Para Espanha, acordo entre UE e Mercosul é prioritário

Para Espanha, acordo entre UE e Mercosul é prioritário

Para Xiana Méndez, vice-ministra de Comércio, defesa espanhola se deve a análises “racionais” que indicam benefícios para todos os envolvidos e cria padrões de desenvolvimento sustentável como nenhuma outra iniciativa de comércio internacional

Entre resistências e apoios, se houvesse um concurso para eleger o governo europeu mais interessado em ver o acordo de livre comércio de União Europeia e Mercosul a entrar em vigor, a Espanha seria um dos favoritos. Naturalmente ligado à América do Sul por fatores históricos e culturais, o país ibérico também tem uma relação econômica com os cinco membros do bloco sul-americano que o coloca como um aliado incondicional dos defensores do tratado

Segundo contou ao Valor a vice-ministra do Comércio da Espanha, Xiana Méndez, a firme defesa do acordo se deve a análises “racionais” baseadas em dados indicando que é um tratado que beneficia todos os envolvidos e cria padrões de desenvolvimento sustentável como nenhuma outra iniciativa de comércio internacional.

Xiana Méndez reconhece que o acordo precisará ser resiliente e não se arriscou a dizer quando poderá ser ratificado. Mas reforçou que insistirá para que ele não seja reaberto e permaneça como prioridade na agenda europeia.

Não vamos deixar que processo do acordo se eternize ou muito menos que passe para segundo plano”

A vice-ministra defende o Brasil, que tem sido protagonista nas resistências criadas por países como a França devido a polêmicas relacionadas à proteção ambiental e à Amazônia. Para ela, há um problema de comunicação, mas não significa que o país deixou de ser referência em legislação ambiental.

Méndez também diz que o Brasil é prioridade para os investimentos de empresas espanholas e acredita que, apesar das turbulências e revisões para baixo sobre a economia brasileira no ano que vem, é preciso analisar o cenário com mais frieza para evitar que se desperdicem boas oportunidades. A seguir, os principais trechos da entrevista:

Valor: A Espanha assumiu um apoio veemente à aprovação do acordo da União Europeia com o Mercosul. Por quê?
Xiana Méndez: Para nós, é fundamental que esse acordo seja aprovado. Recentemente fizemos um estudo de impacto em termos de crescimento do PIB para a UE e para a Espanha, além do Mercosul e cada um dos seus quatro países, e o saldo foi tão positivo que falamos com os nossos colegas europeus. Temos que insistir nesta mensagem: a janela de oportunidade é agora e não podemos nos permitir não ter um acordo. É o mais importante que a União Europeia já negociou com um mercado de 280 milhões de consumidores. É o primeiro que inclui questões de desenvolvimento sustentável e que menciona o cumprimento do Acordo de Paris. É parte da solução. Além disso, é prioritário porque a América Latina sempre é prioritária para a Espanha.

Valor: Outros países europeus compartilham dessa visão otimista sobre o tratado?
Méndez: Sim. A Espanha é uma firme defensora do acordo UE-Mercosul, mas há outros que apoiam muito como Suécia, República Tcheca e Portugal, claro, que tem uma concepção muito parecida com a nossa. A gente leva aos nossos amigos brasileiros a necessidade de comunicar bem a proteção ao meio ambiente”

Valor: O acordo foi anunciado em 2019 e parece estar longe de ser ratificado. Há chances de ser revisto?
Méndez: Para nós o acordo seguirá em cima da mesa. A aprovação poderá demorar mais ou menos pelo lado europeu ou do Mercosul, mas não vai ter nenhum passo atrás, na intenção da Espanha. É impossível dizer em que velocidade se poderá fazer porque depende de muitas variáveis, mas estará insistentemente na mesa. Cada vez que temos a oportunidade, insistimos na sua importância. E não por uma questão geopolítica simplesmente pelo que América Latina representa para a Espanha, mas sim porque traz benefícios para os dois lados.

Valor: É possível estipular um prazo para a aprovação do acordo?
Méndez: Não sei. Dependerá da capacidade que cada presidência da União Europeia tenha para impulsioná-lo. Posso dizer é que não vamos deixar que isso se eternize ou fique em segundo plano.

Valor: Eleições na Espanha, no Brasil ou em outros países envolvidos podem dificultar?
Méndez: Não me atrevo a falar por outros países. Mas a Espanha é tão defensora do projeto europeu que nunca permitiu que a agenda nacional esteja acima do que é proveitoso para toda a União Europeia. O que tentamos é convergir as agendas, como temos feito com o tema da igualdade de gênero, que é muito importante dentro da Espanha e incentivamos em nível europeu.

Valor: Pelo lado do Mercosul, críticos apontam que o acordo é bom para a agricultura, mas expõe o setor industrial...
Méndez: Na verdade é um acordo que beneficia todos os setores e nosso estudo de impacto mostra uma coisa muito interessante. Há produtos que ganham mais, há produtos que ganham menos, mas o saldo é muito positivo para a geração de empregos, crescimento econômico e para o controle das emissões de CO2. Isso porque incentiva uma mudança nos componentes produtivos dos países e gera maior atividade de valor agregado, além de atividades menos contaminantes, mais sustentáveis.

Valor: Mas não há o risco de reforçar o contexto de Europa exportando industrializados para a América do Sul fornecedora de matéria-prima?
Méndez: O que acontece é o contrário. O acordo, segundo o nosso estudo, beneficia a industrialização das partes menos industrializadas. O acordo não irá congelar os modelos econômicos vigentes em cada lado. O que o nosso estudo de impacto mostra é que produzirá uma alteração que será até mais evidente do lado do Mercosul do que da UE, pois incentiva uma mudança de estrutura econômica na qual as atividades de maior valor agregado vão ganhando mais espaço. Isso não quer dizer que não tenha nada a ver com a agricultura. Vejamos a agroindústria, por exemplo. Mas é um agro com valor agregado.

Valor: As acusações de que o Brasil não tem feito o suficiente em questões ambientais não preocupa a Espanha como a França?
Méndez: Temas ambientais sempre preocupam a Espanha e acredito que temos exercido uma liderança muito evidente nessa área. É uma prioridade total na nossa agenda e queremos que outros países também incorporem nas suas agendas. No Brasil, o que há é um problema de comunicação. Eu vivi aqui e sei que, pouco tempo atrás, o Brasil era uma referência em legislação ambiental. Estava na vanguarda. Deixou de ser referência de um momento para outro? Não creio.

Valor: Ainda é possível melhorar isso para baixar a guarda de países europeus relutantes com o acordo por causa do meio ambiente?
Méndez: Sim. Primeiro, fazendo com que esses compromissos se realizem e se comuniquem
claramente reforçando que estamos todos dentro do Acordo de Paris.

Valor: No início do mandato, o governo atual do Brasil flertou com uma saída do Acordo de Paris...
Méndez: Mas continua. E, se está, deve ter uma razão, uma vontade. Não falo de governo porque quando se assina um acordo de livre comércio não é um acordo de governos. É um acordo entre povos, entre países para os próximos 20, 30 anos. Se ficar evidente que o Brasil não tem uma agenda ambiental, seria uma preocupação enorme. Mas acredito sinceramente que é uma questão mais de comunicação.

Valor: Membros do governo brasileiro dizem com frequência que os países desenvolvidos deviam ajudar mais e cobrar menos. O que a Espanha pode fazer para atender esse pedido?
Méndez: Se queremos manter o discurso de que a Amazônia é o pulmão do planeta, realmente é responsabilidade de todos. Acredito que todos temos uma responsabilidade na hora de preservar o meio ambiente. Além disso, é difícil dizer que a proteção do meio ambiente é obrigação de alguém já que, se os problemas são globais, a solução também só pode ser global. Neste sentido, a cooperação internacional é fundamental e dentro da União Europeia estamos negociando isso com o Brasil.

Valor: Ajuda financeira?
Méndez: Sim, com fundos. Não sei o montante porque não estou nessa negociação, mas há um ano, pelo menos, estão conversando de mobilizar fundos.

Valor: A UE está prestes a divulgar um documento que deve detalhar exigências para evitar a chamada “importação de desmatamento”. Há algo que possa adiantar?
Méndez: Não sei dizer exatamente quando será divulgado, mas é uma questão que olhamos com bastante atenção, principalmente no Parlamento Europeu. Logicamente não tem a ver com o Brasil. É uma iniciativa ampla de fazer com que se exija sobre o que importamos o mesmo que exigimos das empresas europeias.

Valor: Esse tipo de proposta não pode desagradar países do Mercosul e dificultar a aprovação do acordo?
Méndez: Acredito que não. Quando falamos de homogeneizar padrões ambientais e trabalhistas estamos falando de abrir o mercado europeu de enormes oportunidades, mas o que entra precisa atender as mesmas condições do que produzimos lá.

Valor: E não existe a chance de que essa iniciativa seja interpretada de outra maneira?
Méndez: Nos preocupa que seja visto como uma medida protecionista. Portanto, o objetivo não pode ser protecionista, inclusive porque seria incompatível com as regras da Organização Mundial do Comércio (OMC). O objetivo precisa ser ambiental e proporcional. Um objetivo louvável e compreensível e acredito que nossos sócios apoiam, principalmente os que possuem uma agroindústria potente. O próprio Brasil investe muito em agricultura sustentável.No fim, estamos indo na mesma direção que é desenhar uma medida que não seja protecionista e apenas garanta segurança para os consumidores.

Valor: Como a Espanha pretende ajudar os sócios europeus mais reticentes a aprovar o acordo UE-Mercosul?
Méndez: Com dados. Não queremos esse acordo porque ele beneficia a Espanha. Queremos porque beneficia todo mundo e por que beneficia o meio ambiente.

Valor: E, no geral, o que esses dados mostram?
Méndez: Os números mostram que é um acordo que gera prosperidade compartilhada e impacto positivo sobre as emissões de carbono. É o melhor que se pode fazer dentro de um debate que precisa ser sereno e racional, o que não é sempre o que acontece.

Valor: Os dados sozinhos terão a força suficiente para vencer a política?
Méndez: Bem, os dados e uma boa comunicação. A gente leva aos nossos amigos brasileiros a necessidade de que comuniquem bem a proteção ao meio ambiente. E que os compromissos sejam reais e críveis.

Valor: Desde que assumiu o cargo [em 2018], sentiu alguma diferença de postura do atual governo brasileiro em relação ao meio ambiente?
Méndez: Um evento que temos na semana que vem e que o governo brasileiro participará [o Amazônia in Loco, de 9 a 11 de novembro] é um sinal muito claro de que o governo brasileiro quer mostrar as coisas que estão fazendo bem nesse âmbito. Isso é uma boa comunicação e é assim que se deve trabalhar. Em um governo, sempre se encontra pessoas que comunicam bem e há pessoas no governo brasileiro que sempre se comunicaram bem. Com [o vicepresidente] Hamilton Mourão, por exemplo, a comunicação nesse sentido sempre foi boa.

Valor: O cenário doméstico no Brasil anda turbulento com inflação em alta, projeções de crescimento em baixa e crises políticas. Está valendo a pena olhar para cá como destino de investimentos?
Méndez: Toda a América Latina foi muito golpeada pela pandemia, assim como a Espanha. Interessa a todos que o Brasil cresça e se recupere. Um primeiro passo é o bom ritmo da vacinação. Já vimos na Espanha que saúde e economia andam de mãos dadas. O Brasil é um mercado para apostar.

Valor: Como os empresários espanhóis presentes no país têm observado o cenário brasileiro?
Méndez: Dizem que a situação no Brasil é complicada, mas isso também acontece em outros países. Quando vemos as previsões de crescimento, não podemos esquecer que neste momento há reajustes de equilíbrio em nível global em termos de comércio. A escassez de abastecimento, a volatilidade dos preços das matérias-primas. É preciso manter a cabeça fria porque a recuperação chegará. A estabilidade chegará. Estamos em um momento de reajustes depois de uma crise sem precedentes. As empresas nos dizem que querem estar aqui, expandir os negócios porque confiam que o país vai crescer, o que é fundamental para a região. Estive com um par de empresas que acabaram de chegar e não têm medo de estarem no Brasil. A Ferrovial, por exemplo, já esteve, saiu e acabou de voltar. Uma empresa não faria isso se não acreditasse que há boas oportunidades.

Valor: E como o governo espanhol está se posicionando?
Méndez: Estamos dizendo que vamos acompanhar. Não importa o que aconteça, o fortalecimento das relações com o Brasil sempre estará na nossa agenda.

Valor: Que setores interessam no Brasil às empresas espanholas?
Méndez: Infraestrutura em geral. Transportes. Em seguida, energia, incluindo energia renovável. Água e saneamento também. São setores onde as empresas espanholas são líderes em nível mundial e têm muito a contribuir. Aviação civil, gestão de aeroportos. As empresas espanholas se internacionalizaram no Brasil e há uma rede comercial e de investimentos que traz benefícios para os dois lados. Isso independentemente do quanto o PIB do Brasil vai crescer.

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