Para a China, Bolsonaro é um acidente de percurso

Para a China, Bolsonaro é um acidente de percurso

16:30 - Em meio ao drama criado pelo atraso no envio de insumos para as vacinas contra a Covid-19 e o temor de que a conta havia chegado para o Brasil após dois anos de hostilidade gratuita do governo Bolsonaro com a China, passou quase despercebida na última terça uma boa notícia nas relações bilaterais.

Após sete meses de suspensão, a China liberou a importação de carne de três frigoríficos brasileiros que haviam sido desabilitados por risco de contaminação por Covid-19. Se a demora no envio dos insumos foi interpretada como uma retaliação da China, pela mesma lógica a liberação dos frigoríficos poderia ter sido vista como um sinal de boa vontade dos chineses.

O que há em comum entre os dois casos é, até que as evidências provem o contrário, o fato de ambos aparentemente terem sido resultado de questões técnicas, não políticas. Outros países também têm sofrido problemas para receber os insumos, num momento em que a demanda pelas vacinas na China aumentou com o início da vacinação em massa no país. A pressa em atribuir uma relação de causa e efeito imediata entre qualquer movimento da China que afete o Brasil e a desastrada política externa bolsonarista é uma saída demasiado simplista para explicar as ações de Pequim. A opacidade do regime chinês torna o entendimento de seu processo de tomada de decisões um desafio constante para especialistas que dedicam a vida a isso, e até para aqueles que fazem parte do sistema.

Por isso mesmo é também difícil provar com absoluta certeza que o atraso no envio dos insumos não foi uma forma de retaliação da China às provocações de Bolsonaro e cia. É possível, até porque Pequim poderia aplicar o golpe sem admiti-lo, porém o histórico recente mostra que os chineses costumam dar um jeito de deixar claro quais são seus alvos, como nas tensões recentes com o Canadá e a Austrália. Mas, mesmo supondo que havia no ar todos os ingredientes de uma crise anunciada, a pergunta que se deve fazer é o que a China ganharia em usar as vacinas neste momento como arma contra o Brasil.

Somando tudo, parece muito mais importante para Pequim valorizar a CoronaVac como a vacina que salvou o Brasil e reforçar sua “diplomacia da vacina” do que arriscá-la para punir Bolsonaro. De quebra, a vacina fortalece um rival de Bolsonaro sem que a China possa ser acusada de interferência nos assuntos internos do Brasil. Esta semana o tablóide “Global Times”, o mais aguerrido da mídia estatal, destacou uma foto de João Dória no alto de sua primeira página para noticiar o início da vacinação com a CoronaVac em São Paulo.

Entre intelectuais chineses que estudam o Brasil, a opinião é de que a paciência demonstrada até agora pelo regime chinês diante dos ataques de Bolsonaro e seu clã se deve à convicção de que ele é apenas um acidente de percurso, e de que não importa quem o suceda na Presidência a diplomacia brasileira voltará aos trilhos do pragmatismo após sua saída do Palácio do Planalto. Os interesses mútuos falam mais alto. Essa visão foi reforçada com a mobilização política deflagrada em Brasília pela crise dos insumos, incluindo a pressão de governadores para que Bolsonaro mude a relação com a China e os apelos de ministros ao embaixador chinês, Yang Wanming, o mesmo que não faz muito tempo foi declarado persona non grata no governo pelo presidente.

Ainda que não tenha resultado em retaliações abertas contra o Brasil, a atitude inconsequente de Bolsonaro em relação à China tem um custo para o país, ao bloquear canais de comunicação com seu maior parceiro comercial que poderiam ser decisivos num momento de necessidade como agora. Pressionado a interceder na liberação dos insumos para a CoronaVac, Bolsonaro tentou na quarta-feira um contato direto com o presidente chinês, Xi Jinping. Dois dias se passaram e a ligação ainda não havia se completado.
“Sobre a situação específica que você mencionou, eu não tenho informação a oferecer”, me respondeu nesta sexta a porta-voz do Ministério do Exterior chinês, Hua Chunying quando a perguntei sobre o pedido de Bolsonaro.

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