Petróleo de Vaca Muerta é uma das poucas boas notícias na Argentina

Petróleo de Vaca Muerta é uma das poucas boas notícias na Argentina

Vaca Muerta responde hoje por 25% da produção de petróleo da Argentina e pode chegar a 29% neste ano

Mergulhada em uma crise econômica que foi agravada pela pandemia, a Argentina tem em Vaca
Muerta uma das poucas boas notícias atualmente. A região atingiu níveis recordes de produção
de petróleo de xisto e viu crescer o número de abertura de poços. Analistas afirmam, contudo, que
manter esse otimismo dependerá de ajustes macroeconômicos e de regras mais claras para as
empresas.

Localizada na Província de Neuquén, Vaca Muerta responde por 40% das reservas de gás de
xisto e 60% do total de petróleo não convencional da Argentina. Em dezembro, os campos
alcançaram produção recorde de 124 mil barris/ dia (b/d) de petróleo, superando a marca anterior
de 123 mil b/d, de março de 2020. Se esse ritmo se mantiver, a produção pode chegar a 150 mil
b/d neste ano, segundo a consultoria Rystad Energy.

Em janeiro deste ano, o número de poços por fratura hidráulica cresceu 39% em relação a
dezembro e dobrou em relação ao ano anterior. Eram 662 em janeiro, ante 477 em novembro, de
acordo com relatório da S&P Global, com base nos dados da empresa NCS Multistage, com sede
em Houston.

A atividade de fraturamento hidráulico em Vaca Muerta atingiu o maior nível em 17 meses. A
estatal argentina YPF controla a maior parte da produção, em 382 poços, seguida por Vista Oil &
Gas (111), Tecpetrol (39), Pluspetrol (31) e Pan American Energy (24).

“Essa melhora foi possível graças à alta do preço do petróleo no mercado internacional e à
continuidade dos planos de investimento das empresas”, afirma Mauro Chavez, analista da
consultoria Wood Mackenzie.

A produtividade dos campos de Vaca Muerta é atualmente comparável aos campos responsáveis
pelo boom de xisto nos EUA. “Normalmente, um poço em Vaca Muerta é mais produtivo do que
Permian ou Eagle Ford, nos EUA. Mas também é mais caro, porque a atividade fora da área de
Loma Campana não é feita em escala e os custos com mão de obra, materiais e serviços são
maiores na Argentina”, diz Artem Abramov, analista da Rystad.

“Mesmo assim, do ponto de vista de custos versus produtividade, Vaca Muerta já está no mesmo
patamar do Permian. O desafio agora são novos projetos de infraestrutura para garantir o
crescimento de longo prazo da produção”, continua.

Abramov afirma que Vaca Muerta responde hoje por 25% da produção de petróleo da Argentina e
pode chegar a 29% neste ano.

Mas isso vai depender também de questões mais estruturais da Argentina. O reequilíbrio da
macroeconomia - marcada por déficit fiscal de quase 10% do PIB, inflação anual de dois dígitos e
controles de capital cada vez mais estritos - e um ambiente regulatório com regras claras são
fundamentais, afirmam consultores.

“Há incerteza pelo lado macroeconômico e pelo político”, diz Mauricio Roitman, consultor e expresidente da Ente Nacional Regulador de Gás da Argentina (Enargas). “Temos desequilíbrios
importantes na economia, estamos em um ano de eleições legislativas e não está claro o que
pode acontecer, por exemplo, com a tarifa de gás. Serão fortemente subsidiadas ou
acompanharão os preços do mercado? Não há muita previsibilidade.”

Soma-se a isso o fato de a maior parte da produção em Vaca Muerta estar nas mãos da estatal
YPF, que se encontra em situação financeira complicada. No mês passado, a empresa chegou a
um acordo com credores para reestruturar 60% de sua dívida, o que evitou que ela entrasse em
default.

“Vemos com cautela essa melhora nos números de Vaca Muerta porque o contexto geral para
atrair capital estrangeiro permanece muito desafiador na Argentina”, diz Rivaldo Moreira Neto,
diretor da consultoria Gas Energy. “Sempre que se depende muito de uma estatal, tem-se uma
injeção de recursos fortes, mas que tende a perder fôlego no longo prazo, se não for possível
atrair investimentos estrangeiros de forma sustentada.”

Em contraste com a produção de petróleo em Vaca Muerta, a de gás de xisto caiu abaixo de 900
milhões de metros cúbicos em dezembro, pela primeira vez desde outubro de 2018. Em 2020 o
número de novos poços de gás caiu 89% na região, ante 2019, segundo Chavez.

“Isso é reflexo de menos investimento. O governo congelou as tarifas para o usuário final, que
estão há mais de 16 meses sem reajuste”, diz Chavez. “Isso acabou não compensando o
investimento para explorar novos poços.” Ele afirma que o preço médio do gás no ano passado foi
de US$ 2,5 / Btu, quando um preço mínimo para justificar o investimento teria de ser de US$ 3/
Btu.

A perspectiva, contudo, é que a produção de gás em Vaca Muerta também ganhe força com o
Esquema Gas 2020-2023, de leilões para contratar distribuidoras, o que deve elevar o preço para
US$ 3,4/ Btu.

Luciano Caratori, ex-subsecretário de Planejamento Energético no governo do ex-presidente
Mauricio Macri, no entanto, vê com ceticismo o plano lançado em dezembro. “A resposta das
empresas cobriu o mínimo, mas não será suficiente para todo o gás adicional que a Argentina
precisa no inverno”, diz. No médio prazo, ele afirma, a Argentina precisa de mais infraestrutura
para reduzir a dependência do gás externo.

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