Paraguai cancela acordo com o Brasil, e impeachment esfria

Paraguai cancela acordo com o Brasil, e impeachment esfria

Acerto para contratação da energia de Itaipu ameaçou a permanência do presidente Mario Abdo Benítez no cargo

O Paraguai assinou nesta quinta (i°) documento que cancela acordo bilateral favorecendo o Brasil na contratação da energia de itaipu, Agora, os dois países terão de se sentar novamente â mesa para renegociai a potência de energia que o Paraguai deverá comprar até 2022.

O governo paraguaio queria que Brasília apoiasse a anulação do documento diplomático e que o cancelamento da ata fosse conjunto. No entanto, o Brasil não aceitou a proposta e forçou o Paraguai a agir unilateralmente. Apoiar a ação, dizem interlocutores do governo brasileiro, significaria concordar com a tese de que o acordo de maio é prejudicial ao Paraguai, algo com o que o Brasil não concorda.

A avaliação é que a anulação unilateral será suficiente para ajudar o presidente do Paraguai, Mario Abdo Benítez (direita), alvo de pedido de impeachment pela oposição.

Em nota divulgada na manhã de quinta, o Itamaraty se posicionou contra a ameaça de processo de impeachment.

`O desenvolvimento do Paraguai e sua participação ativa como valioso membro do Mercosul e da comunidade hemisférica é de enorme interesse para o Brasil, e o governo brasileiro está convencido de que o presidente Mario Abdo reúne todas as condições para continuai `conduzindo esse projeto`, disse a nota.

O Itamaraty destacou ainda `o excelente nível do relacionamento Brasil-Paraguai atingido entre os governos dos presidentes Mario Abdo e Jair Bolsonaro, com iniciativas de grande impacto positivo para o Paraguai nas áreas econômica, de integração física e de segurança pública`.

O cancelamento do acordo causou reação imediata no processo contra Abdo Benítez: o grupo de senadores comandados por Horacio Cartes, o Honor Colorado, retirou seu apoio ao processo de afastamento, anunciado na véspera pelos partidos da oposição.

Sem os votos da corrente liderada pelo ex-presidente do Paraguai, a oposição náo teria o número necessário para aprovar o impeachment.

Ao ajudar um aliado alinhado ideologicamente com seu governo, Bolsonaro repete uma ação tomada pelo ex-presidente Lula. Em 2007, o petista aceitou pagar pelo excedente energético vendido pela Bolívia ao Brasil, sob o argumento de que era preciso ter `generosidade` e `solidariedade` com economias menores. O presidente da Bolívia à época era Evo Morales, um aliado próximo do PT.

No fim da manhã, com aspecto sério e cansado, o presidente paraguaio fez um pronunciamento no Palácio de Los López, sede do governo.

Abdo Benítez disse que `o acordo assinado em 24 de maio está sem efeito` e que, para chegara essa decisão, `foram feitas negociações durante toda a noite`. Ele também agradeceu aos `países amigos e organismos internacionais que expressaram apoio`.

O mandatário afirmou ainda que ordenou a os membros do governo que participaram do processo em favor de seu afastamento que sejam destituídos de seus cargos, declaração pela qual foi aplaudido.

Ao lado da mulher, Silvana López Moreira, o presidente agradeceu `aos que criticaram o presidente da República de todos os partidos políticos e aos que propuseram o julgamento político e que revisaram sua posição`, porque tudo isso ´leva à reflexão e a tentar buscar consenso`.

Depois, Abdo Benítez desceu as escadas do palácio e se juntou a seus apoiadores. Já sem terno e com a gravata desarrumada, abraçou muitos deles, acompanhado da mulher e de um dos filhos.

O público assistiu ao ato por meio de um teláo e, enquanto o presidente caminhava em meio à multidão, foram disparados fogos de artifício.

`Vim apoiá-lo porque ele merece, está lutando contra os corruptos, e por isso o Congresso se volta contra ele`, disse Liliana Zambay, 35.

Já Sandoval Ledesma, 63, era dos que pediam a renúncia, porque `ele está vendendo o que temos de mais valioso, nossos recursos. Está menosprezando o Paraguai`.

Segundo o senador Eusebio Ramon Ayala, do oposicionista PLRA, `ainda há muito o que explicar, especialmente se o presidente tiver sido salvo por Bolsonaro`. `Vamos querer saber em troca de quê.`

Se à tarde já parecia haver um consenso entre a maioria dos congressistas de que Abdo Benítez havia se livrado do julgamento político, o mesmo não se dizia do vice-presidente Hugo Velázquez.

Advogado, de 52 anos, ele chegou ao cargo por meio do sistema de alianças armado por Abdo Benítez com a velha guarda do Partido Colorado, com quem se aliou para poder vencer Santiago Pena, candidato escolhido nas primárias por Horacio Cartes.

Velázquez teve origem humilde, em família de classe média baixa, mas ficou conhecido pela fortuna acumulada atuando no mercado imobiliário en a criação de cavalos de raça, tendo propriedades em Ciudad del Este. Tudo isso antes de virar deputado no final da ditadura de Alfredo Stroessner {1954-1989).

Em Ciudad del Este, há vários processos contra ele, agora congelados por conta de foro privilegiado. Velázquez é acusado de receber suborno por meio de um escritório de advocacia e por contrabando.

Abdo, conhecido como `Marito`, é filiado ao Partido Colorado e foi celebrado como um renovador do conservadorismo paraguaio. Seu pai foi secretário pessoal de Stioessner.

Nas eleições do ano passado, ele venceu o rival, Efraín Alegre, por uma margem justa (46,4% contra 43,2%), tanto que este alegou fraude e pediu recontagem dos votos. O mandato, iniciado em agosto de -2018, vai até 2023.

O Paraguai teve um impeachment presidencial em 2012. Fernando Lugo foi afastado em um processo que durou apenas 36 horas.

Opositor diz que Abdo Benítez atuou como advogado de Bolsonaro

Líder PLRA e segundo colocado nas eleições de 2018, Efraín Alegre, 56, minimizou o fracasso da tentativa de impeachment do presidente Abdo Benítez.

`Já estamos redigindo a nova proposta de impeachment que vamos a presentar em breve contra ele e seu vice, Hugo Velázquez`, disse à Folha.

Para Alegre, Benítez cometeu `estelionato eleitoral ao prometer que o Paraguai deixaria de ganhar menos com Itaipu do que o Brasil, como sempre ocorreu`, afirmou.

`De repente, ele faz justamente o contrário. Não queremos um presidente que atue como advogado do presidente do Brasil, completou.

O opositor avalia que o saldo de hoje não é negativo. `Serviu para mostrar a Jair Bolsonaro que ele pode achar que compra um presidente, um técnico, mas não pode comprai `um Congresso'.

As críticas ao presidente brasileiro se estenderam ao paraguaio. `Se Abdo Benítez pensa que Itaipu não importa aos paraguaios e que pode trocar isso para proteger outras questões ou negócios particulares ou familiares com Bolsonaro, então não está apto para ser presidente dos paraguaios. Nossa energia é uma questão de orgulho nacional'.

Questionado se o impeachment teria outros motivos além de Itaipu, como suspeitas de atos ilícitos dos quais o vice-presidente é acusado, Alegre disse que `por ora não`.

'Trata-se de proteger nosso interesse energético nacional. Porém, não perdemos de vista que também existem mais coisas a serem investigadas.`

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24.jul Pedro Ferreira, presidente da Administração Nacional de Eletricidade (Ande), renuncia após discordar dos termos

29.jul O chanceler Alberto Castiglioni e outras altas autoridades do governo paraguaio renunciam

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Sylvia Colombo y Ricardo Della Coletta

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