Para Alfredo Valladão, da Sciences Po, acordo Mercosul-UE é ´datado´

Para Alfredo Valladão, da Sciences Po, acordo Mercosul-UE é ´datado´

Relações externas - Professor brasileiro em instituto francês defende abertura, mas prevê que será difícil ratificar acordo

O cientista político brasíleiro Alfredo Valladão conhece a filigrana das negociações do acordo comercial entre o Mercosul e a União Européia e se diz pessimista com relação à sua ratificação. Professor da Sciences Po, o prestigiado Instituto de Estudos Políticos de Paris, onde estudaram quatro dos últimos cinco presidentes da França aí incluído Emmanuel Macron , Valladão esteve a frente da cátedra do Mercosul por uma década. Debruçado sobre essas negociações, manteve grupo de estudo com mais de 50 especialistas até 2010, ano da segunda interrupção das tratativas.

Desde então, garante, pouco mudou em relação aos termos finalmente aprovados em junho deste ano depois de 20 anos de conversas. Valladão, então, se acomodou na posição de observador privilegiado da parte europeia. Morando há décadas no velho continente, ele vem ao Brasil anualmente para a tradicional Conferência de Segurança Internacional do Forte de Copacabana, organizada pela Fundação Konrad Adenauer, ligada ao partido democrata-cristáo da Alemanha. Em um intervalo da edição deste ano, concedeu entrevista ao Valor.

Entre os obstáculos ao acordo, estaria a intensa fragmentação política dos países europeus, que enfraquece governos e empodera Parlamentos em um contexto favorável à obstrução por parte de `pequenos pedaços de Europa`. Assim fez a Valônia, região sul da Bélgica, ao travar por vários meses o acordo entre o bloco e o Canadá, em 2016. Não bastasse, afirma, a conjuntura desfavorável foi catapultada pelo recente entrevero diplomático no qual se converteu a crise da Amazônia. `Não só o governo como o Brasil inteiro está subestimando as conseqüências disso`, d iz Valadão. Mesmo assim,esse não ê o ponto que mais o incomoda nessa história.

0 intelectual, que defende a abertura unilateral da economia brasileira, se queixa porque o acordo que vira nascer não evoluiu com o tempo: seria `datado` ao focar o intercâmbio de bens de consumo e praticamente ignorar novas tecnologias ou formas de produção. Na revolução industrial que o mundo atravessa, há um aprofundamento da globalização com a pulverização da fabricação para atender mercados locaisde forma personalizada, ainda que concatenada, diz Valladão. Os novos intercâmbios exigiriam, portanto, um regramento que não foi cunhado desta vez. Leia a seguir os principais trechos da entrevista.

Valor: Como o sr. avalia o acordo comercial entre UE e Mercosul?

Alfredo Valladão: í. um acordo datado, que só vai nos permitir vender um pouco mais de carne e de soja. Não tem nada sobre os novos intercâmbios. As novas tecnologias não estão contempladas, Isso deveria ter sido fechado lá em 2004 e agora, 15 anos depois, ainda estamos regulando o passado das relações comerciais, um intercâmbio tradicional que já está mudando com as novas formas de produzire consumir, que nos inserem em outro modelo econômico.

 Valor: Qual será esse modelo?

Valladão: Vou dar um exemplo: a Adidas fechou fábricas na Ásia e reabriu na Alemanha, apesar do alto preço do trabalho e do terreno na Alemanha. Isso porque está conseguindo fabricar sapatos personalizados para clientes na Alemanha com novas tecnologias, o que custa mais barato do que importar da China. Antes importavam da China mais contêineres enormes, com 50 mil sapatos, que levavam três meses para chegar e custavam uma fortuna.

É possível entrar em loja, fazer uma espécie de radiografia do pé, escolher o tipo e as cores para fazer algo totalmente personalizado em impressora 3 D. É o início de um processo no qual, cada vez mais, a mão de obra barata vai ter menos incidência sobre o preço final e as coisas serão produzidas em fábricas locais para mercados locais, tudo conectado por internet. É o aprofundamento da globalização, e não o seu fim. A globalização como conhecemos é a das mercadorias. Dessa vez, virá a globalização de toda a produção.

 Valor: Qual seria o acordo ideaI?

Valladão: Tem de integrar as novas maneiras de produzir, consumir e se comunicar da revolução industrial e cibernética em curso. Precisamos negociar regras. Essa é a grande discussão que existe na Organização Mundial do Comércio [OMCJ. Os países avançados em tecnologia estão fazendo acordos plurilaterais sobre isso fora da OMC, Isso é ruim porque cria monopólios.

Valor: 0 Sr. É contra o acordo?

Valladão: Não. Inclusive sou a favor de abrir unilaterahnente. Ainda que ultrapassado, um acordo desse tipo é bom para o Brasil, um dos países mais fechados do mundo. Vai nos obrigar a abrir a economia. Servirá para mudar o comportamento interno, clientelista e rentista, e caminhar na direção de uma economia aberta, mais capitalista, de risco e inversão. A riqueza passa pelas redes, pela internet É outro mundo, que acaba com as instituições como as conhecemos`

Valor: Fala-se nesse acordo desde 1995. 0 que o destravou?

Valladão: Os europeus estão mais interessados em serviços e compras públicas do que propriamente no comércio de bens. Mas isso pesa. Eles começam a ter dificuldades com a revolução industrial que está vindo, sobretudo os alemães, que são os campeões da velha indústria [automotiva, maquinário] e são dependentes da China no comércio tradicional de bens. Os europeus têm interesses enormes no Bra sil. Mesmo para os franceses é interessante. O problema é que na França a agricultura é forte politicamente. Do lado do Mercosul, vamos vender um pouco mais de soja e carne, mas havia desejo de mostrar disposição em mudar de patamar e [ promoverJ abertura econômica. [Maurício] Macri [presidente da Argentina], empurrou esse acordo e isso caiu bem com o [Paulo] Guedes [ministro da Economia],

Valor: Críticos dizem que, se há cotas, não é livre-comércio e reclamam do prazo para abertura...

Valladão: É um acordo à moda antiga, que abre um pouquinho e dá até 15 anos, para zerar a tarifa. Daqui a 15 anososcontenciososserão outros. A questão central é que o avanço tecnológico faz com que possa se produzir [nos grandes centros) sem precisar da gente. O que significa um acordo sobre comércio de bens se esse comércio está mudando e tem margens cada vez menores? O comércio internacional está parado e não vai aumentar mais, porque estamos passando toda a relação comercial para redes com unidades produtivas distribuídas, mas conectadas.

Valor: A agricultura não ganha?

Valladão: O agronegócio é o setor mais moderno que existe neste país, competitivo em nível internacional. Mas a gente acha que sempre vai funcionar porque o mundo precisa da nossa comida. Não é verdade. O mundo vai rejeitar cada vez mais a comida que vem de longe. E não dá para achar que [o país] vai continuar vivendo de vender soja para China e Europa. É preciso trazer dinheiro novo para novos produtos e novas maneiras de produzir. Não entramos nas cadeias de valor globais, que são o passado. Se tivermos a sorte de ab rirmos para nos industrializarmos, o tipo de nicho que vamos encontrar serão de `good enough products for good enough consumers [produtos mais ou menos para consumidores mais ou menos] com margens pequenas. Isso não traz desenvolvimento sustentável.

Valor: O governo faz por onde?

Valladão: Guedes tem um mínimo de visão sobre isso. Ele entendeu que é preciso abrir [a economia], O Brasil nâo está em crise econômica como as de sempre. Não é só o `new normal` [novo normal]. É o fim de uma era, uma crise de toda a história social e econômica do Brasil. Desde a colônia somos um país clientelista e rentista, profundamente anticapitalista, que não quer saber de concorrência nem externa nem interna, O empresário brasileiro não gosta de tomar risco e vive às custas de proteção e crédito do BNDES. Só que não existe mais essa condição, porque a economia do mundo mudou e o dinheiro, que vinha do preço das matérias-primas lá em cima, acabou. Os preços da matéria-prima não vão subir mais, porque o mundo precisa cada vez menos daquilo que a gente produz. Nâo é possível continuar sem ter a mínima competitividade internacional em produtos industriais.

Valor: O sr. sempre acompanhou de perto as tratativas. O que impediu o acordo por mais de 20 anos?

Valladão: Estava praticamente tudo pronto em 2004. Do lado europeu havia um problema que era a carne, impossível de negociar. Nem tanto pelos produtores europeus, que poderiam se dizer ameaçados, mas pelos intermediários europeus, que compravam a carne aqui no Mercosul para vender na Europa e punham a diferença das cotas tarifárias no bolso. Esse pessoal, que mobilizava os pecuaristas europeus, existe até hoje. São dois ou três grandes grupos que não querem perder a rapadura. Do lado brasileiro, havia forte reticência em abrir para serviços e compras de governo. Os argentinos, que praticamente só tinham carne para vender, queriam mais do que a UE estava disposta a oferecer.

Valor: Como ficou questão?

Valladão: A cota geral [de exportação de carne para a UE], que é de 200 mil toneladas [por ano], foi mantida, só que pegaram um pouco menos da metade e, em vez de colocar a tarifa padrão de 22%, os europeus a baixaram para 7,5%. Isso tira um pouco do dinheiro dos intermediários, mas dá para fazer.

Valor: O governo Bolsonaro concluiu as conversas em pouco menos de sete meses. Houve açodamento?

Valladão: De forma alguma. As negociações tinham chegado até onde podiam. É um acordo negociado há tanto tempo que ou você fechava ou não fechava.

Valor: O sr. acredita que as negociações serão ratificadas?

Valladão: Sou pessimista quanto a isso. Teria de ratificar em 18 meses a contar da conclusão das negociações, que aconteceu em junho. Mas acho difícil que isso ande no ambiente atual, em razão da exigência de unanimidade entre parlamentos europeus. Existe tal fragmentação do ambiente político na Europa que torna tudo mais complicado. Não basta os governos estarem de acordo. A França está dividida e a Alemanha está se fragmentando também. A Espanha está na quarta eleição em quatro anos, rachada, assim como a Itália. Com os Executivos enfraquecidos, os parlamentos ganham força, o que cria pequenos pedaços de Europa com papel de bloqueio muito fácil.

Valor: Mas houve ambiente para concluir as negociações até aqui...

Valladão: A própria França fez força para concluir as negociações e assinar, enfrentando seus ecologistas e agricultores. Mas a questão amazônica mudou tudo. França e Alemanha continuam sendo o casal que faz funcionar a UE. Se nâo tem um dos dois, é difícil fazer acontecer. O Parlamento Europeu sinalizou que na atual condição está difícil, e o da Áustria disse não querer. Muita gente diz que não embarca mais.

Valor: Oujjos têm usado a Amazôn la para incitar a populaçào ?

Valladão: O próprio presidente francês usou por motivos internos, porque tem eleições municipais daqui a pouco e para ele é importante para segurar politicamente os `verdes` e os agricultores. Porque ele não foi em cima do [presidente da Bolívia] Evo Morales, que está queimando mais? Por uma razão: toda vez que a floresta queima na Bolívia, Evo diz que estão fazendo todos os esforços para frear os incêndios e |no Brasil] temos um governo que, por meses, fez discurso de que tem de abrir [pasto] mesmo. A postura do governo foi dizer que a Amazônia é nossa e que faz o que quiser com ela. E aí tirou o chefe do Inpe [Instituto de Pesquisas Espaciais], duvidou de dados científicos, tem ministro que fez d iscurso negando o aquecimento global. É como dar soco em ponta de faca. Eventualmente, pode ter razão em algum ponto, mas não adianta. Trata-se de uma percepção estabelecida das pessoas. Esse tipo de enfrentamento tem conseqüências imediatas, sobretudo na questão ambiental, que hoje está no centro da política na Europa.

Valor: O governo Bolsonaro subestima os efeitos dessa crise?

Valladão: Nâo só o governo como o Brasil inteiro. Nâo entendem a força da rejeição do público europeu. Nâo falo dos dirigentes, porque isso ainda é possível segurar. Mas, com essa briga,a imagem do país caiu de maneira brutal na opinião pública europeia. Nâo ésó porque tem governos ou imprensa incitando a reação. Há preocupação genuína da população sobre a questão climática. Isso fica claro quando todos os partidos, à esquerda ou à direita, fazem discursos `verdes`, e nas urnas: os partidos que mais crescem, apesar das bases pequenas, são os `verdes`. Você entra em supermercado na França e vê que as gôndolas de produtos orgânicos e localmente produzidos aumentam dia a dia. O consumo de carne bovina caiu 30%. Há preocupação forte em negar produtos que vêm de longe. Tudo isso cria um clima políticosocial que torna muito difícil para os governos aprovar esse acordo.

Valor: A questão ambiental é o único empecilho ao acordo?

Valladão: Não. Hoje a maioria dos acordos é difícil de ratificar porque fala muito mais de regulamentação do que de comércio em si. Preveem que, além de abrir, é preciso regular determinada produção de tal maneira. É problema sério porque toca dentro de casa e cria problemas políticos. São padrões técnicos, autorizações, mil coisas. Basta mudar alguma que se cria barreira. Fica mais difícil porque tem preço político.

Valor: Como vê o alinhamento de Bolsonaro com os EUA?

Valladão: Não dá para ser inocente sobre negociar com os Estados Unidos. São duríssimos e, com [Donald] Trump , mais ainda. É um equívoco achar que Trump será bonzinho só porque é simpático ao governo brasileiro. É um erro corno o de lula, ao achar que a China seria o nosso grande parceiro, que seríamos irmãos do terceiro mundo.

Valor: Renunciar ao status de país em desenvolvimento na OMC a pedido dos EUA foi um erro?

Valladão: Não acho. O Brasil realmente precisa parar com isso de subdesenvolvimento, algo que nós mesmos criamos. Renunciar ao status de país em desenvolvimento significa que temos de fazer as reformas internas, o que é bom. É tirar a máscara para dizer que a culpa é nossa.

Valor: Foi uma exigência dos EUA para apoiar a entrada do Brasil na OCDE.

Valladão: Mas você não vai entrar na OCDE [Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico] se for um país em desenvolvimento. Precisa estar submetido às regras eaos padrões da OCDE. Acho positivo se for mais uma forma de modernizar nosso arsenal de instituições, regras e impostos. A gente nunca entrou porque, se entrássemos, não poderíamos mais fazer a chamada política industrial. O que é isso no Brasil? É dar proteção e dinheiro barato de banco público. Onde está a infraestrutura? É verdade que estamos um pouco na OCDE, onde participamos de mesas. Mas se o Brasil entrar, de fato, terá de se conformar a algumas regras mínimas de países sérios. Não há ganhos de curto prazo, mas é preciso colocar na cabeça das elites econômicas a necessidade de mudar o modelo. Nâo é mais possível viver de comida e minério.

Valor: O sr. diz que a transformação do morfelo de produção tem a ver com um fenômeno social mais amplo. Como isso acontece?

Valladão: A Zara na Espanha não tem mais operário praticamente, só designers. Eles ficam olhando para tudo o que surge em lojas do inundo inteiro e mudam de moda a cada 15dias, com séries curtas feitas para Marrocos, Portugal, Espanha etc. Esta ê a nova maneira de produzir e o que conta é o design, a personalização. Rede social também é personalização. A prestação de serviços também está cada vez mais individual, caso do Uber por exemplo. Até então, era produção de massa para o consumo de massa, Toda a nossa estrutura política e social vem da segunda revolução industrial que, muito resumidamente, concentrou um bando de gente em fábricas. Essas pessoas começaram a ter interesses comuns, de onde surgiram os sindicatos e, depois, os partidos. Em reação, vieram os partidos burgueses. Para sair da luta de classes criou-se um sistema de capitalismo que funcionava, com um Estado forte e a construção de uma classe média. Esse sistema produtivo está acabando e, com ele, a sociedade que criou. A riqueza hoje passa pelas redes, pela internet. Estamos em um outro mundo que acaba com as instituições tais como as conhecemos. Eu não sei se a democracia representativa vai ser adaptada, mas acho que teremos de inventa r no vos meios de gestão pública, que podem prescindir dos Estados nacionais, por exemplo. Eles não vão desaparecer, mas sua função será outra. Funcionarão, talvez, como prefeituras.

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