Pandemia leva refugiados venezuelanos a outro pesadelo: voltar para casa

Pandemia leva refugiados venezuelanos a outro pesadelo: voltar para casa

Se a situação já era uma catástrofe antes da crise de coronavírus, agora ficou pior

Para os refugiados venezuelanos que deixaram suas casas parece que o pesadelo não tem fim.
Desde que a pandemia do novo coronavírus começou a atingir os países que os receberam —principalmente Colômbia, Peru, Chile, Brasil e Argentina—, a já sofrida luta pela subsistência ficou ainda mais difícil.
Tirando o Brasil, os demais vêm tomando medidas bastante duras de distanciamento social, ampliando a duração das quarentenas, fiscalizando o isolamento, fechando atividades comerciais e industriais e inviabilizando a rotina de quem vive de trabalho informal.
Com isso, muitos começaram a fazer o que seria impensável até alguns meses atrás: voltar, a pé, de ônibus ou de carona, para a Venezuela.
Segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur), são milhares os que tentam retornar ao país, apesar de saber das condições terríveis da economia, do sistema de saúde e da falta de alimentos e de remédios.
Em depoimentos à britânica BBC, eles alegam que, apesar de tudo, muitos mantiveram suas casas na Venezuela, e então não teriam de pagar por abrigo, além de estarem perto de familiares, a quem é possível pedir ajuda.
Ainda assim, o caminho de volta não é fácil. Devido ao fechamento de fronteiras, os refugiados têm tido que atravessar países de modo ilegal, passando frio, fome e expostos a doenças, roubos e violência.
Quando chegam à terra natal, o pesadelo não acaba. Se, por um lado, o ditador Nicolás Maduro tem usado esse retorno como propaganda de seu regime, por outro, os refugiados relatam uma saga ao pisar no território venezuelano.
Primeiro, têm de cumprir quarentena em instalações que a ditadura ativou. Se Maduro diz que ali é o lugar de boas-vindas, os relatos de quem passa por esses abrigos são outros.
Falta água, comida e há maus tratos por parte dos oficiais que vigiam esses locais.
Segundo Tomás Guanipa, embaixador designado pelo líder opositor Juan Guaidó para a Colômbia, esses lugares são como "campos de concentração".
Por outro lado, Iván Duque, presidente da Colômbia —onde está a maioria dos refugiados—, admitiu não ter estrutura para atender todos e pediu ajuda à comunidade internacional.
Afinal, embora tenha destinado fundos para auxiliar quem vive de trabalho informal no país, o governo estima que ao menos 60% dos venezuelanos na Colômbia sequer estejam registrados no departamento de Migração. Por isso, não podem pedir nada.
Se a questão dos refugiados venezuelanos já era uma catástrofe antes da pandemia, agora ficou pior.
E, se continuar a faltar solidariedade por parte dos países da região, a situação pode degringolar ainda mais. Deixá-los à deriva, caminhando, com fome, não apenas os expõem à contaminação, mas faz com que a doença encontre neles vetores para infectar mais gente pelo caminho.
É por isso que Colômbia, Peru, Brasil, Chile e Argentina, principalmente, deveriam ter planos humanitários específicos para cuidar dessa população e evitar que atravessassem esse martírio.
E a ditadura, por sua vez, deveria garantir uma repatriação digna aos que de fato desejam voltar.
Correspondente em Buenos Aires, foi editora da Ilustrada e participou do programa Knight-Wallace da Universidade de Michigan.

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