deixou claro que se vê como monarca absolu tista, legitimado pelo povo e inspirado pela graça divina.
Esse comportamento subverte a lógica do interesse nacional sob a qual operam chancelarias ao redor do globo. À esquerda ou à direita, a ideologia serve como filtro das estratégias para projetar o país, mas não deve ser tratada como um fim nela mesma.
E nem todo líder populista faz da diplomacia a extensão de seu jogo político interno. A atuação internacional de Getúlio Vargas ficou conhecida porseupragmatismo na relação com Berlim e Washington.
Mesmo Donald Trump, um dos símbolos do moderno populismo conservador, não radicalizou sua política externa, encontrando certo equilíbrio entre bravatas esporádicas e concessões amplas, como se viu com a Coréia do Norte.
Não é o caso da diplomacia bolsonarista, cujo traço depopulismo revela uma construção ampla, que condena objetivos, princíp íos e estratég iasde relações internacionais à dinâmica própria do personalismo do líder populista.
Elasebaseia em três pilares: propostas de soluções simples para problemas complexos, mobilização direta das massas e aposta na construçãode inimigos externos. Para tanto, dispensa mediadoresinstitucionais, como ftamaratye diplomacia profissional, alémde abusar da comunicação direta^ obre tudo via redes sociais.
O simplismo da visão de mundo bolsonarista se revelou desde a campanha. Povos de bem, em defesa da liberdade, da família e da fé, travam batalha permanente contra o socialismo e o globalismo.
A solução é igualmente rudimentar: para o governo, o Brasil só reconquistará sua credibilidade se o governo hostilizar Venezuela, China e Irã e abraçar Israel, Hungria e, quem diria, o absolutismo teocrático da Arábia Saudita.
A idéia ê rezar pela cartilha trumpista, sem filtros, ressalvas ou concessões, numa adaptação da folclórica frase do ex-chanceler Juracy Magalhães:o queébompara Trump é bom para Bolsonaro (e,portanto, para o Brasil).
Ó recurso às massas se traduz na utópica idéia, repetida pela cúpula bolsonarista, de que a política externa deve refletir o s valores pro fundos do povo brasileiro. Rejeita, portanto, interloeuções com sociedade civil, lideranças políticas progressistas ou organismos multilaterais, acusando-os de serem parte de uma suposta elite globalista que apregoa o marxismo cultural.
A apropriação de um povo imaginário, que se confunde com a militãncia bolsonarista das ruas e das redes, é importante para manter a base mobilizada. Paraatingiro `povo`, a política externa populista precisa de inimigos, que devemserdescobertos, denunciados e combatidos. Ela se nutre de espantalhos externos e teorias conspiratórias.
No começo, os alvos eram os socialistas: Nicolás Maduro, Venezuela e o Foro de São Paulo. Aos poucos, o leque de inimigos foi se ampliando para os considerados globalistas: o presidente francês, Emmanuel Macron, a ONG Greenpeace e a ativista pela mudança climática Greta Thunberg. A parano ia bo lsonarista que inunda o WhatsApp nào poupounem o papa, acusado de ser agente do bolivarismo.
Como voz institucional do Itamaraty, Ernesto Araújo costuma ser discreto ao revelar seuapetite conspiracionista, deixando suas elucubrações quixotescas para palestras longas ou ensaios em seu blog. O chanceler reserva astira das mais agressivas a seus colegas, como os ministros Ricardo Salles, do Meio Ambiente, e Abraham Weintraub, da Educação, além do assessor Filipe Martins, b em com o alguns deputados e influencers da t rapa de choque b ols onarista. Todos que bebem da fonte d e Olavo de Carvalho são versados nas táticas de guerrilha informacional do ideólogo e estrategista da alt-right americana, Steve Bannon.
O principal méto do de ação da p olít ica externa p opulist a é disparar fake newscontra desafetos internacionais, como novazamento deóleo na costa nordestina, que seriaparte de trama venezuelo-ambien talista. A idéia, claro, é criar a sensação permanente deque há um complô contra o presidente, acossado pelo sistema. Por isso, os bolsonaristas sabotam qualquer movimento mais pragmático no campo político ou comercial, vindo do agronegócio, dos militares ou da equipe econômica.
Normalizar com o `sistema` é sinal de fraqueza. Essa lógica binaria e belicosa, inspirada na obra do jurista nazista Carl S chrnitt, é um dos pilares da `metapolitica` da extrema direita, queatribui importância àguerracultural, que antecede adisputapolítica, e opera tanto no campo das ações quanto das narrativas. Apandeinia escancarou o lado populista da política externa. Mimetízando Trump, a insistência na hidroxicloro quina é típica solução simples para problema complexo, bem como o slogan, depois negado pelo governo, de que o Brasilnãopoderiaparar.
O apelo direto às massas se manifesta tanto na retóricabolsonaiísta de `salvar empregos` quanto na deturpação sorrateira das diretrizes do Gio ou da OMS para legitimar posições aberrantes do presidente no combate ao coronavírus. Por fim, a eantilena do nós contra eles agora busc a de mo nizar a China como fabricante de um vírus para destruir o Ocidente. Nascida naultradireita americana, a expressão `vírus chinês`, de contornos racistas, caiu nas graças do bolsonarismo e estimula delírios conspiratórios.

Ernesto, em texto de seu blog, sugere que o coronavírus e o movimento `sanitariamente correto` que dele emana fazem parte de um plano totalitário para imple mentar o comunismo em escala global.
Não restam dúvidas de que esse empreendimento populista tem pés de barro. Ao equiparar presidente e Estado, submetendo interesses estratégicos do país às veleidades e às idiossincrasias da família Bolsonaro e de seus assessores próximos, a política externa populista causa danos irreparáveis à imagem do país.
Não bastassem os males da negligência ambiental na Amazônia, a insistência do presidente em minimizar a pandemia já o tomou umaespécie de pária sanitário, que só se compara aos excêntricos governantes de Nicarágua, Belaruse Turcomenistão.
Ao hostilizar parceiros, como chineses, franceses e argentinos, joga porteira osesforçosde recuperação econômica pela via do comércio in temac ional e des trói qualque r possibilidade de liderança brasileira nos temas multilaterais.
Pior ainda: caso o resultado das eleições americanas nào seja o que os conselheiros palacianos desejam, o Brasil será jogado no abismo da irrelevância mundial. Se tivermos sorte, por pouco tempo. ? Ernesto escreve que vírus desperta para ´pesadelo comunista´
0 chanceler Ernesto Araújo defendeu, nesta quarta (22), 3 idéia de que a pandemia de coronavírus responsável por quase 180 mil mortes em todo o mundo pode fazer parte de um `projeto globalista` que é o `novo caminho do comunismo`.
Segundo texto de seu blog, Ernesto afirma que tal projeto `já se vinha executando por meio do dimatismo ou alarmismo climático, da ideologia de gênero, do dogmatismo politicamente correto, do imigracionismo, do racialismo ou reorganização da sociedade pelo princípio da raça, do antinacionalismo, do dentificismo`.
`São instrumentos eficientes, mas a pandemia, colocando indivíduos e sociedades diante do pânico da morte iminente, representa a exponencialização de todos eles.` Agora, de acordo com o ministro, o `comunavírus`, `vírus ideológico` que se sobrepõe ao coronavírus, faz `despertar para o pesadelo comunista`.
Analisando um livro do filósofo e psicanalista esloveno Slavoj Zizek, o líder do Itamaraty questiona ainda entidades internacionais como a Organização Mundial da Saúde (OMS).

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